terça-feira, 1 de julho de 2014

Sou um peixe e vou morrer pela boca

Nunca tinha reparado neste fenómeno antes de ser mãe e mámen até trabalha na área da educação mas este ano dei de caras com um sem número de amigas com filhos finalistas, festas de finalistas, bolos de finalistas, fitas de finalistas, chapéus americanos de finalistas e o diabo a quatro de finalistas. 
Comecei a ficar meia baralhada enquanto assistia aos status nos seus murais a este respeito... Mas, se estavam mães da minha idade a escrever, como raio podiam ter filhos finalistas? Mas anda tudo varadinho da cabeça ou quê? 
Dediquei-me a aprofundar a matéria e eis que me confronto com o fenómeno de todos os miúdos, independente da faixa etária e grau de escolarização que completam, serem finalistas. Não, não, não se tratam de finalistas universitários, isso é comum e natural, são mesmo os finalistas da creche (3 anos), os finalistas do jardim de infância (6 anos), os da escola primária, do nono ano, décimo segundo e- juro!- hoje vi uma fotografia de uma festa de finalistas de uma sala de uma determinada cor que isto há que inovar, qual esperar sequer por um fim de um ciclo escolar? Isso é para gente com pachorra, pá! Haja finalistas da sala azul, amarelo, bordeaux ou burro quando foge! Finalistas power!
Os rituais são os mesmos só muda o material com que se executam os adereços: entre capas a imitar trajes académicos feitas de cetim de 1,5 € o metro, a chapéus americanos improvisados com cola UHU e cartolina preta, a fitas para serem assinadas feitas de cartão colorido, diplomas enrolados e escritos a Comic Sans, vale tudo! Vale tudo excepto esperar que a vida traga os rituais na altura em que os rituais fazem sentido...
A magia de se ser finalista passa, precisamente, pelo percurso percorrido, pelas etapas sucessivas, pelo caminho que se trilhou, pelo acumular de experiências e de vida. Pela espera que chegue aquele dia.
Fui finalista uma vez, último ano da faculdade, naquele maldito dia de calor com um traje académico comprado de propósito para aquela data e para fazer os meus avós felizes, emblemas cosidos à mão pela minha mãe, orgulhosa e embevecida, capa e fitas assinadas por toda a gente importante ao longo daqueles 17 anos de percurso escolar, melhores amigas em coro a gritarem pelo nome do curso e da faculdade. Fui finalista uma vez, último ano do curso, finalista como um grau, como um estatuto que se adquire, não por graça, não caindo na banalidade, finalista por direito próprio, porque finalizei o percurso, finalista porque chegara o fim. 
Não entendo esta pressa de se querer antecipar estes momentos que se querem únicos e que só por serem únicos são especiais, esta pressão nas crianças para serem crescidas à força, de receberem diplomas e fitas e chapéus e capas traçadas sem significado, sem sentido, sem viver para o conquistar.
A seguir o quê? Praxes no berçário? Comemorações de sestas nº 100 na creche? Notas nas pautas no jardim de infância? Eleição de delegado de AECs? 
Eu sei que sou um peixe, sou mãe e, sim, talvez morra pela boca e acabe a bater palminhas enquanto a Ana sobe a um pódio feito de páletes para receber o seu diploma ranhoso de cartolina, envergando o seu traje de faz de conta, segurando a capa e as fitas de cartão mas, caramba, não tem muito mais lógica ensinar aos meninos a viver a vida devagarinho, apreciando cada conquista no seu tempo e espaço certo, com rituais próprios de cada idade, não faz mais sentido educar para se viver até se conquistar as coisas boas que a vida nos reserva?

(Temo que as futuras educadoras de infância da minha filha me venham a odiar...)


20 comentários:

Cátia R. disse...

Ora aí está, eu não tenho filhos (nem estou perto de os ter) mas sempre achei uma parvoíce que se celebrem finalistas de tudo e mais alguma coisa - chegando ao cúmulo de ver crianças da pré escola com "pastas" e "fitas" assinadas e tudo... eu sei que para os pais é um orgulho ver os filhos ultrapassar cada etapa, mas caramba, eu recebia um presente de passagem de ano e uma ida ao McDonald's e era uma celebração e pêras, naquela altura! Até no 12o não me senti finalista porque, na verdade, ainda tinha o percurso universitário pela frente... E no próximo ano, quando for finalista a sério no mestrado em psicologia, a coisa terá um sentimento especial :)

Sophie disse...

O meu filho foi "finalista" do 4º ano este ano. Nem imaginas como detestei ter que pactuar com aquilo, mas a verdade é que se não o fizesse, ele sofreria, mais uma vez, o "ser diferente". :(

Nuno Dias disse...

A velha da mudança é tramada pá. Não vão os rebentos dos nossos rebentos fazer o mesmo? Há e tal pá! No meu tempo... No meu tempo é que era. Nós é que sabemos...

Nuno Dias disse...

A velha da mudança é tramada pá. Não vão os rebentos dos nossos rebentos fazer o mesmo? Há e tal pá! No meu tempo... No meu tempo é que era. Nós é que sabemos...

Daniela disse...

Ate que enfim alguem que me entende! A mim parece-me desnecessário e sem sentido e, mais uma vez, uma forma de os pais gastarem dinheiro desnecessariamente. Entendo que queiram "celebrar", mas para isso vao ao zoo, ou ao museu, ou cantam, ou fazem recortes. Concordo totalmente contigo...

solemdezembro disse...

E está tudo dito!

SN disse...

Pensava o mesmo mas s vi o meu filho tão, mas tão feliz que morri pela boca ;-)
Eu como não acho graça à bênção das fitas nem fui à minha .

Lucente disse...

