domingo, 22 de junho de 2014

Sobrevivi a uma venda de garagem

Ou melhor, em Cascais, eleva-se sempre as expectativas e chama-se à coisa "Garden Sale". Chegámos pela fresca, cheios de sacos e com um ar desnorteado. Nunca vendi nada na vida, acho que nem rifas. Não tenho qualquer aptidão comercial. Mas hoje a ideia era diferente: fazer uns trocos, livrar-me dos monos (ou como se diz na gíria dos garden salers "destralhar") e fazer um programa diferente a dois com mámen. Assim foi.
A coisa começou logo na entrada do Parque Marechal Carmona, o sitio onde decorria a pseudo feirinha da ladra. Virámos à esquerda depois da entrada, o que significa que escolhemos ficar no lado que não é o de passagem para os visitantes do parque. Mámen ripostou porque raios queria ir eu para o lado onde passava menos gente, onde estava o meu sentido de oportunidade mas contrapus com o facto dali poder ficar na relva em vez de no caminho cheio de pó, de ter a sombra das árvores e de me diferenciar da confusão. Encolheu os ombros e fez-me a vontade. A contra gosto. 
Estendidas as toalhas comecei a dispor dos objectos criteriosamente seleccionados na véspera. Ia mirando um a um, com olhar de mãe que vê os filhos partir para a guerra, num silêncio de pesar. Puxei da cadeirinha mete-nojo e sentei-me. Olhei para o lado e a vizinha da banca bebia café num termo (nota mental nº 1- trazer comida e bebidas para estas andanças é essencial). Mámen- esse santo- prontificou-se a ir a um café buscar bebidas quentes e a um supermercado ali perto abastecer-se de pic-nic e fiquei sozinha. 
Começam a chegar as primeiras pessoas. Uma inglesa pede-me para ver um bule em forma de autocarro britânico que trouxe da minha primeira viagem a Londres com o homem e que por ser tão piroso kitsh nunca chegámos a usar. Comprámo-lo numa lojinha de Covent Garden e assim que a freguesa mo pediu para o ver, fiquei com um nó na garganta. Passei-o para a sua mão e, na tentativa de regatear preço apontou um defeito na pintura do bule. Arranquei-lho da mim "que sim, senhora, tinha toda a razão, onde já se viu eu estar a querer vender um bule com defeito, mil perdões, milhões de desculpas, retiro já o bule da banca". A mulher ainda tentava negociar, que não havia problema, que bastava eu fazer uma pequena atenção mas que não, que ia lá vender uma coisa estragada, por quem sois... Foi-se embora com um ar confuso e eu respirei de alívio, enquanto guardava o meu bulinhe querido num saco refundido. 
A seguir veio outra senhora e começou a remexer numa capa de lã muito gira que comprei quando estava separada, lembro-me que assim que a vesti pela primeira vez me senti muito distinta, a capa aumentava-me a auto-estima e costumava coordená-la com umas botas de peter-pan de meia estação e sentia-me mesmo gira quando as vestia. As botas estragaram-se e, por causa disso, deixei de usar a capa de lã. A freguesa perguntou-me o preço e inflacionei um bocadinho, na tentativa vã de a dissuadir a levar a minha rica capinha. Nem ripostou, remexia na carteira quando eu avancei com um "mas não a quer ao menos experimentar?". Disse-me que não era preciso, que gostava mesmo da capa. Estava eu a acabar de proferir a frase "ah, espere não a leve, que tem aí uns inestéticos borbotos..." quando o homem regressou com os cafés e o lanchinho. De repente, só o vi a agarrar na capa e a elogiar a cor, que com certeza ficaria a matar com a tez da senhora, que era de uma lã boa, os borbotos eram da falta de uso e de estar a apodrecer no armário, que nunca me tinha visto com aquela capa... 
Engoli em seco, quando a mulher se afastou com  minha capinha querida, miando que ainda por cima era uma peça vintage que a Tie Rack já nem existe em Portugal, enquanto mámen, esse estupor insensível, me arregalava os olhos. 
Entretanto, um casal de franceses comprou uma camisola da Gant e outra de lã de caxemira do homem que, todo contente, arrumava o dinheiro na latinha, enquanto eu- incrédula- lhe perguntava se ele tinha noção que nunca mais iríamos ter a vida que já tivemos para comprar camisolas de lã de caxemira daquela qualidade. Encolheu os ombros e disse-me que lhe estavam ambas larguíssimas e já não as iria nunca mais usar. ainda lhe soltei uma praga de que, os homens depois dos 40 engordam, vais-te arrepender, ao que me respondeu que gostava da ideia dos objectos terem uma segunda vida. Estupor, que sempre me disse que não acreditava na reencarnação!
A seguir começou a chuviscar e eu pensei que era altura de ir para casa mas não. Mámen, sempre alerta, ex-escuteiro dos quintos costados, trouxera um plásticozinho para cobrir a mercadoria... Bufei. Bufei muito.
Nesta altura, a nossa vizinha de banca desistira (um abraço solidário, se me estás a ler!) e mámen insistiu que tínhamos que mudar, mesmo, de localização. Assim foi.
De repente, localizados no meio do caminho, começaram a chover clientes. Muitos clientes. A primeira apontou-me um cachecol Pierre Cardin: "é verdadeiro?". Antes de eu alvitrar um "Não tenho a certeza", já mámen dizia que sim, por quem nos tomais vós, pode sentir a qualidade através do toque, ora experimente lá. E lá foi a senhora, toda contente, com o meu cachecol branco, que não uso vai para mais de dez anos, mas que me foi oferecido pela minha tia e lhe custou os olhinhos da cara. 
A machadada final foi quando uma grávida me perguntou o preço da banheira Shantala da Ana, objecto que nunca me deu jeitinho nenhum. Mas olhando para ela vinha-me à memória a minha filha bebézinha, coisa mais linda de sua mãe, com ar de gato escaldado a entrar na banheira, e dava-me memórias sorridentes. Mámen avançou com o preço e a senhora disse que a levava. Perguntei-lhe se esperava um rapaz ou uma rapariga e avançou-me que era um rapaz. "Mas a banheira é cor-de-rosa, isso para si não é um problema?". Que não, não era, viesse daqui a shantala. 
Enquanto ela se afastava com a minha banheirinha, os meus olhos enchiam-se de lágrimas. "És um insensível, mámen!"- atirei-lhe, com revolta. "Pensa que vai ter uma segunda vida, outro bebé lá dentro, fazer outra mãe feliz..." respondeu-me o idiota.  "Segunda vida já tinha ela..."- ripostei.  Desta vez mámen perdeu a paciência: "servir de alguidar para tirares a roupa da máquina de lavar não é segunda vida, Pólo Norte! E para a próxima ficas em casa que és a pior negociante de que há memória..."
Engoli em seco e calei-me. Para a próxima não é preciso ficar em casa. Basta que, em vez de café, ele me traga vodka e uns calmantes. Muuuitos calmantes.

