sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Eu e ela, unidas pela vergonha do monstro

Ia com ela rente ao muro até ao liceu. Tinham passado quatro anos, desde que nos conhecêramos, na primeira classe. Mas reencontravamo-nos ali, depois de um ou dois anos de interrupção motivadas pelo divórcio dos pais e necessidade dela e da mãe mudarem de cidade. O pai continuara na casa onde as paredes testemunharam agressões várias, o bafo a álcool, noite após noite, o assalto ao mealheiro da minha amiga para resgatar moedas para o vinho. 
Voltara a tempo do liceu, onde evitávamos passar no banco de jardim onde ele se sentava, aos caídos, mas com energia suficiente para a ofender, chamar nomes à sua mãe e envergonhá-la em frente de todos os colegas. O peso de ser filha de um alcoólico. 
Unia-nos esse monstro que levava a minha avó a esperar o meu tio, noite após noite, ao virar da nossa rua, na esperança de o avistar são e salvo. Assim que algum de nós entrava em casa a primeira frase que nos dirigia não era nenhum cumprimento, Era um "Viste o teu tio?". Víamos muitas vezes- não tantas quanto ela desejava- mentíamos-lhe amiúde, que não nos tínhamos cruzado, para lhe esconder os passos trôpegos, a fala afectada, os olhos brilhantes e a vergonha extensiva a todos nós. O peso de ter o álcool como parente.
Depois ele chegava, às vezes muito tarde, a falar sozinho, a entornar coisas na cozinha, antes de se ir deitar, antes da minha avó suspirar de alívio porque ele, desta vez, mais uma vez, havia chegado. Outras noites não chegava e a minha avó ficava acordada, sem pregar olho, sob os protestos do meu avô que gostaria que ela lhe permitisse uma atitude mais firme, só que não, era filho, alcoólico, mas era filho.
E nessas noites, às vezes, acordava-me, para ligar no telefone de disco para os hospitais todos, lista telefónica em riste, na esperança de ouvir que não tinha dado entrada nas urgências ninguém com o seu nome. Às vezes acompanhava-a ao virar da rua, de robe, para não a deixar ir sozinha, para o avistar ao longe, são e salvo dos acidentes provocados por todas as possibilidades: pelos atropelamentos, pelas quedas, pelos assaltos, pelas brigas alimentadas pela cerveja, pela vida escolhida. E esperávamos, muitas vezes juntas, que ele chegasse. Esperava sempre, a minha avó, esperou sempre. Até morrer com este filho entalado no coração, enrolado no nó na garganta que nunca passou.

Eu e ela, ali, rente ao muro, a caminho do liceu. A vergonha, o martírio, o tormento e a tristeza das vidas que o álcool mudara, invariavelmente, sem que nunca o tivéssemos escolhido, só porque alguém que amávamos escolhera o monstro para si. 




[Hoje vi este vídeo e lembrei-me de ti. Sei que me lês. Um beijinho grande para ti, C., com saudades da cumplicidade rente ao muro, a caminho do liceu.]

11 comentários:

Minnie disse...

Parabéns pelo magnifico texto e pelo vídeo tão elucidativo.

Este é um post com alma!

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Quando somos crianças simplesmente não entendemos... Mas esse monstro é tão comum. Também existe na minha família, e esse texto trouxe-me recordações.

Mary disse...

Admiro muito tuas palavras. São sempre muito sentidas profundas. tenho muito receio do meu irmão um dia ir por este caminho.

Maria Alves disse...

Recordações... de um pai alcoólico que subia as escadas de gatas! E que no fim foi levado pela bebida!

Bruno Jesus disse...

Bem, julgo ser a primeira vez que comento algo escrito por si... Muito bem, literária e verdadeiramente bem redigido. Sou clínico, trabalho diariamente com pessoas com CAD's (comportamentos aditivos e adições). Não valorizado por nada nem ninguém, mas isso agora não interessa. O que interessa sim é que continuam a haver muitos filhos do álcool e de outras substâncias; o martírio e a co-dependência, a implicação social, mas acima de tudo o trauma e o (in)desenvolvimento relacional continuará.
Gosto muito dos textos que de quando em vez a minha mulher (sua seguidora) me sugere para ler (os seus, claro).
Bem haja. O feedback é importante... e o meu é seu, positivo e "agradecedor" por chamar a atenção para coisas tão facilmente esquecidas. Necessitam de tanta ajuda os que ajudaram, os que foram ajudados, os que nunca o foram, mas acima de tudo aqueles que julgam não a necessitar.

MoonLight disse...

Sei bem o que é isso...

hippiechiq disse...

Neste momento estou tão cheia que entorno emoções e não consigo dizer já, tudo o que me fizeste sentir. Eu volto! Por enquanto: obrigada (de novo).

Precisas de um botão de "share" aqui pros posts! hehe :)

hippiechiq disse...

Neste momento estou tão cheia que entorno emoções e não consigo dizer já, tudo o que me fizeste sentir. Eu volto! Por enquanto: obrigada (de novo).

Precisas de um botão de "share" aqui pros posts! hehe :)

Desabafa Aqui disse...

Um grande post escrito com sentimento e verdade, muito bom!

rcp disse...

Este texto, hoje em especial, deixou-me de olhos marejados. e mais nao consigo dizer, porque com tão simples palavras fizeste-me viver coisas que, pensava eu, ter enterrado para sempre no meu coração.

Maria Pinto disse...

Este post tocou cá dentro Pólo, não por ter conhecido esse monstro na infância, o monstro que me deparei foi outro, mas conheci amigas que viveram sempre à procura da "toca" para se esconderem do dito cujo. A infância infelizmente é muitas vezes marcada por monstros desse genero e o vídeo é perfeitamente esclarecedor.

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