sábado, 5 de julho de 2014

A maior lição de Psicologia foi-me dada, hoje, pela minha memória

Quando os meus pais se separaram, tinha eu oito anos, decidi mudar-me para a cama da minha mãe. As recusas foram muitas, que eu já tinha o meu quarto, que sempre tinha dormido sozinha, olha que disparate, mas que raio de ideia era aquela de agora querer ir dormir com a minha mãe, já era uma senhorinha, que vergonha, que horror. 
Devido à fragilidade da situação (foi uma separação conturbada) a minha mãe acabou por aceder e ali fiquei eu, a dormir ao lado dela, noite após noite, durante muito tempo, não consigo a esta distância, precisar quanto.
Na altura fui seguida por uma psicóloga, cheia de boa vontade, que não concordava com aquilo que ela chamava de "regressão". Que deviam insistir para que eu voltasse para o meu quarto, a minha cama. Face às  minhas recusas constantes, a minha mãe não teve coragem de me expulsar da cama, coitadinha de mim, estava a sofrer com aquela separação, era uma forma de exteriorizar a dor, de querer voltar a um realidade mais protegida, mais contentora, de estar mais perto da minha mãe, quem sabe tivesse medo que ela também saísse e nunca mais voltasse, como fizera o meu pai. A psicóloga acabou por achar que era esta a explicação. 
Tenho pena, muita pena, que no meio de análises projectivas, interpretações várias e psicoterapia a uma criança de oito anos ninguém se tenha lembrado de me perguntar porque raios quisera passar a dormir na cama da minha mãe. 
Na verdade eu queria monitorizar a minha mãe, protegê-la. Era só isto. Eu sabia que na minha presença ela não choraria, que se o lugar anteriormente ocupado no lado esquerdo da cama pelo meu pai estivesse preenchido pelo meu corpo pequenino ela, a senhora forte que eu sabia que chorava quando achava que eu não estava a ver, sentir-se-ia menos só, mais acompanhada, sentiria menos a falta dele. Eu queria tomar conta dela, fazer-lhe companhia, torná-la menos triste. 
Sim, eu parentifiquei-me, é verdade. Mas nunca, nunca, regredi. Sentia, apenas, a responsabilidade de tomar conta da minha mãe, sentia esse dever, tinha essa presunção no alto dos meus oito anos. 
Hoje, a atender uma família, depois de uma mãe me colocar uma série de angústias sobre o filho, lembrei-me de mim e pedi-lhe que interrompesse o desenho que estava a fazer e que respondesse à questão que inquietava a mãe (e que ela esperava que eu, como psicóloga, interpretasse). A resposta foi óbvia e tão clara e simples, de uma forma que só as crianças conseguem não complicar. Na maior parte das vees não interessa a habilidade em interpretar mas a humildade de perguntar e a simplicidade de escutar. 
E, veio-me à memória,o episódio da psicóloga Manuela, da cama da minha mãe, memórias recalcadas, apagadas pelo (meu) tempo e senti que não se pode psicologizar com crianças sem chamá-las a fazer parte desse trabalho, a responderem a algumas questões, a darem-nos lições de que nós é que complicamos as situações, tiramos ilações, juízos de valor e interpretações com base nos compêndios dos livros teóricos. 
Às vezes um desenho pintado a preto não significa luto, dor, revolta. Pode significar, apenas, que na caixa de lápis de cor, o lápis preto era o único que estava afiado. 
Os adultos- caraças!- os adultos complicam tudo. Mas hoje a minha memória ensinou-me a ser um bocadinho melhor profissional. 

7 comentários:

UBM disse...

Pólo, aproveitando o teu conhecimento, espero que me consigas esclarecer esta questão: tenho vindo a reparar que os pais têm o lado esquerdo da cama. em toda a minha família os homens dormem do lado esquerdo da cama (a não ser o meu avô, sempre a exceção, diga-se) e sem alguma vez se ter conversado sobre isso, o meu namorado ficou com o lado esquerdo da cama.
Além disso já conversei com alguns amigos e em casa deles passa-se o mesmo.
Tens alguma sugestão do motivo?
Beijinho

UBM disse...

Pólo, aproveitando o teu conhecimento, espero que me consigas esclarecer esta questão: tenho vindo a reparar que os pais têm o lado esquerdo da cama. em toda a minha família os homens dormem do lado esquerdo da cama (a não ser o meu avô, sempre a exceção, diga-se) e sem alguma vez se ter conversado sobre isso, o meu namorado ficou com o lado esquerdo da cama.
Além disso já conversei com alguns amigos e em casa deles passa-se o mesmo.
Tens alguma sugestão do motivo?
Beijinho

Inês Dunas disse...

è mesmo isso, os adultos complicam tudo! E subestimamos, muitas vezes a perspicácia e a sabedoria transparente ( e fascinante)das crianças! Gostei desta partilha, tão bonita! :)

Panda disse...

O meu cunhado emigrou e a minha sobrinha de 10 anos voltou a ir dormir com a mãe. Também toda a gente implicou, cheira me que a miúda, que aliás é bem mais forte de espírito que a mãe, também foi com a mesma intenção...

Respondendo à UBM quanto ao lado esquerdo, o, meu marido também aí ficou, porque é o lado normalmente mais próximo da porta. A lógica é que se entrar alguém de rompante no quarto, ou numa situação de emergência, o homem está mais próximo da entrada/saída. No meu caso acaba por ser inútil porque nem um terramoto acorda o meu marido, fora de horas.

CalmaMuitaCalma disse...

UBM, é muito simples: o lado esquerdo é, quase sempre, o mais afastado da porta! Porque é a Mãe que vai de noite ver o filho ou filha, é a Mãe que se preocupa se estão cobertos, é a Maea primeira a ouvir um gemido... Enfim, assim, não temos que dar a volta à cama!!!!!

Sónia Barreto disse...

Caramba!! Revi-me em cada palavra que escreveste e chorei porque esta história é a minha história!

Não foi nunca regressão, foi apenas querer proteger a minha mãe!

Cantinho da Bê disse...

Quando os meus pais se dovorciaram, não senti necessidade de ir para a cama da minha mãe, mas porque soube e senti na altura que a minha mãe estava aliviada. Mas fiz o mesmo que tu, com a minha avó, quando o meu avô faleceu. Há dias escrevi sobre isso e sobre a necessidade que tive, aos meus 8 anos, de me certificar que ela não morreria de desgosto durante a noite.

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