quarta-feira, 16 de julho de 2014

Nos últimos dez anos (post anual)

Tive que lidar com a velhice dos meus avós. Arrependi-me veementemente de ter seguido Psicologia. Fui madrinha da Tatá. Cortei o cabelo. As minhas melhores amigas piraram-se para a Guiné-Bissau e Luxemburgo. Voltei a Londres e aos Açores mais que uma vez. Descobri que o sítio mais bonito do Mundo é a Caldeira de Santo Cristo, em S. Jorge. Coleccionei avidamente relógios da Swatch. Desisti de ser Psicóloga Social. Tive vontade de trabalhar não por gosto mas por dinheiro. Tornei-me membro activo de uma associação. Fui a Cabo Verde com uma amiga e não morri de amores pela Ilha do Sal. Comecei a fumar.Trabalhei 60 Km longe de casa e demorava 2 horas e meia para cada lado no trajecto casa-trabalho para ganhar experiência em Psicologia Organizacional. Fui madrinha de casamento da Cláudia. Fiz o meu primeiro blog com quatro amigas. Casei. Tirei o piercing. Aluguei a minha primeira casa. Mudei de estado civil mas nunca no bilhete de identidade. Devorei revistas de decoração.Tive o meu primeiro carro: um Citröen AX potentíssimo. Li centenas de livros. Viajei para a Tunísia e ainda trago o cheiro do jasmim a embrulhar-me a memória. Vi o nascer do sol mais bonito de sempre em pleno deserto. Deixei de gostar dos relógios da Swatch e tenho quase cem a tiquetar numa gaveta lá de casa. Fiz um inter-rail com a minha prima e visitámos Madrid, Barcelona, Andorra, Paris, Côte d'Azur, Mónaco, Turim e Roma numa famigerada auto-caravana. Vi dezenas de filmes. Apaixonei-me quando não o devia ter feito. Engordei. Fui a festivais de Verão. Fiz arranjinhos entre amigos e acumulei três casais consumados no curriculum. Fui a Barcelona quando estavam a rodar o "Vicky Cristina Barcelona". Quase que tive a minha primeira experiência lésbica numa casa de banho das Ramblas. Deixei de falar com o João. Transferi a tara dos relógios da Swatch para as contas da Pandora. Experimentei drogas novas. Tive aulas de escrita criativa particulares demasiado "produtivas". Odiei o namorado da minha mãe. Conheci pessoas da net que permanecem como amigos e outras que nunca o deveriam ter sido. Descobri que a vodka tónica é a melhor bebida alcóolica do Mundo. Enchi duas pulseiras da Pandora e quando começaram a estar na moda fartei-me e arrumei-as. Separei-me. Pintei o cabelo de castanho. Dei sangue. Trabalhei numa empresa com os melhores colaboradores do Mundo. A empresa faliu. Roí as unhas até ao sabugo. Caí num enredo que mais parecia uma novela mexicana e agora rio-me disso. O meu avô morreu. Pensei que ia morrer. Experimentei sushi. Mudei de empresa e mudei essa empresa. Comprei dezenas de óculos de sol. Fiz novos amigos. Estive prestes a cometer um homicídio qualificado de 1º grau. Viajei sem destino. Tornei-me viciada em sushi. Fiz mais uns blogs até ter o Quadripolaridades que é O blog. Consultei pela primeira vez um psicólogo. Bem como um astrólogo. Dei esmola a pessoas velhinhas sempre que me cruzei com uma que pedisse dinheiro na rua. Passei a gostar do namorado da minha mãe. Voltei a beber ginger-ale. Pensei em emigrar. Sonhei em ser proprietária do Aya. Reconciliei-me com a vida que tinha e fiz dela a vida que eu quero ter. Viajei para a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo, a Alemanha e a França. Fui muito feliz em Orval. Bebi um Cosmopolitan no terraço do Sofitel. Penso no meu avô todos os dias mas já não dói quando o faço. Voltei a deixar crescer o cabelo e voltei a ser loira. Viajei clandestinamente e adorei. Nunca dei esmola a um arrumador de carros que fosse. Senti o tempo passar rápido demais. Despedi o meu Director Geral. Pensei deixar tudo para trás e começar de novo mas depois arrependi-me. Fiz praia como há muito não fazia. Reencontrei o meu pai passados quase dez anos. Traí. Apanhei algumas tosgas. Coloquei unhas de gel (sem brilhantes) mas ainda assim arrependi-me. Fui traída. Voltei a roer as unhas. Pensei em ser mãe. Deixei de fazer planos. Comprei uma Bimby e aprendi a cozinhar. Não me apeteceu fazer 30 anos mais do que uma vez. Encontrei o meu primo. Comecei a coleccionar máscaras. Soube que ia ser tia num restaurante suiço em S. Martinho do Porto e criámos a tradição do "moche à prenha". Consegui preparar uma festa surpresa genial sem me "descoser". Fiz uma road trip pela Escócia com a minha melhor amiga e o homem que amo. Vi focas em pleno oceano Atlântico. Tomei o pequeno almoço na Garret tantas vezes quanto me apeteceu. Apaixonei-me pela ilha de Skye. Bebi whisky de quase 50º. Fiz