quinta-feira, 10 de julho de 2014

É a pronúncia do Norte, os tontos chamam-lhe torpe...

A minha família [materna] é do Minho. Eu sou Minho, a minha alma é verde-Gerês, a minha energia é rica como os mexidos, a minha alegria é folclórica e a minha personalidade é exuberante como os altares barrocos e as cores da procissão da senhora da Agonia. Eu sou Minho. 
Rumo ao Norte sempre como quem regressa a casa. À terra. Ao Minho. Ao meu Minho. Àquelas expressões da minha avó ["estou barada, filha, estou barada!"], à pronúncia que é música, acordeão e realejo, cantigas à desgarrada. Uma alegria na voz mesmo com o luto no corpo, um entusiasmo nos olhos mesmo com a dor na alma. As mulheres do Minho são assim, têm a alma vestida de mangas arregaçadas. 
Rumo ao Minho e o Minho não é homem, o Minho é mulher, estrogéneo, duplo cromossoma X, o Minho é uma menina, nunca senhora, menina até morrer, de cabelos negros-Norte, sardas a salpicarem a pele alva, sorriso fácil e descomplicado, luminoso como os brincos de princesa, as flores ou os de ouro, tanto me faz. 
O Minho é uma cozinha com pão de milho quente de lenha, chouriças de cebola no fumeiro, lugar central da casa, quarto de estar de mulheres que esperam os seus homens, de boina, ao fim do dia, num regresso a casa, à família, símbolo mais forte do Minho, terra de afectos. 
Regresso ao Minho e regresso sempre à frescura do verde dos campos, ao entusiasmo das gentes da lavoura, à luz do dourado do milho pronto a ser debulhado, à alegria da dança do vira, ao esplendor dos xailes vianenses, à altivez das vozes esganiçadas. 
Voltar ao Minho é voltar a mim, às minhas raízes, à educação que me deram, andar apressado e sorriso aberto a quem passa, como uma mesa que se põe cheia de comida e se oferece indiscriminadamente a quem chega [e a voz da minha avó: "Cuoma quálquer coisinha , hóme!] como só o sabem fazer as mulheres do Minho, expressivas e extrovertidas, com um bocadinho de música na voz, ritmada como os cavaquinhos. Que nunca a percam. [Que eu nunca a perca.] 
Regressar ao Minho é, sempre, regressar ao princípio do Mundo, a casa, às raízes e ao chão, às uvas antes do vinho, vinho tinto, vinho verde, mas não tão verde como os olhos verdes da minha avó, raInha de mim.
Regressar ao Minho é deixar-me estar, absorvendo aqueles risos norteados, os olhares de mulher furacão, aquele sentir a família feminina, família Sibila (Agustina sabe-o!), a voz da minha avó, sempre a voz da minha avó, as expressões maravilhosas, o linguarejar, as mangas arregaçadas, a energia do Minho. Não apenas do Norte. Do Minho. Só do Minho. 
Do Minho da minha avó, presente na sua voz rouca, nos ditados populares que decorei todos, todinhos, para um dia poder vir a ensinar à minha filha. Do Minho da minha avó ("a rapariga mais bonita lá da freguesia"- jurava a pés juntos o meu avô), sempre de mangueira em punho para lavar o quintal e regar as flores ["porque a água lava tudo, menos as más línguas"]. Do Minho da minha avó e da sua gargalhada fácil e do facto de ter sido "Menina Ana" para sempre, como se o ser menina fosse um estatuto que se adquire e a idade não interessa nada. Do Minho da minha avó Ana, Ana como a minha filha, nome de menina, nome de mulher, de mãe e de avó. Nome das mulheres da minha vida. Ou "Iana", porque o Minho me correrá sempre nas veias. 
Chamo-a em pensamento ["Vó?"] e oiço-a, juro que a ouço [ "Ouuuu?"]. 
Regresso ao Minho hoje, sempre, porque o Minho [também] sou eu.

É a minha segunda crónica para a Lifecooler

11 comentários:

Pips disse...

Adorei!

Lucente disse...

[ "Ouuuu?"]
Já nem lembrava que a minha avó dizia isso... obrigada.

Anita Africa disse...

Nada a ver com este texto, mas estou farta de me rir à tua pala, e só a pensar o quanto te ias dar bem aqui por Angola.
Acabadinho de ouvir da boca de duas meninas daqui: "A gata cujo nome não se pronuncia neste blog tem coisas satânicas, não gostamos nada!"
Diz lá que não melhora o dia de qualquer um?
Beijinhos cheios de saudades!

Uba disse...

Leio o teu blogue e nunca o comentei... Se a memória não me trai.
Sou Minhota, a residir no Algarve, e identifico-me tanto com esta crónica... O meu, nosso, Minho.
E também eu tenho - tinha! - uma avó "Iana".
Obrigada por estas sensações.

K disse...

Bolas, pá! Comovo-me sempre que juntas, num mesmo post, a tua Avó, a Ana e o Minho.
Raios partam a miúda!
(Obrigada!)

cantinho disse...


Até me comovi.


Beijinho, Minhota de coração

Filipe disse...

Sendo eu minhoto... esta cronica parece um vira minhoto... ou um malhão... sente-se o ritmo, os sorrisos, cada palavra tua é um pleno rasgar de sorrisos em mim, porque sou minhoto, porque tenho também em mim essa mesma pronuncia. A família... a família, é isto... são estas as palavras, está aqui o desenho de uma família minhota!
E termino dizendo... "virouuuuu"...

Fernanda disse...

Estou de lágrima no olho! Porque a minha ao avó e a minha, não sendo do Minho mas do Porto, também diziam assim! Lindo! Obrigada Polo por mo fazer recordar.

Carla Pereira disse...

Conheço todas as palavras que escreveste, mas nunca as conseguiria juntar dessa forma apaixonada e comovente... Aguardo a Beira-Alta (de onde é a Isabel Silvestre que canta com o Reininho a Pronúncia do Norte)

Joana Nunes disse...

metes num bolso qualquer romancista nestas crónicas! Caramba, que a minha "Vózinha" também respondia "Ouuu!" É uma montanha russa de emoção vir ler-te como só me acontece a ler bons livros!

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Tomara eu saber cantar tão bem Trás-os-Montes, que amo!

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