Concordo! Nem quando terminei a licenciatura cumpri os rituais de finalistas... Quando o meu filho acabou o pré-escolar, escapamos à festa de finalistas levando-o nesse fim de semana a Lisboa aos avós e a passear, pelo que nem se lembrou que havia uma festa. Recuso-me a alinhar em palhaçadas! Os miúdos ficam com a falsa noção de que tudo se conquista com facilidade.

rosa do deserto disse...

Ahhhh como eu concordo contigo!!!!! Detesto, odeio, abomino essa coisa de ser finalista umas 500 vezes ao longo da vida.
Mas não falaste numa coisa. Sabias que também há viagens de finalistas em todos esses "anos de finalista"? Sim, as criancinhas já saem de casa para dormirem uma ou mais noites fora, com as suas professoras e educadoras, na grande viagem de finalistas! Credo!!!!!!!!!!!!!!

Purpurina disse...

ahahah, isso é real?
Bem, isso soa-me tão bizarro que nem digo que farei nem que não farei, com a minha filha.

Nem comemorei o meu final de curso. Mas claro que acho bastante comemorável. Eu é que não tenho pachorra. :)

República da Bicharada Clínica Veterinária disse...

penso igual. Mas queres saber? no infantário do meu só se é finalista aos 6 anos. E vi, estes 2 anos, as crianças tão felizes por serem finalistas que uma partinha de mim espera ansiosamente (e, ao mesmo tempo, com temor pois é o início de uma nova etapa, a vida escolar) esse dia para ver o meu filho cheio de orgulho de ser finalista...

As vezes tenho mau feitio disse...

Pois eu desta vez, não concordo mesmo nada.
Muito pelo contrario, acho que é um incentivo para a criança a cada etapa...
è como que a dar um pouco do que "lá vem"...
Porque não??
Não vejo mal nenhum nisso...a minha ainda não passou por nenhuma etapa do género, mas vi que as crianças que passaram, adoraram, sentem-se importantes, e o seu esforço reconhecido...
Afinal, não são eles que realmente importam??
Se os faz felizes, porque não??
Seja com cartão ou cartolina,
com cetim rasco ou com seda...o importante é ser o dia deles!

S pinelli disse...

Eu fui finalista no 4ºano. Foi uma novidade na minha escola e nunca se tinha feito nada igual antes. A minha professora acompanhou-nos ao longo dos quatro anos e achou que era engraçado fazer uma cerimónia que, além de nos promover a finalistas, também era uma despedida. Foi engraçado e não tenho pena de ter feito parte deste dia. Claro que quando fui finalista de 9ºano fui uma das poucas que não quis participar em bailaricos e trocas de fitas e viagens de finalistas e afins. Não era finalista de nada. Ia mudar de escola, só isso. Os colegas iam continuar a fazer parte da minha vida. No 12º ano, igual. Quanto à faculdade, posso dizer que não terminei o curso (congelei a matricula há um ano) mas, apesar de perceber que nesta altura fazia todo o sentido comemorar, já fazia planos de não participar nestes festejos. Não é por nada, mas só de pensar no dinheiro que se investe, desistia logo da ideia...

Formiguinha disse...

Sou mãe de um #pré-finalista" do pré-escolar e acho terrível, horrível e precoce... ponham as crianças a fazer plasticinas e a brincar no recreio.

Bêjós

Na Mesma disse...

Para alguém como eu que nunca trajou mas lá foi à dita festa de finalistas com pasta e fitas e tudo o que tem direito, não podia concordar mais contigo. Mas como mãe de um menino que já foi finalista do jardim infantil, digo-te que o peixe morre mesmo pela boca, apesar de achar uma real parvoíce o meu rebento lá foi para a sua festa de colher de pau com fitas de cetim com mensagens da família e amigos... Fazer o quê?? "Ah pois e tal, eu não concordo por isso o meu fica só a olhar!"

micaju disse...

Pensava o mesmo, mas com duas filhas que já acabaram o infantário, e uma delas acabou este ano a escola primária, penso cada vez PIOR! Não acho mesmo piadinha nenhuma, cada coisa a seu tempo. (Qualquer dia inventam finalistas da mama, da chupeta e da fralda.) Continuo a achar que os rituais têm um tempo e lugar próprios...
Quando a minha filha do meio acabou o infantário houve um grupo de mães que se juntou na tentativa de pressionar a direção a fazer o passeio de finalistas a Lisboa (sendo que nós estamos entre famalicão e guimarães)), estavamos a falar de crianças de 5 anos, e o infantário organiza sempre um passeio lúdico por esta zona: zoo sto inácio, casa da música, visionário..., mas era "muito pouco para os miúdos"... Eu não morri pela boca, nem a direção foi na conversa delas... Enfim! Cada coisa a seu tempo...

Cláudia disse...

CONCORDO!

Simplesmente Ana disse...

Também não gosto nada da ideia.

Motoclube de Cezimbra disse...

Eu sou Educadora de Infância... e ao invés de "odiar", adoraria ter umas quantas mães a pensar assim... :-P

Poppy disse...

Eu penso como tu e acho perfeitamente R-I-D-Í-C-U-L-O essas festas e viagens (!!!) de finalistas a cada ano que passa mas... temo não ter outra hipótese a não ser estar na 1ª fila a aplaudir o meu bebé de 17 meses com a lágrimita a saltar do canto do olho, quando ele passar do berçário para o 1º parque...
temos outra hipótese? temos como lhe dizer "óh filho tem lá mazé juizinho então vou tar a tirar uma tarde do trabalho por um festejo ridículo que devia ser banido e só autorizado por decreto a finalistas UNIVERSITÁRIOS? tu só acabaste a 1ª classe, ok?" (perdão 1º ano, que velha que sou)?
temos?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...