nudismo numa praia do litoral alentejano. Despedi largas dezenas de pessoas. Chorei, pela primeira vez, ao despedir uma em especial. Fui desrespeitada como nunca tinha sido antes. Voltei à Vidigueira. Levei sete anestesias gerais. Percebi que tenho amigos com quem posso mesmo sempre contar. Voltei a andar de gaivota. Consegui lugar no qual me encaixo a cem por cento no colo de um homem. Fui tia da Catarina. Aderi de vez ao Skype. Fiz uma viagem pelos caminhos de Portugal com uma mochila às costas. Deixei de me preocupar antes das coisas acontecerem. Estive numa praia fluvial pela primeira vez. Fui o mais feliz que já experimentei ser num restaurante em Monsaraz. Comecei a olhar para os tintos do Douro com outros olhos, traindo o meu amor exclusivo aos tintos Alentejanos. Ainda não enjoei de ovos moles de Aveiro. Nem de doces em geral. Fui a tribunal e ganhei um processo judicial. Estive num clube de Swing. Vi o pôr-do-sol na Barragem do Alqueva a dois, com gargalhadas cúmplices. Gastei rios de dinheiro em restaurantes. Perdi a minha vesícula. Vivi a selecção natural das espécies aplicada aos amigos e eliminei gente que não cabia na minha vida. Bebi tantas kimas de maracujá quanto pude. Inesperadamente nasceu em mim um sentido instinto maternal. Mudei de área profissional e voltei às origens.Percebi que antes de ser Directora de Recursos Humanos, sou Psicóloga. E que antes de ser Psicóloga, sou mulher. Herdei uma casa. Tornei-me menos ansiosa e mais tolerante. Nunca perdi o sentido de humor. Revi as minhas prioridades. Passei um Natal no hospital. Completei 30 anos. Conduzi um carro "follow-me". Conheci a ilha de Santa Maria. Coleccionei muitas milhas de avião em trabalho. E muitos Km de carro. Preferi sempre o comboio. Comprovei a generosidade do povo açoriano e fui às festas do Divino Espírito Santo. Lá fiz amigas que conto serem para a vida. Vi o Guernica ao vivo. O meu blog permitiu-me conhecer, em Madrid, um par de novos amigos. Comi mulles em Bruxelas. Pedi desculpa à Susana. Fui feliz em Bruges e andei de comboio a cantar músicas pirosas a caminho do Luxemburgo. Ajudei a minha sobrinha Catarina a apagar as velas do seu primeiro aniversário. Comprei um termómetro kitsch na Floresta Negra. Apaixonei-me pela Alsácia. Fui ao Jardim das Borboletas. Comemorámos outro Natal em Agosto. Vi quadros de Magritte ao vivo. Fui tia da Mariana. Fui feliz nas Termas de Monchique e ainda mais nas Termas das Caldas da Felgueira. Passei a adorar termas. O Aya fechou. A Cláudia divorciou-se. Dos três arranjinhos que fiz entre amigos já tenho menos um no curriculum. Fiz franja e arrependi-me na hora. Tentei pedir desculpas ao João. Recebi centenas de postais de Natal. Troquei prendas de Natal inúteis. Enterrei o assunto João definitivamente. A minha avó morreu. Voltei ao maldito cemitério. Eu, enquanto neta dos meus avós, morri de vez. Fiquei numa tristeza sem fim. Inscrevi-me como dadora de medula óssea. Cortei relações com uma das minhas primas. Não tive Natal. Fiz um filho. Voltei a jogar Monopólio. Penso nos meus avós todos os dias. Descobri que estava grávida. Levei a minha afilhada ao Jardim Zoológico. Sinto orgulho, todos os dias, no pai que escolhi para a minha filha. Adorei dar a notícia da minha gravidez à minha mãe, tia, Daniela, Catarina, Xana, Cláudia e Rosa. Jantei no terraço mais cool de Nova Iorque. Conheci o sósia do Joaquin Cortés e a minha alma gémea ab fab. Comemorei uma data especial no topo de um arranha céus em Manhattan. Fui parar a um Hilton onde pernoitei de borla à custa da avaria de um avião da Ibéria. Emocionei-me ao ouvir um coração numa ecografia. Consegui um livro autografado pelo António Lobo Antunes. Descobri que ia ser mãe de uma menina. Alcancei a serenidade familiar e conjugal com que sempre sonhei. Decidi que ia dar o nome da minha avó à minha filha. Baldei-me ao trabalho para acompanhar uma amiga a um exame médico. Decorei, a dois, um quarto de bebé. Comemorei um aniversário colectivo numa data em que ninguém fazia anos. A Inês e o Pedro casaram e eu não pude estar presente. Aumentei, com a ajuda dos amigos, a minha colecção de máscaras. Contribuí para ajudar a família de uma menina com leucemia. Recebi prendas de pessoas que só me conhecem pela escrita e fiquei emocionada. Senti o tempo passar devagar demais. Assisti à transformação da minha mãe em avó. E adorei. A minha franja cresceu. Fiz planos priorizando aspectos que nunca tinha equacionado. Escrevi tracinhos que simbolizavam dias, colei-os no frigorífico e fui-os