sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Eu gostava de ser bicho para comer o bicho que te come…

Vivemos dias difíceis. Inscrevemo-nos como potenciais dadores de medula óssea porque vimos na televisão, no facebook ou conhecemos o jogador de futebol cujo filho precisa de se tratar de uma leucemia, as motivações têm, quase sempre, uma cara, um olhar, pais ou filhos, alma e esperança e  nós também. 
Depois morre uma criança, e outra e outra, a quem chamamos "guerreiros", "pequenos anjos", "princesas" como se se os transportarmos para um Mundo de super-heróis lhes conferisse super poderes para matar o bicho. Não confere. E morrem. Todos os dias, estas e outras crianças, agora sabemo-lo em primeira mão, não em números mas com palavras, morrem estas crianças com histórias de vida que vamos acompanhando, com rosto, olhos, sorrisos em fotografias partilhadas e esperança. E ficamos apáticos, a praguejar contra o Mundo, contra os deuses, contra as redes sociais que nos abanam das cadeiras e nos fazem levantar o rabo para fazer qualquer coisa, contra o facebook que pôs a descoberto o rosto, os olhos e o sorriso de todas estas pessoas, de quem nunca saberíamos se não fosse esta a era da informação global. E sentimo-nos desesperados como se a nossa acção para pouco servisse, como se o facto de nos termos inscrito e nunca termos sido chamados não valesse para nada. 
Eu sei que sim. Eu senti-me assim, morte após morte, do Rodrigo, da Bia, da Leonor.
Há um altura em que pensamos que temos que pôr o coração ao alto, não nos envolvermos tanto, para nos protegermos, para não sofrermos esta deseperança, para sobrevivermos emocionalmente. Sabemos que, lá fora, continuam a morrer, todos os dias meninos com cancro e leucemia, mas não queremos colocar mais likes em páginas, não queremos seguir mais histórias, não queremos envolvermo-nos mais, resignamo-nos que nada mais podemos fazer e, num jeito autista, tapamos os olhos e os ouvidos e demitimo-nos de querer tentar salvar um Mundo que não conseguiremos, nunca, salvar. 
Eu sei que sim. Eu também. 
Há uma música dos Da Weasel que diz que "Eu gostava de ser bicho para comer o bicho que te come…". Talvez seja isso, sempre que quero deixar de intervir activamente, de me envolver, aparece um rosto, uns olhos, um sorriso, uma esperança de poder ser desta que a minha participação faça a diferença. De poder ser o bicho que come os bichos que os comem, uma espécie de super-herói, com poderes especiais para fazer com que a cura aconteça. Ou, pelo menos, agir tentando. Sem desistir.
Desta feita é o Salvador que precisa de um salvador. Todos, sem excepção, eu também, tu também podes fazer a diferença. 
Inscreves-te? Vens?

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