terça-feira, 21 de outubro de 2014

E tudo a crise levou

A crise mexeu muito com o dia-a-dia dos portugueses. Não se trata de se usar o bode expiatório da crise para todos os males do Mundo mas a crise mudou o nosso quotidiano, os nossos hábitos e- sim!- também os nossos rituais.

 Primeiro tiraram-nos poder de compra. Tostões que nos davam para pequenos luxos: beber um galão e um bolo de manhã no café, fumar cigarros de maço, ir de carro para o trabalho, ir uma semana de férias para Monte Gordo num apartamento jeitosinho. Depois esgravataram mais e mais e deixámos de poder ir a um restaurante, ir ao cinema mesmo à segunda-feira, comprar uma roupa nova ocasionalmente. Isto na classe média, já para não falar na classe mínima do pré-crise que passou a desclasse.

 Depois tirararam-nos os rituais. Hábitos e costumes que nos definem como povo: o pedir o pão-por-Deus no 1º de Novembro, o questionarmos que feriado era aquele que nos sabia tão bem no dia de Todos os Santos, o almoço das casadas em Alcabideche, todos os primeiros de Dezembro.

Mas havia algo imutável: o nosso clima. Havia a certeza de que tínhamos quatro estações, bem definidas, bem resolvidas, sem crises de identidade ou fiscais: primavera, verão, outono e inverno. Eu, por exemplo, sabia que no meu aniversário, a 17 de Julho, havia sempre sol e calor e podia usar sempre um vestido fresco e colorido. Este ano alombei com um casaquinho de malha que foi para abrir a pestana, toma lá disto, não dês por garantido o bom tempo, olham’esta!

 E sabia que em Outubro já tinha cumprido o ritual de arrumar a roupa de Verão na arrecadação, de tirar cá para fora a de Inverno, de sacudir o pós às botas e de deixar espreitar os cachecóis. De me apetecer chocolate quente e castanhas cozidas com erva doce, pois então. Se havia algo que nos conferia uma confiança de que, afinal, nem tudo a crise levou, era esta certeza meteorológica, esta lucidez de clima, esta confiança de que o Mundo continuava a girar às direitas: primavera, verão, outono e inverno. 

Até isso nos levaram. Temo que venha a passar o Natal de ventoinha ligada e assusta-me a ideia de passar o reveillon mergulhada nas quentes águas… da praia do Tamariz. 

Quando é que passa a crise?

5 comentários:

Framboesa (uma diva de galochas) disse...

falei sobre este assunto ontem no meu blog...um "pouquinho" mais resumidamente...LOLOLOLOL http://tempestade-num-copo-de-nada.blogspot.pt/2014/10/ate-tu-brutus.html

Frutinha disse...

Ahahaha. Muito bom!
Mas olha que não me importo nadinha que esteja bom tempo agora. Com um solinho bom

∞ Desabafos e Coisas ∞

cantinho disse...

Uma grande verdade, e não há-de faltar muito tempo de esse réveillon será na praia.

Infinitiva disse...

Ai Pólo, gosto muito de ti mas não conhecia esta faceta de pessimismo parvinho :P Aproveita mas é o sol desta semana - para mim, é uma espécie de presente! :D

E a culpa de tudo não é da crise: é da praxe.
Ou do acordo ortográfico :P

Sofia Livro Noronha disse...

Aqui pelos Açores, apesar de não estar frio, tem chovido imenso esta semana. Ouço na rádio o pessoal a dizer que estão outra vez no Verão, e vejo na televisão as pessoas na praia, enquanto eu estou aqui à espera que apareça o sol. Uma coisa é certa: seca não passamos por cá. :)

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