quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Um céu à medida de cada criança

Zanguei-me com Deus há tanto tempo que, durante anos, escrevia, propositadamente, a Seu nome com letra minúscula, heresia para muitos, afronta pessoal entre mim e Ele, provocação maior de quem não entendia os Seus desígnios, caprichos, vontades e decisões. 
Foi o milagre da maternidade que me veio reconciliar com Ele, aos poucos, de mansinho, sem forçar nem cobrar, sem pressões nem emoções de grande intensidade, apenas uma paz que se veio instalando, de mansinho, um sentir natural que há que aceitar, que compreender, que seguir em frente, sem zangas nem revoltas, sem raivas que consomem nem amuos. Viver numa espécie de fé privada, uma fé que é íntima e muito nossa, minha e Dele, sem orações decoradas nem palavras ditas em ladaínhas, sem a obrigatoriedade de cumprir rituais e com uma Liberdade que tão bem Nos cabe e só assim faz sentido. 
Da fé dos outros nada sei mas, no que me diz respeito, a minha fé é uma forma, tão válida quanto qualquer outra, de sobrevivência emocional, de fazer as pazes com a vida, com o Mundo. De viver em paz. 
A Nonô morreu. Antes dela, menos de um mês antes, morreu-me a Bia e apagaram-se os seus olhos azuis e nunca mais a frase "tens um mano na barriga" será ouvida com aquele tom, meiguinho, de passarinho frágil e ainda antes o Rodrigo, e a sua imagem naquele caixão tamanho XS, e o vazio que deixou em todos nós. 
Morrem crianças, filhas de mulheres como eu, a quem a morte lhes anula a vida que tiveram o dom de dar ao Mundo e eu cada vez percebo menos da vida, da morte e dos desígnios Dele. Já não me zango. Caio, apenas, numa tristeza profunda de quem queria acreditar que a sua acção poderia ajudar a mudar as fatalidades do Mundo, de quem se consciencializa da sua pequenez e insignificância e fico quieta, à espera que o Mundo dê mais uma volta e as coisas se agitem de modo a que, um dia, possam ser de outra forma que faça mais sentido e tenham todas uma lógica positiva e feliz. 
Olho para dentro, para a minha fé, forma que tenho de não morrer de desesperança e descrença no Mundo, nas pessoas, único meio que encontrei para que as coisas desprovidas de qualquer sentido se ajustem e arrumem, adquirindo uma lógica qualquer, e desejo, com todas as minhas força que haja, de facto, céu. 
Um céu à medida de cada criança, como um cantinho num gigante quarto de brincadeiras, muito personalizado e ao gosto de cada uma que parte. Que hoje a Bia, no seu céu cheio de Hello Kittys receba a Nonô de braos abertos, olhos azuis brilhantes, em paz, sem dor, e a ajude a encontrar o seu céu, com baloiços e balões, cor-de-rosa. Muito, muito, cor-de-rosa. 

10 comentários:

Topzinhoo ^^ disse...

Que dor. Que aperto no coração. Que fé inabalável na crença de que almas tão puras só podem pertencer a um sitio muito mais belo, simples, cor-de-rosa. Nós aqui em baixo ficamos a perder, imenso. Mas alguém Lá em cima recebeu um presente doce, uma presença maravilhosa no que acreditamos ser o céu.
Tornam-se estrelas mais pequenas que as outras, mas com um brilho infinitamente maior...

D. disse...

;( como eu disse, numa pequena homenagem que deixei no meu blog, o céu não deveria ter "estrelinhas destas". Doi a quem cá fica e não conhece pessoalmente, apenas a luta, quanto mais.
bjs
http://dentrelinha.blogspot.pt/

justagirl disse...

Que dor...como se sobrevive a uma perda destas?

Nini disse...

Escreves tão bem que me deixas emocionada! Hoje é um dia triste. Como te compreendo em relação à fé...neste momento questiono-me sobre aquilo que Deus quererá de cada um de nós. Mas uma coisa tenho a certeza: a pequena Leonor, a Bia e o Rodrigo cumpriram o seu propósito e fizeram com que me tornasse melhor mãe.

Bruno Alexandre disse...

A vida tem estas tragédias, que nos fazem pensar, e arrepiar, e chorar... Porquê uma criança? Ainda com uma longa infância pela sua frente e tantos sonhos e desejos por realizar??? Porquê? Porquê???
Andará Deus adormecido? Esquecendo-se que um dia já foi criança?
Não, Deus não dorme, apenas quer junto de si estas crianças que não passam de anjinhos e nos fazem pensar se realmente temos vivido as nossas vidas!
Para elas, coitadinhas, a partida permatura é um livrar-se do imenso sofrimento que carregam com elas, e acredito que do outro lado, nesse imenso céu azul elas olham por cada Nônô, por cada Bia, Ana, ..., que por aqui caminham e pedem-nos simplesmente que as amemos como elas um dia mos amaram e continuam a amar... A morte não poderá ser um fim, mas o começo de uma vida nova, na qual Deus é tudo em nós!!!

Aos pais que sofrem, apenas lhes resta o conforto da nossa oração, e a certeza de que no céu o seu ANJINHO olha por eles.

Squaw disse...

por favor, se não tens nada para dizer remete-te ao silêncio. não uses a dor alheia.
PLEASE!!!

Pólo Norte disse...

Squaw,

por favor, se não gostas de ler, não venhas a blog alheio. PLEASE!!!

SL disse...

não sabia da Bia... já te tinha perguntado por ela, mas não chegaste a responder... triste dia...

cantinho disse...


:(

mariana disse...

Estou a estagiar no CMTV. Há uns dias passei pela Lara e ela vinha com um sorriso gigante, e sentou-se ao meu lado concentrada no seu trabalho. Quando uns dias depois ela se ausentou, e senti o sabor amargo da morte da Nonô por todo o edifício da Cofina, percebi que o mundo não vai ser o mesmo. A Lara não vai ser a mesma, nem a mãe da Leonor, nem todas as outras mães.
Chorei com este texto Ursa, mais uma vez.

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