terça-feira, 29 de julho de 2014

Das memórias dos Verões da minha meninice

Acabava a escola e eu chegava a casa. A primeira coisa a fazer, nessa tarde do último dia de aulas, eram os trabalhos de casa. Todos. De enfiada. E eram muitos.
Quando não havia tempo útil para os terminar, completava a tarefa no dia seguinte. Era a minha forma de me ver livre das tarefas escolares até Setembro. A minha mãe educou-me para não gostar de tarefas chatas pendentes.
A seguir era a rainha do quintal. Tínhamos um baloiço grande de jardim e eu sentava-me a ler nos finais da manhã, as gémeas no colégio de santa Clara eram minhas companheiras de aventura. Depois a minha avó chamava-me para ir almoçar, não sem antes esperarmos pelo meu avô ao portão, para se juntar a nós. O meu avô cortava-me os bifes, esmagava-me as batas com o peixe e não me ralhava quando eu fazia bolhinhas no sumo com a palhinha. A minha avó ria-se, mas era às escondidas. 
À tarde ir brincar com a Cláudia e a Rita à cirumba, eu não era boa a correr, as botas com aparelhos estorvavam-me as asas da minha cabeça e agrilhoavam-me as pernas mas elas não se importavam. Às vezes a avó Maria, a avó da Cláudia, chamava-nos para lanchar pão com o melhor doce de tomate de que tenho memória. Outras voltávamos a perder-nos no quintal, a fingir quer fazíamos bolinhos, com farinha e água da mangueira e ríamos muito. Vivíamos no tempo em que havia estações do ano e o Verão era mesmo Verão. 
Às vezes, aos fins-de-semana íamos à praia da Conceição e andava de gaivota com as minhas primas que, Agosto após Agosto, vinham de avião visitar-nos.
À noite, pelo menos uma vez em cada Verão, ia nas cavalitas do meu pai até à Feira de Artesanato do Estoril e a minha mãe pedia sempre a uma fotógrafa que lá andava para me tirar uma fotografia que depois imprimia a preto e branco e que registava a minha evolução, Verão após Verão. 
Ontem, a menina que fui levou pela mão a mãe que sou à mesma Feira. Hoje sou eu que rio da minha filha a dançar ao som do rancho folclórico, que me enterneço com ela a empurrar o pássaro de madeira que bate as asas e a registar as minhas próprias imagens fotográficas. 
Imprimi, hoje, uma a preto e branco, para que a Ana um dia escreva com a mesma ternura com que hoje o faço, preto e branco no papel, arco-íris na alma. 

4 comentários:

Framboesa (uma diva de galochas) disse...

A Feira do Artesanato sempre foi ponto assente na minha infância, juventude e até aos dias de hoje :)

Filipa Catarino disse...

<3
Eu também "lambi" os livros todos das gémeas e sonhava taaaaaanto! Não há qualquer dúvida de que a infância nos "define" o resto da vida.

Maria Carpideira disse...

Sabes acho que vou deixar de te ler até parir, acabo sempre a chorar pá assim não está justo ;)

Teresa Pires disse...

Li os livros das gémeas quando era miúda e reli à bem pouco tempo... Lembro-me também do colégio das quatro torres... À semelhança da Filipa Catarino também sonhava muito... :) ainda sonho :) Ler os teus textos tem me feito recordar tanta coisa sobre a qual já não pensava à muitos e muitos anos. Obrigada :)

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