quinta-feira, 3 de julho de 2014

Estudos científicos indicam que os nascidos sob o signo de caranguejo são os mais brilhantes do zoodíaco

"Quando nasci, os telefones eram de disco, pretos, pesadões, de um material (baquelite?) lustroso, e não nos pertenciam: era alugados à companhia, que debitava o aluguer na facturinha mensal. Era caro, comunicar; as pessoas telefonavam-se pouco, e contavam os minutos. Quando nasci havia polícias sinaleiros a regular o trânsito nos cruzamentos, vestidos de cinzento, apito na boca, luvas, botas e capacete brancos. Quando nasci, havia autocarros de dois pisos, cor verde escuro; além do condutor existia também um revisor, à entrada, a quem se comprava o bilhete e o picava; os bilhetes de metro eram também comprados no guichê, de vidro, com umas aberturas que garantiam a fraca audição de compradores e vendedores, mas um autocolante dizia-nos que tal método havia sido gizado por uma empresa de nome pomposo: higiaphone, se não me falha. Quando nasci, o Salazar já tinha caído da cadeira, já tinha perdido o juízo, e já tinha morrido; em seu lugar governava um senhor que agora todos lavam branco mais branco, e que mudou o nome da polícia política como prova das suas boas intenções. Quando nasci, ainda havia livros proibidos, ainda havia pessoas presas em Caxias, por dizerem o que pensavam, e quererem algo diferente do que achava por bem aquele tal senhor. Quando nasci, metade (mais?) da população era analfabeta, a maioria das mulheres não tinha emprego remunerado, e muitas, nunca se saberá quantas, crianças nasciam em casa, comiam mal e pouco, e trabalhavam logo que conseguissem segurar uma enxada. Quando nasci, os homossexuais eram chamados, em sussurros, "invertidos", e nem sequer se falava neles, nem eles queriam que os notassem, de medo. As mulheres casavam e tinham filhos, tratavam da casa e, sendo necessário, ainda trabalhavam fora; marido bruto ou violento não era apontado, uma nódoa negra era sinal que alguma ela tinha feito. Quando eu nasci, muitas pessoas não tinham electricidade ou água canalizada em casa, não existia saneamento como regra, e ainda havia quem morresse de cólera. Quando eu nasci, achava-se normal as crianças brincarem na rua; não, era esperado delas que não andassem lá por casa a empatar, aos fins de semana e nas férias, e desde que estivessem à mesa, de mãos lavadas e penteadas, à hora da refeição, tudo estava bem. Quando eu nasci, havia pais que davam grandes tareias aos filhos, e ninguém achava mal; havia pais que os mandavam fazer recados, e era esperado que voltassem com todos os artigos apontados na lista (dois quilos de batatas, meio de cebolas, um de maçãs, um pacote de farinha, um quarto de manteiga...) e o troco certo. Quando nasci, as pessoas não tinham closets, tinham roupeiros, ou guarda-fatos, e pequenos, por sinal, onde cabia toda a roupa de verão e inverno, e ainda uma muda de cama. Quando nasci, já havia máquinas de lavar roupa, mas as nódoas tiravam-se antes, com sabão azul e branco, que se deixava a corar;  as meias e cuecas eram lavadas à mão, porque a máquina estragava os elásticos e o dinheiro não nascia nas árvores; cada rasgão ou buraco era remendado diligentemente, a roupa de mais cerimónia passada com um pano de algodão por cima, para não fazer lustro. Quando nasci havia telefonias em muitas casas, televisor só em algumas, e tínhamos dois canais, a preto e branco, com uma programação criteriosamente escolhida. Quando nasci, as compras faziam-se no mercado, na praça, onde se tinha de ir cedinho, que depois das dez estava tudo escolhido; o dinheiro levantava-se ao balcão dos bancos - a caixa e o bê-éne-u, ou o crédito - com cheque, depois de se aguardar pacientemente numa fila. Quando nasci, podia-se fumar em todo o lado, até em  hospitais; ninguém se sentia obrigado a apanhar os dejectos dos seus cães ou trazê-los à trela; os carros não tinham encostos de cabeça, cintos atrás, muitos nem à frente, e cadeirinhas de transporte para bebés e crianças eram algo que não se falava. Quando nasci, a alcatifa e o papel de parede eram chiques, as paredes eram pintadas de cores fortes, os cortinados e sofás tinham padrões enormes e berrantes. Os sapatos levavam capas e meias solas, quantas vezes fosse preciso, sabrina era o nome de um utensílio que apanhava cotão e ciscos das carpetes e alcatifas. Quando nasci, as pessoas tinham uma costureira, arranjavam roupa, viravam casacos, fatos e vestidos, daquela já inaproveitável faziam-se trapos; a fruta, a carne, o peixe - diz-se - tinha outro sabor. Quando nasci, ir à praia à Costa de Caparica era uma aventura para durar meio dia de trajecto, e fazia-se a hora do calor em piqueniques na mata, geleira a abarrotar com almoço e merenda.

Da Izzie no seu "A Arte da Preguiça" e eu estou tentada a fazer uma adaptação com o título de 34

3 comentários:

disse...

Mesmo, sem tirar nem pôr! Revi a minha meninice, embora eu tenha nascido durante o regime Salazarista (mesmo no fim).

São brilhantes, também dei à luz um caranguejo! ;)

Izzie disse...

Caramba, ninguém, ninguém tem 34 anos :P

Marisa Reis disse...

Como eu revivi tantas coisas...34 era bom...mas já são mais ;)

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