riscando à medida que foram passando. Senti-me impaciente. Odiei estar grávida. Diverti-me com a sensação de ter uma criança a mexer-se na minha barriga. Mudei a forma como encaro a minha vida profissional. Comi marisco com as minhas pessoas preferidas no Portinho da Arrábida. Pari. Vi a minha casa ser assaltada. Fui feliz em Coimbra. Ganhei uma cicatriz no baixo ventre. Roubaram-me todas as colecções de relógios da swatch e de contas da Pandora. Apresentei queixas à polícia três vezes. Fiquei com uma barriga não tonificada. Arranquei um coto de cordão umbilical enquanto dava banho a uma bebé. Fui pagar uma promessa a Fátima. Conheci bloggers de quem gosto muito. Comi sopas do Espírito Santo nos Açores. Fui tia do Pedro. Ajudei a organizar brigadas de recolha de medula óssea. Fiquei muito mais calma e tranquila. Recasei-me. Viajei com uma recém-nascida. Organizei um baptizado. Dormi num colchão no chão um par de meses. Fui operada a um pé. Mostrei os Açores à minha filha. Sobrevivi a um sismo. Saí do anonimato na blogosfera mas por uma boa causa. Frequentei dois workshops de culinária. Escrevi muitas cartas à minha filha. Fiz novos amigos. Livrei-me de gente com más energias. Mudei de casa. Consegui manter vivas ervas aromáticas, durante meses. Mostrei o mar a um bebé. Fiz um alisamento marroquino. Mudei de casa. Fui a uma benção das pastas para além da minha própria. Comecei a frequentar festas de aniversários de crianças. Fui muito feliz em Montargil. Comi muitos caracóis. Comecei a gostar de cozinhar. Vi a minha coluna ancorar-se. Recebi a minha primeira prenda do dia da mãe. Andei de roda gigante. Consegui chegar a um estado emocional tão cool que me faz estar em paz. Deixei de coleccionar coisas. Assinei um termo de responsabilidade para receber alta de um internamento. Organizei duas festas de aniversário para a minha filha. A festa solidária de primeiro aniversário da minha filha foi um dia inesquecível. Ajudei a Ana a apagar a primeira vela do seu aniversário na festa de casa. Partilhei a cama com duas pessoas durante meses. Fui feliz na Régua. A Alice Vieira comentou o meu blog. Consegui ajudar a recolher centenas de possíveis dadores de medula óssea. A Alice Vieira comentou o meu blog. Vi as estrelas parisienses através de um telescópio num terraço nas traseiras do Moulin Rouge. Andei de barco no Sena com a minha melhor amiga e os filhos de ambas. Fiz um picnic com o meu marido e a minha filha à sombra da Torre Eiffel. Fui a praias urbanas. Ia incendiando o cabelo em Notre Dame. Tornei-me possível dadora de medula óssea. Assisti aos primeiros passos da minha filha. Distribuí refeições quentes e cobertores a sem-abrigos debaixo de uma chuvada inesquecível. Comi uma francesinha no Capa Negra entre muitas gargalhadas. Torci, muito, para que três amigas conseguissem engravidar. Assisti aos primeiros tombos da minha filha. Fui a mercadinhos infantis. Voltei a fazer mexidos no Natal. Morreu o pai da minha melhor amiga. Acompanhei a Ana a todas as suas aulas de natação. Fiz equipa numa cozinha com a Joana Roque. Provei broa de Avintes. Recebi, eufórica, a notícia da gravidez da I. Andei de reboque. Fui pagar uma promessa a Fátima. Ajudei a recolher centenas de lenços para mulheres que se encontram a fazer tratamentos de quimioterapia. Ganhei um graffity na parede da sala. Comecei a praticar pilates. Dancei à chuva com o meu marido. Dooei sangue montes de vezes. Vi a minha mãe voltar a cozinhar bolos fabulosos para a festa de aniversário da neta. Tive medo de perder uma amiga para sempre. Fui ao "Rocha no ar" da RFM. Deixei de gastar energias com merdas. Assisti às primeiras palavras da minha filha. E a todas as seguintes. Passei a acordar feliz todos os dias, à custa do amor maternal. Ajudei a ajudar. Voltei a gostar do meu trabalho. Fiz depilação definitiva. Estou preparada para embarcar em novas aventuras. O Herman José comentou o meu blog. Não tenho esqueletos no armário. Fui feliz em montes de sítios. Fiz a diferença na vida de muita gente. Tenho ao meu lado apenas gente que me faz feliz. Apaixonei-me por Sever do Vouga. Voltei a sentir-me, outra vez, parte de uma Associação. Tenho uma vida, extraordinariamente, boa. Digo cada vez menos palavrões. Orgulho-me, todos os dias, de ter seguido Psicologia. Ouvi a minha filha a dizer-me pela primeira vez "aiaviú". E, a partir daí, todos os dias. Nunca perdi a capacidade de me rir. Sou feliz.  Deixei de ter medo de dizer em voz alta que sou feliz com receio que me agoirem. Caramba, sou mesmo feliz. 

