segunda-feira, 30 de junho de 2014

O air-bag da vida da minha filha

Estava grávida da Ana quando percebi que o meu corpo não era forte o suficiente para a proteger. Uma gravidez de alto risco e muitas complicações de saúde fizeram-me, desde cedo, perceber que o meu corpo não era forte o suficiente para a encarcerar dos perigos, das hipóteses de alguma coisa correr mal. 
Quando, às 30 e poucas semanas percebemos que o meu corpo punha, ele próprio, em risco a minha filha a cesariana foi inevitável e a Ana nasceu. Finalmente, nasceu. 
Cá fora tinha uma sensação de maior controlo, já não havia útero e carne e pele a separar-nos, as minhas mãos podiam acudi-la, os meus ouvidos ouvir cada suspiro, os meus olhos monitorizarem-na. Senti isto meses a fio, esta sensação de maior controlo, de não largar a miúda por um minuto, de estar atenta a cada movimento, som, expressão facial. 
A Ana cresceu e começou a querer conquistar o Mundo. Eu já não conseguia estar com ela colada ao colo, controlar cada movimento, escutar cada som. Já não conseguia prevenir acidentes, quedas, tropeções, batidas de cabeça e arranhões nos joelhos, vírus no ar e tosse à noite ao dormir. De novo, em mim, a mesma sensação de impotência, de descontrolo, de insignificância face ao Mundo. 
Eu queria ser o air-bag da vida minha filha e, quando dei por mim, restava-me muito pouco senão controlar o pouco que é possível controlar e dar beijinhos nos dói-dóis. Diz que saliva de mãe tem um efeito curativo, aprendi-o com a minha própria experiência. 
Ontem, ao ouvir as notícias, apetecia-me outra vez encarcerar a Ana em mim, com o terror de quem teme que algo de mau lhe aconteça, minha filha, meu amor, e lembrei-me do meu corpo frágil que não a protege. Apeteceu-me abraçá-la por inteiro, para que coubesse toda no meu abraço, air-bag emocional, cobri-la com o meu corpo do Mundo, dos perigos, da morte. 
Fitei-a a dormir, o sono dos anjos, reflectindo sobre a minha materno-insignificância, lembrando-me daquelas palavras de que os filhos são do Mundo. Talvez aprenda isto à custa de muita cabeçada, de lágrimas e de dor mas vem-me sempre à memória as palavras da minha amiga Ziza, tripeira de gema, que só com o devido palavrão dá a força imperativa às palavras: "os filhos são do Mundo, o caralho, os filhos são das mães!"
Eu só queria ser o air-bag da vida da minha filha. Para sempre. 

6 comentários:

Uma Pitada de Noz Moscada disse...

:( Obrigada por colocar em palavras o que sinto desde ontem à noite quando abri o Facebook e li a triste noticia. O meu filho é a minha razão de viver. Perde-lo a ele seria perder tudo. sem palavras :(

Rita Costa disse...

Os meus 3 filhos são prematuros, muitas complicações, incluindo transfusões de sangue.
Quando o Afonso nasceu (o primeiro) e o levaram para a incubadora só me apetecia "engoli-lo", enviar o miúdo dentro da minha barriga outra vez.
Quando eles choram de tristeza eu sinto o peito esmagado e tanto que quero trocar de lugar com eles...
Não imagino a dor de quem perde um filho... nem nunca quero saber com é.

Barbara Castilho disse...

Fiz exatamente o mesmo!
Aliás faço isso muitas vezes: adormeço na cadeira a vê-los dormir!
Acho que estou a ficar cada dia mais paranoica, mas quanto mais eles crescem mais o meu medo aumenta!

Filipa Silva disse...

subscrevo cada palavra!!! os filhos serão sempre das mães!!

Melancia disse...

Curioso, ainda ontem, a proposito da sconversas que rolavam acerca da morte do filho da Judite de Sousa, alguém soltou a célebre frase "os filhos são do mundo" e, a minha reacção mental foi exactamente a da Ziza, palavra por palavra. Não foi o mundo que os carregou durante 9 meses, não foi o mundo que os pariu, não foi o mundo que os alimentou, não é o colo do mundo que eles querem quando estão doentes e não é o mundo que se levanta de noite quando choram. Por isso essa frase é uma bela treta. Os outros eu não sei, mas os meus filhos são MUITO MEUS!

Isa Maria disse...

Ainda ontem n adormeci enquanto n ouvi as chaves a abrirem a porta da rua. Conclusão:morro de sono mas só dormi descansada qdo o senti de novo em casa. Mãe é mãe!

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