(Para além do signo o facto de eu ser filha única também serve de atenuante, certo?)

6 comentários:

Abelhita SCC disse...

Heheheheh
Vida dura a de quem prende à memória um objecto físico, sentimentos que não é possível transcrever. ...
Como eu compreendo. .. oh sim...

verde pinheiro em sépia disse...

É bom sentir-me acompanhada...

http://verdepinheiroemsepia.blogspot.pt/2012/10/hoarder-em-latencia.html?m=1

Cátia Henriques disse...

Já fui persuadida a comprar umas coisinhas por Sr. Mámen e asseguro que não é fácil escapar-lhe! hehe!

Liliana Maciel disse...

Mas tu queres ver???!! Liliana e caranguejo! Prazer!
Aconteceu-me o mesmo mas com umas vendas no OLX! É mais fácil...acredita...se alguém te pergunta o preço..."Oh já está vendida!" "Mas obrigada pelo contacto, disponha!" Fácil, fácil!

Carla Pereira disse...

Sabes que és quadripolar quando vais a Cascais, num dia em que não há "Garden Sale", e andas a olhar para os lados, à espera de encontrar família Norte-Mámen!!

Heidi disse...

Se puderes disponibilizar Mámen para o garden sale deste sábado dava-me jeito alguém que me dinamize as vendas! :D

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