segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Todas as escarretas do Mundo

O minha maternó-dignidade fica no chão. A miúda fez dois anos (dois, imagine-se! Caraças, já corre, fala, mas fala mesmo, não balbuceia palavras, fala com frases e tudo, palavras com intenção e significado compreendido, a loucura!) e eu sinto o cabelo todo lambido da vaca das escarretas imaginárias que mandei para o ar, certezas absolutas antes da maternidade que agora me mostram que “toma lá que já almoçaste, Pólo Norte Maria!”. 

Antes era psicóloga antes de ser uma futura mãe. Tinha teorias, conceitos, estudos decorados e muitas, muitas certezas absolutas. Todas as certezas absolutas do Mundo: ah, que nunca a vou pôr em frente a uma televisão até ela ter dez anos (hum, hum… Vivam os Caricas quando eu preciso de tomar um banho rápido sem andar com a minha Ana-sombra pela casa toda! Beijinhos Pipa, és a minha preferida!), ah que se ela fizer birra não sei como vou gerir que odeio berreria (“Ahn, ela está a gritar desalmadamente no meio do restaurante porque a contrariámos? Ah, sou como o burro do Shrek: não estou a ouvir! Não estou a ouvir!) e ela nem vai saber o que são doces (Obrigada Sra. da Panisol que sempre que a Ana vai com o pai ao pão ao fim-de-semana se esquece de perguntar ao progenitor se lhe pode oferecer uma bolacha húngara e lha enfia logo na boca! Valeu!). 

 Ah e tal mas tu não és psicóloga? Sou. Mas não sou a psicóloga da Ana. Da Ana sou só a sua mãe. Humildemente mãe. 

Mas falava eu das escarretas. A primeira escarreta foi com o co-sleeping: ah e tal ela vai sleepar é na cama dela, ó larilas, era maizoquefaltava, eu que gosto tanto de dormir à larga. Tumbas, Ana na cama dos pais, eu e mámen perfilados de ladex nos respectivos lados da cama, na beirinha da cama, quase a cair, e sôdona lady Ana toda estiraçada, na diagonal, a dormir o sono dos anjos. 

 Falei cedo demais como falam todas as não-mães que conheço. 

A segunda escarreta veio com a filosofia anti-consumista que queríamos passar à miúda e como os miúdos brincam com qualquer coisinha- olhai Lídia os lírios do campo!- , podemos dar-lhe ramos para ela fazer de varinha de condão, molas da roupa que simulem dinaussáurios- olhai Líria, a flauta dos pastores!- , brinquedos bons só como recompensa ou em ocasiões especiais- Leonor, vai para a fonte, vai formosa e não segura. No primeiro Natal a miúda recebeu todos os brinquedos para a sua faixa etária que havia na loja Chicco do Cascaishopping. Não é uma hipérbole: recebeu todos. Todinhos.Graças à família mais querida que se-está-a-cagar-para-as-nossas-teorias-anti-consumo e vai de lhe dar tudo e mais um par de botas que-a-gente-agora-sabe-que-lhe-pode-dar-e-não-se-sabe-o-dia-de.amanhã-também-tinhas-todos-os-brinquedos-que-havia-e-não-morreste-de-consumismo-deixa-te-lá-de-psicologias. 

 No primeiro aniversário já tinha uma colecção de livros da FisherPrice maior que uma enciclopédia e, neste último aniversário temi que se emancipasse. Aos dois anos a Ana tem uma casa cor-de-rosa oferecida pela avó no quintal da própria, enorme, com uma cozinha lá dentro que lhe deu a tia com todos os apetrechos possíveis e imagináveis: cadeira de comer para a sua filha Joana, tábua de engomar e ferro que lhe deu o namorado da avó e o aspirador, pois está claro, que lhe deu o tio. No quintal tem ainda um autêntico parque de diversões: um escorrega só para ela (e para a vizinha Maria, sua grande companheira de brincadeiras), uma piscina de bolas e um ginásio insuflável, prenda da tia Catarina, que este ano foi uma festa e só lhe ofereceram prendas de 1,50 m para cima. Se se fartar de estar em casa tem um mini-coupê cor-de-rosa com bateria e tudo, basta ela conseguir chegar ao pedal para fazer o carro andar, mas isso agora não interessa nada que a crise é capaz de piorar e assim com’assim enquanto podermos vamos-lhe dando tudo. 

