quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Repost: "Eu ainda sou do tempo..."

... em que os pais faziam dos dentes de leite que nos caíam peças de joalharia e que a Fada dos Dentes ainda não tinha sido inventada. Que a Catarina Furtado era um sex symbol e não embaixadora da Boa Vonade. Em que apanhar piolhos na escola era uma inevitabilidade e não uma vergonha.Que todas as crianças sonhavam em ser Power-Rangers! (E sempre o vermelho). Em que brincar na terra não envolvia o uso de desinfectantes anti-bacterianos. Sou do tempo em que bebíamos groselha e capilé e delirávamos. Em que não haviam vôos directos Lisboa-Porto e tinha que gramar o Campo das Cebolas e mais autocarros da Renex. Em que a Ana Malhoa era apresentadora de programas infantis e não um sex symbol da música pimba. Sou do tempo em que se usavam os verdadeiros Kispo™, sem o menor sentido de estilo. Sou do tempo das saias para dançar lambada. 
Em que existia uma personagem híbrida e com um ar macabro chamada Badaró. Em que levei com pó de talco no rabo nas mudas de fralda (agora é prejudicial, porque o bebé pode inalar o pó...). Em que quando alguém dizia "han?" se respondia "Crisan!". Eu sou do tempo em que os cromos não eram autocolantes. Em que usar verniz rosa ou vermelho nas unhas era foleiro e a minha mãe guardava os vernizes no frigorífico. Eu sou do tempo dos kalkitos. Em que se usavam Colibris (as antecessoras das Melissas) mas só para crianças (sim, que aquilo era plástico e plástico não era para gente adulta). 
Eu sou do tempo do Caprisone. Em que as únicas boys band existentes eram os Bros e os New Kids on the Block. Eu sou do tempo em que se dava óleo de fígado de bacalhau e mioleira às crianças. Em que o Luis Pereira de Sousa tinha bigode. E o Goucha também, Ah, e que o Goucha era heterossexual e namorado provável da Teresa Guilherme. Eu sou do tempo em que só havia um canal de televisão, cuja emissão era iniciada às 6 e meia da tarde.  Em que levávamos reguadas se falhássemos a tabuada (a do Ratinho).  
Sou do tempo em que se tomava Vi Dailin como xarope vitamínico. Em que misturar padrões na roupa era um escândalo. Em que o menino da lágrima ou a Anita a segurar um cãozinho ornamentavam uma parede de casa, sem ser motivo de chacota. Em que éramos criados pelos avós, à maneira deles e era bem bom. Eu sou do tempo em que os campeonatos do Mundo de futebol davam origem a desenhos animados (vide Campeonato do Mundo de Espanha e o seu Naranjito). Em que se comiam carcaças com manteiga e açúcar e era um petisco. Eu sou do tempo do Walkman.  E do Spectrum +2 com cassetes.
Eu sou do tempo em que passava o Vitinho na RTP2.  Em que a TVI era da Igreja e passava filmes pornográficos às 18h. Em que o expoente máximo do reality show era ouvir a vizinha de cima a "receber" o ex-marido a altas horas da noite. Eu sou do tempo em que no Verão nos sentávamos todos juntos na aldeia para desfolhar milho. Sou do tempo do Lecas. Em que internet, blogs, bloggers, facebook e chats eram merdas do Júlio Verne, do Phillip K. Dick, do Ray Bradbury e afins e não o pão nosso de cada dia. Em que os naperons não eram um apontamento kitsh- eram mesmo decorativos. Eu sou do tempo em que se apanhavam os "sarampos" todos e se sobreviva. Sou do tempo em que se bebia leite vitaminado grátis na hora do recreio da escola primária e em que as senhoras do lactário iam fazer o teste do flúor às escolas. 
Sou do tempo em que as grávidas podiam pintar os cabelos, as unhas e não havia toxoplasmose. Eu sou do tempo em que os passatempos de uma criança de 12 anos se resumiam a jogar ao berlinde e ao elástico, a jogar ao quente-e-frio, saltar à corda, brincar com bolas saltitonas, pega-monstros, ao mata, às escondidas, à cirumba e à macaca (com giz pintado no alcatrão) e pouco mais. Sou do tempo das Petas Zetas. Eu sou do tempo em que poupávamos um ano inteiro para passar 15 dias de férias no Algarve. Em que ficava fechada em casa na sexta à noite a ver os jogos sem fronteira e o Dennis a apitar e a contar em francês para o início dos jogos. 
Sou do tempo em que havia bibliotecas itinerantes em carrinhas castanhas. Em que se saltava à fogueira na altura dos santos populares. Em que se colocavam as pilhas no congelador para recarregarem (mesmo não acontecendo) ao pé de colares fluorescentes que se compravam nas feiras e brilhavam no escuro. Sou do tempo do Alô-alô. Em que o Freddy Krueger metia mesmo medo. Sou do tempo em que o Júlio Isidro era o Tio Júlio e que o Avô Cantigas podia ser cantor infantil e pegar meninos ao colo sem temer ser acusado de pedofilia. Em que o amolador me acordava aos sábados de manhã. Sou do tempo em que o Zé Figueiras tinha um brinco na orelha e apresentava o "Muita Lôco" com uma partner chamada Paulina, que tinha obesidade mórbida. Em que se ofereciam pulseiras de ouro com medalhinhas onde se lia "amor de madrinha" e éramos mesmo obrigados a andar com elas. Em que comia pastilhas super-gorila e ficava com a boca cheia até não poder mais.  
Eu sou do tempo em que os gelados se faziam em casa com leite e umas saquetas que se vendiam no supermercado (tipo pudim). Em que os vestidos das meninas tinham mangas de balão e folhos. Em que se apanhavam bebedeiras de Gold Strike. Eu sou do tempo em que aos domingos a família comia toda junta.  Eu sou do tempo em que a Vera Roquette mandava lá em casa, depois do almoço.  Em que o Pedro Mourinho apresentava o "caderno diário". Eu sou do tempo em que os pais tinham revistas pornográficas escondidas debaixo do estrado da cama e as cassetes pôrno na parte de cima do guarda-fatos. Eu sou do tempo em que as crianças iam de pé no carro entre os dois bancos da frente. Em que o Hugo Leal era um jogador de futebol famoso. Em que os gelados se dividiam entre os gelados de leite (os preferidos das mães) e os gelados de água (os nossos preferidos). Eu sou do tempo em que se brincava na rua até virem as mães todas à janela (gritar) chamar para jantar, a que se seguia um "já vou... quando a Ana for eu subo". Em que se telefonava antes de sair de casa a combinar uma coisa e não era preciso ligar mais 10 vezes e mandar 20 sms a fazer ajustes. 
Sou do tempo em que os ecrãs das televisões a preto e branco se protegiam com uma película de celofane azul. Em que se fazia chamadas ao calhas para números da lista telefónica a dizer "Fala da casa do senhor Leitão? É para dizer que já foi promovido a porco" ou "Está em linha? Então afaste-se que vem aí o comboio!". Sou do tempo em que se jogava ao bate-pé, ao quarto escuro e ao verdade ou consequência. Eu ainda sou do tempo  em que o ponto de encontro na praia, era a Bola Nívea Azul. Em que tínhamos de gramar com as reuniões da tupperware com a nossa mãe, mas gostávamos dos brindes e dos bolinhos no final. 
Eu ainda sou do tempo das bombocas. E dos beijinhos de açúcar. Eu sou do tempo em que as canetas mollin não tinha furinhos na tampa. Em que havia Feira Popular, onde eu ia comer farturas, beber batidos de ananás e encarnar o Demo na pista dos carrinhos de choque e no Ranger. E em que os empregados de mesa saiam para as portas dos restaurantes de frango a puxarem os clientes. Em que se faziam telefones com copos de papel e fio impregnado de parafina.  Sou do tempo em que as bicicletas eram todas BMX. E do tempo do anúncio: "quantos Polos conhece menina? 3: Polo Norte, Polo Sul e Polilon!". Sou do tempo em que as pessoas que diziam "Eu ainda sou do tempo" eram nitidamente mais velhas que eu e não da minha idade.

