quarta-feira, 17 de setembro de 2014

If you pay peanuts, you get monkeys…

"Qualquer dia recém-licenciados e desempregados pagarão às empresas pelos estágios. Um pouco à semelhança do que acontece com a Alemanha, que se financia nos mercados a taxas de juro negativas. A comparação parece absurda? Permitam-me explicar.
Gosto de ver os anúncios de recrutamento da minha área. Não porque esteja à procura de emprego (felizmente) mas porque são um bom barómetro das dinâmicas da indústria. E se na área da comunicação alguns anúncios nos fazem sorrir pela criatividade do texto, outros contribuem para ficar apreensivo. Como recentemente, quando li um anúncio que nas características da oferta dizia “trabalho remunerado”.
O mundo é um local estranho quando “trabalho remunerado” é uma característica a salientar num anúncio de recrutamento.
Não tenho nada contra as pessoas ou empresas que, de sua livre vontade, estão dispostas a trabalhar de borla. Mas penso que é um mau princípio porque a longo prazo prejudica todos (dos profissionais aos clientes) e que nesses casos será mais apropriado usar termos como voluntariado ou terapia ocupacional.
Será este o espírito out-of-the-box que os empregadores tanto procuram? Ou mais uma expressão do problema de valor transversal à indústria e com origens um pouco por toda a cadeia?
Se considerarmos o número de pessoas que se forma anualmente na área – que já de si é muito vasta – e somarmos a estes os que se formam em outras áreas e se viram para a comunicação, os que não se formam em nada mas são curiosos e os que “têm uns amigos que fazem umas coisas”, é natural que o mercado não consiga absorver tanta gente e que com isso as remunerações baixem. Isto é básico, natural e no limite leva a que apareçam anúncios a dizer “trabalho remunerado”.
O que já não me parece natural é que em consequência desse excesso de oferta, algumas empresas ou quase-empresas sejam arrogantes na forma como contratam recursos, especialmente quando o fazem penduradas nos incentivos do IEFP, que actualmente deve ser o maior empregador na área.
Algures no meio desta crise perdemos o juízo e o bom senso e passámos a achar normal escrever qualquer idiotice num anúncio de recrutamento. Já vi coisas como “procuramos alguém que não se importe de trabalhar muito e ganhar muito pouco” e só falta mesmo encontrar empresas que cobram um fee por deixar as pessoas estagiar, já que assim valorizarão os seus curricula.
Se por um lado há mais oferta que procura ao nível dos recursos humanos, por outro o mercado está inundado de microestruturas, que não só são incapazes de gerar oportunidades para esses recursos – muitas trabalham com uma ou duas pessoas e mal se aguentam – como pulverizam know-how e consequentemente valor. É assim que aparecem histórias de concursos com remunerações ridículas e até leilões invertidos, que transformam a contratação de serviços num bazar chinês, onde o responsável financeiro assume o protagonismo da resposta.
A esses clientes eu pergunto: se vos oferecerem um anel de diamantes ao preço de bijuteria, não desconfiam? É que é assim que aparecem as histórias – das quais o mundo está cheio, um pouco por todas as áreas – onde o barato saiu caro e de pechinchas que se transformaram em dores de cabeça.
Será que ninguém pára para pensar em que condições lhes vão prestar um serviço por determinados preços? Ou acreditam mesmo que são tão visionários e brilhantes que conseguem comprar caviar ao preço de amendoins?"

Artigo de opinião de Diogo Madeira da Silva (consultor, diogo.madeira@sapo.pt) aqui

2 comentários:

Prezado disse...

O problema é: não há cultura empresarial para os clientes desconfiarem do preço do amendoim. Monkeys are good enough.

Talvez a nova geração ( uma parte dela, pronto ) de empresários seja melhor que isto.

Minnie disse...

Concordo! Na minha área acontece exatamente o mesmo (aliás acho que é um problema transversal a todas as profissões) e as empresas vão-se aproveitando.
No meu caso é um pouco mais grave porque tenho muitas colegas que fazem voluntariado em troca de experiencia profissional. E desculpem lá, fazer voluntariado sim! Mas nunca na nossa área!

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