13 comentários:

Francisca disse...

Lindo:)
É bom estar de bem com a vida.

Tempero Jagoz ♀ disse...

Obrigada!
Não posso dizer que sou seguidora desde sempre,sou desde que o meu destino me fez ancorar aqui.

Gostei deste texto, das frases, da esperança de que a vida nos dá a felicidade.

Encontro-me a sair de uma coisa qq, não sei bem o quê, ansiedade exagerada, pânico, medos, pensamentos que sei lá onde os fui buscar. Mas estou mesmo a sair desta, veio o mindfulness, tanta merda para me fazer sair do que me fazia mal, mas o melhor de tudo é ter alguém ao nosso lado que mesmo quando estamos insuportáveis é capaz de nos dar um beijo na testa e dizer que tudo passa. Tenho uma família invejável, não é a mais perfeita, mas é a que nos acompanha, que nos unimos sempre a enfrentar seja o que for.

Um dia quero ser estável emocionalmente, ser mãe e ser feliz "in their face".

Beijinhos

Filipa Catarino disse...

A vida somos nós que a fazemos, sem dúvida nenhuma! O caminho é feito por nós. Obrigada por te teres cruzado no meu caminho e teres contribuido para que me tornasse uma pessoa melhor e mais atenta aos outro, Obrigada pelo 1 ano da Ana, pela noite dos sem-abrigo no Porto e pelos "momentos" que já partilhamos. És sem dúvida nenhuma, a prova viva de que NINGUÉM SE CRUZA POR ACASO, NINGUÉM MESMO! Gosto mesmo muito de ti, de vós. Obrigada por fazerem parte do "meu caminho". "aiaviú´'s".

dicuca disse...

Uau. Texto maravilhoso! Que inspiração!Ficamos felizes só de ler e perceber essa felicidade! Que dure para sempre :)
Diana

Claudia Basílio disse...

E que venham mais dez...
Obrigada pela partilha e por nos fazer sentir também felizes, não hoje mas em todos (ou quase todos) post q publica.

célia disse...

Leio este blog há muito tempo,mas apenas hoje me atrevo a comentar pela 1.ª vez. Adoro de paixão o que escreve, porque é escrito com o coração! Simplesmente FANTÁSTICO!!!!

JuTi disse...

Parabéns Ursa!
Acho que não falo só por mim ao dizer que és um exemplo a seguir.

Zina disse...

Puxa, a minha vida é um tédio!

Como é que consegues, lembrar-te disto tudo?

Margarida One more mum disse...

Que venham mais 10.

;)

Abssinto disse...

Muita(s) vida(s).

(o "aiaviú" tanbém ouvi)

K disse...

:) ADORO!
E muito, muito obrigada!
Continua a ser feliz, muito, e a fazer-nos rir! Tudo de bom!

Saltos Altos Vermelhos disse...

Até fiquei a pensar em tudo o que fiz nestes últimos 10 anos :D e de facto se transpor para palavras acho que o fim será exactamente como o teu "Caramba, sou mesmo Feliz" ♥

Saltos Altos Vermelhos disse...

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