quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Coisas do meu Verão # 4


Visitei uma amiga que já não via há uns dois anos, em Aveiro, uma das minhas referências na minha cidade do coração. 
Neste tempo que passou uma série de catástrofes assombraram-lhe a vida, entre as quais, a morte do pai. A minha amiga, companheira de hospitais na infância, é cadeirante. 
Antes de morrer, o pai com um cancro galopante, tomou como missão adaptar-lhe a casa toda. Hoje a minha amiga pode cozinhas, colocar roupa a lavar, pôr loiça na máquina, um bolo no forno, fazer uma cama, tirar roupa do varão do roupeiro, entrar e sair para o banho sozinha, sem ajuda, autónoma e livre. O pai, por que tinha uma paixão desenfreada, providenciou-lhe o fim de todas as barreiras arquitectónicas antes de morrer. Todas. 
Estávamos a lanchar no quintal e ela convidou-me a ir à horta, na parte de trás da casa. Questionei-me como teria ela, na sua cadeira de rodas, acesso à horta.  Contava-me ela que a mãe achava desnecessária a adaptação da horta à sua mobilidade reduzida, uma vez que a minha amiga não planta nem semeia nada, pois isso implicaria sair da cadeira e ficar a ao nível do chão (não se consegue abaixar para tratar das plantas) e que, às portas da morte, essa desnecessidade foi um ponto de fricção entre os pais. 
Quando cheguei à horta, que era mais que uma horta, era um pomar, enquanto percorria na passadeira de cimento, com a largura exacta para a sua cadeira circular, entre os canteiros e árvores a minha amiga explicou-me porque tinha o pai dela levado a sua ideia avante, numa altura em que as forças lhe fraquejavam e a morte lhe batia à porta. 
E eu quero viver a minha parentalidade assim. Sabendo que tão importante como criar uma filha para o cumprimento das suas competências funcionais, ajudá-la a poder agir sobre as actividades do seu dia-a-dia, é proporcionar-lhe o "prazer de se sentar à sombra de uma laranjeira". 
E enquanto trincávamos laranjas, ali, acabadas de colher por ambas, desejei ser uma mãe como o pai da minha amiga: que soube, até ao fim, amar com os todos os seus sentidos. 
Amar com um travo a laranja. 

2 comentários:

Filomena Silva disse...

Pronto, já me puseste de lágrima no canto do olho.
Como mãe de dois filhos maravilhosos, um com síndrome de x-frágil, também quero ser assim e tentar proporcionar o melhor aos meus filhos.

cantinho disse...

Sem palavras.

Beijinho

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