27 comentários:

Inês Sousa disse...

A descrição da minha infância e adolescência está aqui descrita de uma forma tão vivida que quase voltei a ser a miuda de vestido amarelo ou das calças de ganga com remendos porque era moda eh eh eh. Obrigada por este regresso a um passado tão bom.

Maria Alves disse...

Revejo-me em tudo... estou velha! Ah... eu ainda como carcaças com manteiga e açúcar (às escondidas!).

Vanoxa disse...

♡ Amei...revi a minha infância neste post.

disse...

Os piolhos continuam a ser uma inevitabilidade onde há muitas crianças juntas (quando a Ana começar a frequentar o JI, começas a receber recados para estares atenta a cabeça dela) Uma praga de que ninguém gosta! ;)

Carina Ramos disse...

E com isto deu-me a saudade da minha saia amarela para dançar lambada, das noites de verão no Bairro, dos vestidos com folhos... e mais e mais e mais...

Solana disse...

Muito, muito bom! Eu sou do tempo das carrinhas do pão, que passavam nas ruas apitavam e nós podíamos ir comprar o panito...

adorei!

Patricia M.M.C. disse...

Fantástico! Só falta mesmo o programa "Quando o telefone toca" no rádio da cozinha da avó durante as férias de Verão, do sumo BB, dos "gelados" Fá, dos caramelos de Badajoz trazidos pela vizinha que tinha ido numa excursão da Inatel, das colónias de férias onde os pais nos deixavam por 15 dias só para brincarmos que nem doidos. Somos do tempo em que as viagens para o Algarve duravam 1 dia inteiro,com as coisas todas no tejadilho do carro, com as crianças ao monte no banco de trás (e por vezes ao lado da mãe no banco da frente), com paragens para comprar pão em Grândola e melões pelo caminho...

Rolls disse...

L I N D O!!!

(a bota botilde atazanou a minha vida, atua não?)

Joana disse...