 A terceira (grande) escarreta virá para o ano. Eu que sempre fiz troça interna das mães que levam os meninos no primeiro dia de escola e choram baba e ranho depois de os deixar entregues à educadora comecei a sofrer por antecipação. Deixei de as achar tontas porque se escolhem aquelas escolas é porque têm que ter confiança nas suas escolhas, ai que os miúdos assim que as mães viram as costas distraem-se uns com os outros e esquecem-se no instante das lágrimas e comecei a angustiar. 

 Este ano, cada vez que abria o meu feed de facebook e lia os status sofridos das minhas amigas mães que deixavam as crias no primeiro dia de escola, os meus olhos marejavam, ai eu horror, que drama, e se ela se sentir perdida, e se ela se sentir abandonada, e se ela não gostar da educadora, e se os miúdos forem maus para ela, e se… 

Falta um ano para a Ana entrar para o colégio e sei que dentro de doze meses levarei com a maior escarreta do Mundo em cima da mona. As materno-escarretas são inevitáveis e são um banho nojento de humildade, e de queda de todas as certezas absolutas e prepotência que as ainda-não-mães têm que comer. Que é para não terem a mania! 

 Eu- especialmente eu- incluída.

“Que é bem-feita porque o cão tem a mania que é espertalhão!”

12 comentários:

São João disse...

É por essas e por outras que deixei de cuspir. Sempre que me perguntam "e vais fazer assim, e vais fazer assado?" eu digo "não sei, logo se vê"

Minnie disse...

Há pois é...
Isto é tudo muito bonito, mas com o dia a dia lá se vai a teoria.
E sejamos realistas a maior parte desta teorias são uma treta, tudo se quer qb com bom senso.
(gosto muito do seu blog)

sandra disse...

Adorei, adorei, adorei! A minha cabeça também tem sido bombardeada por tempestades de escarretas. Como é possível é que até parece de propósito!

O que me ri com este texto!
Parabéns!

ME disse...

TÃOOOOOOOOOOO VERDADEEEEEEEE!!! Eu escarretada me assumo!

Inês Sousa disse...

Adorei este post porque apesar de não ter tido tantas certezas ainda assim levei com umas quantas escarretas em cima e agora deixo andar porque o pimpolho tem dado provas de lucidez e uma clara separação entre a realidade e a ficção, não é pedinchão, nem exige o mundo, o que me deixa a pensar que se calhar quem tem demasiados macacos no sotão somos mesmo nós os adultos e assim tento voltar a ter a idade dele e esquecer-me das teorias e dos medos da idade adulta. Hoje não chorei quando o deixei à entrada da escola primária, mas não dormi boa parte da noite e passei a manhã uma pilha de nervos e só quando ouvi a voz dele à hora do almoço e tive a ceteza que tinha sobrevivido é que pude respirar fundo.

Raquel Amaro disse...

Como é tudo tão verdade. A quantidade de vezes que mordemos a língua.

ME disse...

"Nunca lhe vou dar fritos, pipocas, guloseimas ou refrigerantes." À primeira birra num restaurante espetei-lhe com um prato de batatas fritas à frente e um pacote de bongo...

Isabel Patrício disse...

Antes de ser mãe tinha teorias.. agora tenho uma filha ... Fiquei a ganhar. Mas não cuspas....é Feio

Vee disse...

Adorei este post, devia ser lido por tanta gente que ouço "praí".

Papoila disse...

he he he também já levei com elas na testa. Agora digo que fazemos o que conseguimos com o que eles nos deixam...não contávamos com o DNA que lá vem...

Framboesa (uma diva de galochas) disse...

Eu não sou mãe nem sei se serei e percebo essa visão talvez porque também não tenho uma visão muito fantasiosa (na nossa casa não irá dormir criança nenhuma connosco, tenho 99% de certeza disso por razões que eu ca sei...mas certamente haverão muitos doces e livros e tv e net e tudo e tudo).

Por outro lado quando me dizem que se fosse mãe é que podia falar, lembro-me logo de tantas mães que conheço que pensavam como eu antes de serem mães e depois de serem mães ... e essas que não mudaram a maneira de pensar são as que menos me criticam...

Conclusão:todos somos diferentes, temos atitudes diferentes, contextos diferentes e diferentes motvações :)

Cynthia disse...

Assino por baixo. Nunca tive grandes filosofias de que faria assim e assado, porque sabia que podia não correr como esperado, mas como todas a não-mães, tinha algumas esperanças e ideias de como proceder perante algumas situações. E, tal como tu, digo... não há NADA como ter um filho. Só aí e unicamente aí podem opinar com todas as certezas.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...