sábado, 12 de julho de 2014

À Cristina Bizarria, por ocasião da sua despedida de solteira

(S. Miguel) Retém isto: o amor é verde. Digam o que disserem, o amor é sempre verde como a esperança. Casa com uma peça verde, acredita em mim. Casa a acreditar, com muita força, que vai ser para sempre. Acreditar é sempre meio caminho andado para se concretizar. O amor é verde e, também, um bocadinho de azul. Ama como a lagoa das sete cidades, com lenda, com história, com a magia de quem acredita que azul e verde não se misturam por obra dos Deuses e nunca percas a paixão do Fogo. Prevejo resiliência, os açorianos estão habituados a abalos, não se assustam ao primeiro tremor. E sempre que houver um obstáculo faz como nas furnas e torna-o num desafio a teu favor, enfia o alimento da alma dentro da terra a escaldar e torna-o na mais saborosa das refeições. 
(Santa Maria) Nunca acredites que conheces tudo no teu homem. Não generalizes, não faças juízos de valor nem contes com dados adquiridos. Acredita sempre que há algo escondido para te provar que não há verdades absolutas: que as ilhas dos Açores não são todas húmidas e nebulosas, com praias de areia preta e casas de pedra escura. A vida a dois reserva sempre surpresas. Descobre o teu homem dia após dia, todos os dias, até ao fim da vossa vida. Quando pensares que já há pouco que te surpreenda, pensa que "We'll always have Santa Maria"!
(Terceira) Alegria. Nunca percas a alegria. A alegria das gentes da tua terra, que encontram em cada momento um pretexto para festejar: a vida, a comida farta, o mar e as ilhas. Mantém a alegria com a força dos touros na areia. Mantém a alegria apesar da bruma e das intempéries. 
(Graciosa) Prepara-te para que os ventos nem sempre estejam a favor. E não é por isso que se derrubam moínhos. Respira fundo, e têm atenção às nortadas, às marés e à lua, mais brilhante, sempre mais brilhante e em espelho no oceano. Os moínhos resistem de pé aos ventos maus e aproveitam os ventos a favor. Faz o teu próprio pão, no teu moinho, com a força dos ventos bons. Mantém-te de pé quando os ventos não te forem favoráveis. És dos Açores. 
(São Jorge) Nunca te deites zangada com o teu marido. Beija-o sempre antes de dormir, com a doçura com que as fajãs beijam o mar, com a dolência com que as ondas beijam o basalto. Encontra no beijo do teu homem um farol. [O amor é um anti-ciclone, acreditas em mim?]
(Pico) Vive a tua vida a dois como quem sobe uma montanha. Não percas o foco, não deixes de te lembrar que, por mais árdua que seja a caminhada, por mais que te doam os pés, o farol dos faróis fica no pico do Pico. Respira fundo, enche o peito, pede-lhe ajuda para subir, estende-lhe a mão quando ele estiver cansado, estejam ambos preparados para que, eventualmente, possa faltar oxigénio. Mas não percam de vista que lá em cima, lá mesmo em cima, serão em conjunto, donos do céu e do mar. A dois o Mundo pertencer-vos-á!
(Faial) Amem-se como dois marinheiros que partem numa viagem pelo Atlântico a dois. Ouçam as histórias dos viajantes, coleccionem na retina imagens que depois possam pintar nas paredes das vossas memórias, brindem à vida com gin, angelica ou vinho de cheiro, tanto faz, sejam companheiros de vida como de viagem, capitães do destino comum. Criem o vosso próprio brinde, o vossos códigos. A cumplicidade constrói-se a cada milha que se viaja junto, a cada tempestade no mar que se ultrapassa, a cada novo porto onde se atraca, a cada memória que se vive, constrói e partilha. 
(Flores) Apreciem cada pequena conquista, valorizem cada insignificante descoberta. As hortênsias têm mil tons, descubram cada um deles, explorem a vida como quem parte à descoberta de uma pequena ilha, como quem procura um pequeno oásis, como quem descodifica o som dos cagarros e fecha os olhos e é feliz com as cores das flores, as descobertas de trilhos de terra batida, a frescura da água de uma lagoa ou som de pássaros no mar. Os momentos mais simples podem ser, incrivelmente, os mais felizes. 
(Corvo) Insistam, persistam, nunca desistam e existam para sempre, no plural. Na vida tudo de resolve porque, afinal, o mar é já ali. Respirem fundo, amem-se e estejam preparados para ventos e marés, luares cheios e luas novas, abalos e vulcões, sol e chuva. Quando acharem que uma ilha pequenina nada terá para vos oferecer, deixem-se surpreender. Nunca se esqueçam do que o outro tem que vos fez apaixonar-se. E conservem, dia após dia, o sal nas vossas vidas, no vosso amor. O Atlântico é um bom condimento e tudo vai correr bem. O mar é já ali. 

Sejam felizes!

Um beijinho,

PN

4 comentários:

Bicharocos Carpinteiros disse...

Tão lindo e tão verdadeiro.

Almofariza disse...

Só tu, Açoriana honorária, para escreveres desta forma das minhas/tuas ilhas!

Cadês

Almofariza

P.s- Beijinho e muitas felicidades à noiva!

Lúcia Almeida disse...

Lindo!

CoriscaRuim disse...

opá, tu mete-te num avião e muda-te para cá :p

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