Txéeee, o tempo do Rock Tirolês!!!
Parece que somos do mesmo tempo. ;-)

Maria Meechan disse...

Adorei ler.Também sou desse tempo ( e talvez até um bocadinho mais para trás}, lembro-me disso tudo :) Obrigada pelas recordações.

Patrícia Pinto disse...

Sou do tempo de tudo isto e ainda acrescento tão a propósito do meu post de hoje, que também sou do tempo em que fazer tpc's não era visto pelos pais como "uma infâmia e uma calamidade"!!!!
Ai de mim que tentasse dizer ao meu pai " Epá, a professora é mesmo chata! Mandou esta carrada de tpc's!!"! É que levava logo uma galheta e para castigo ia fazer mais uma cópia do Papu e a tabuada dos 8 10 vezes!!!!

K disse...

Somos do mesmo tempo e isso explica muita coisa!

Rosa Alice disse...

Sou de algum desse tempo. E sinto saudades.
Sou, igualmente, do tempo em que dizer que "se era do tempo" era assumir que esse tempo tinha sido muito melhor que o tempo de agora.
Tenho pena de achar que este tempo não é bom. Ou que aqueles que são agora deste tempo não vão ser tão bons quanto nós, de outros tempos.
Ursa, gosto mesmo muito de ler o que para aqui escreves. Obrigada! :)

menina disse...

Faltou uma: ainda sou do tempo em que só havia 2 canais de Tv,o 1º e o 2º canal,e quando começava um programa no outro canal,começavam a piscar umas cruzes no canto da televisão. Lembram-se?!?!

Alexas disse...

Fantástico :D Revi-me em tanta coisaaa.

Miska disse...

Adorei o post! Sou desse tempo mas de um pouco mais atrás ! Que saudades!
Obrigada pelas boas recordações !

sandra hadouche disse...

Bons tempos esses sem duvida.
Principalmente quando era tão comum dizer obrigado.Aproveitar as noites de verão tão quentes que dava para estarmos na rua até tarde.
Quando vínhamos em grupo das festas de localidades vizinhas a pé sem qualquer medo...
Como disse...Bons tempos.

Yara disse...

Muito bom, revi-me em tudo:) e nao termos mil e uma actividades, tambem nao fez de nos pessoas menos competentes:)

Lullaby disse...

um sincero obrigada, Pólo!
apesar de ser ainda de uma geração mais recente do que a tua, essa mesma infância de que falas foi prolongada até à minha, com mais uns ajustes de pokemons, tamagochis, batatoon, onda choc e novelas as mexicanas dubladas na tvi à tarde. no entanto ainda sei o que é que o símbolo da disquete no word realmente quer dizer e fico um bocadinho mais vazia de cada vez que percebo o quanto os miúdos de hoje em dia perdem, por ganharem tão mais em outras coisas.
chamem-lhe evolução, mas era tão bom esfolar os joelhos em vez de ganhar jogos virtuais em tablets...

I LOVE ALPRAZOLAM disse...

É isto tudooooo!tudinho!granda rewind que fiz agora!im old fuck this shit pa!amei o post!bja

moimeme disse...

Been there! Done that!

E, hoje deixaste-me com umm lagrima nos olhos....

Obrigada Ursa!

Cynthia disse...

Há coisas aí q não reconheço, talvez por ser um pouco mais nova q tu, no entanto há uma data delas q recordo com carinho e das quais sinto saudades. É cá uma nostalgia :)

cantinho disse...

Excelente post!
Sou mais velha, mas revivi aqui o meu tempo e o dos meus irmãos mais novos, que ajudei a criar.
Tínhamos tudo, o amor e o sacrifício dos nossos pais e avós, e nada, os brinquedos/ roupas de marca,e muito mais, mas um mês de férias na praia...os momentos ais hilariantes e bem vividos com as famílias, os filhos destas, nossos ainda hoje, os nossos amigos.
Obrigada, Pólo Norte.

Cristina Silva disse...

Obrigada por me fazeres voltar à minha infância. Fiquei até de lágrimazita nos olhos, principalmente com saudades do meu pai (que já não tenho) na feira popular, a fazer furos nas caixas da Regina e às vezes, na loucura, acabar com os furos todos. Era chocolate até fartar.

Ana Pragana disse...

Pá, sou ligeiramente mais nova mas há tanto 80's neste texto que é impossível não me identificar com isto! Tão bom!

sramos disse...

Muito bom, parece que voltei atrás no tempo. Mas, felizmente o meu pequenito tem a possibilidade de viver algumas destas coisas e eu de ter que gritar para ele vir para casa porque já é de noite, e cada vez que o faço farto-me de rir e lembro-me da minha mãe a fazer o mesmo.

Marisa Reis disse...

Que espectáculo, bebi e devorei cada uma das tuas frases...como eu voltei atrás no tempo... tenho + 2 ou 3 anos mas essa também foi a minha infância/adolescência. Que saudades das bombocas, da bota botilde e o 123, do MacGyver, e tantas outras coisas. Fomos felizes a jogar ao elástico, aos corredores, à lata, ao aí vai carga, etc.

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