quarta-feira, 4 de junho de 2014

Faz hoje seis anos que morreu com ele a menina do meu avô

Sabes, vô, nestas coisas das datas sou, como em muitas coisas na vida, cheia de contradições. Sei a data de aniversário de todos, não me esqueço do aniversário de um familiar, de um amigo do coração, dos amigos de infância e dos da escola primária, da professora que me foi mais querida ou do meu primeiro namorado. Não me esqueço das datas especiais, a do teu casamento com a avó, do dia em que a D. foi baptizada, do milésimo casamento do tio N., da minha queima das fitas ou do dia do lançamento dos livros. Mas não sou de decorar datas tristes, evito ocupar espaço na minha memória com números que simbolizam dor, perda, lágrimas e vazio. 
O mesmo que faço ao tempo triste faço ao espaço. Nunca mais voltei ao cemitério onde arquivaram os teus ossos doentes e gastos, matreiros e velhacos. Tu não és a memória de um dia triste nem de uma cova solitária com uma caixa de madeira onde guardam o fim. 
Fz hoje seis anos que me morreste, avô, e nesse dia morri eu também, parte de mim, morreu a menina do meu avô.
Mas não morreu a minha infância vivida contigo, os momentos a dois, o colo quente, as tuas mãos de gigante Adamastor, a memória da tua voz, das anedotas seguidas de gargalhadas, a rapidez do zapping comandado por ti, o sorriso com os dentes afastados, os óculos de massa, a boina na cabeça, o prato de batatas e peixo cozido cuidadosamente esmigalhados por ti para que eu o conseguisse comer, o beijo demorado.
Faz hoje seis anos que morri contigo, que morreu contigo a menina do seu avô. Vives na mulher que me ajudaste a ser, todos os dias, em todas as datas, em todos os espaços, para sempre. 
Não falo contigo no passado porque serás sempre presente em mim. Gosto tanto de ti avô e tenho saudades sem fim. 
"Ó Vôoooo!"- chamo-te em pensamentos. Beijo-te de olhos fechados. Sei que receberás este beijo, de mim para ti. 

6 comentários:

E.M. Valmonte disse...

nestes dias, devemos procurar o silêncio, porque este tipo de dor, tem que ser vivida em paz. é um misto de dor e "prazer" pelas recordações.

gostei muito do teu texto.há dias em que acho que as pessoas, quando morrem, vão para outro sítio qualquer. depois de ler o teu texto,hoje é um desses dias. relembro as minhas pessoas e tenho a certeza que as tuas, estarão muito orgulhosas de ti.

C4 disse...

Também sou como tu. Lembro-me das datas de aniversário de toda a gente e das datas de episódios que tenham acontecido ao longo do tempo.
A única data triste de que me lembro é a morte do meu avô pois é também o dia do meu aniversário. E para o mês que vem já serão 7 anos sem ele aqui comigo mas sempre presente no meu coração.
Obrigada por este texto!

K disse...

Como te compreendo tão bem! Eu também gosto de recordar as datas "boas" (e são nessas que celebro a pessoa, que me é muito querida, mesmo já não estando cá).
Um beijinho grande!

Teresa Pires disse...

Querida Ursa!

Começa a avisar quando os posts metem "água". Estou-me a segurar para não desabar em lágrimas...

Compreendo-te tão bem!

Beijinhos**

Cristina Pedro disse...

lindo

Tânia Ribeiro disse...

Já deixei aqui umas lágrimas e um sorriso de saudades do meu avô também :)

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