quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Jessica Athaíde e a revolta do pastel de nata

Diz que a Jessica Athaíde está gorda, ouço eu no café, enquanto trinco um pastel de nata. As duas raparigas, na casa dos vinte anos, fofocam sobre a polémica, na mesa ao lado. Dizem que sim, senhora, que não percebem o sururu, que há ali chichinha na barriga, que não tinham coragem de se "pôr de biquini numa passerele com aquela forma física"- diz a entendida na matéria- olho-a de ladex, uma miúda normal, nem gorda nem magra, com toda a certeza com uma barriga não mais tonificada que a da Jessica, não consigo ver bem, olho para baixo, a minha barriga tão mais mole do pós-parto, da vida de trabalho na secretária, dos pastéis de nata. Olham para o tablet, reparo que estão a ver um comentário que vi ontem do Rui Unas, criticando as raparigas que são só pele e osso, "meninas-cabide" como lhes chama um amigo meu, defensor da chicha.
Parece-me igual, tudo o mesmo, criticar a chichinha da Jessica ou os ossos das modelos anónimas, como se o corpo definisse a pessoa, a sua segurança, o seu modo de vida, a sua forma de ser e estar, a sua sensação de felicidade. Vêm-me à memória as pessoas estupidamente queridas que já conheci: a minha amiga Rosa com chichinha, das pessoas mais fabulosas que a vida me deu, a minha amiga Cláudia que nunca conseguiu dar sangue por não passar a barreira dos 50 quilos, tanto me faz as suas carcaças, o revestimento dos seus ossos, são maravilhosas ambas, para quê hierarquizar beleza, formatar padrões, julgar células, massa óssea, gordura. Acreditar que a vida depende de um número ditado por uma balança, seja um número pequeno ou grande, tanto me faz, faz-me revirar os olhos.
Suspiro. Olho para elas com ar meio esquizóide, vejo que me acham meia maluquinha (e sou), não quero saber, e sai-me uma deixa à Maria do Frei Luis de Sousa: "O corpo é uma flor muito fresca. E mortal.". Foi ele que me disse, um dos homens que  mais amei, num dia em que também na casa dos vinte, reclamava da minha forma física. Era mais magra do que hoje e tive dias mais felizes e menos felizes do que os que tenho hoje, a minha felicidade não depende do meu peso, isso é limpinho. As medidas dos corpos nada têm que ver com as medidas da felicidade.
Diz que a Jessica Atahíde está gorda e eu sorrio. Lembro-me que, assim sendo, de acordo com os padrões que esta sociedade impõe- esta sociedade cheia de meninas da mesa do lado- constato que, desta forma, sofro de obesidade mórbida. 
E acabo de comer, prazenteiramente, o meu pastel de nata. 

10 comentários:

Vanda Estrompa disse...

Um texto excelente. Parabéns.

Vanda Estrompa disse...

Um texto excelente. Parabéns.

Inês Sousa disse...

É isto tudo sem tirar nem pôr. Exsitem pessoas maravilhosas em todos os formatos. Quanto à pseudo-polémica acerca da Jessica Athaýde digo o seguinte: é pena que seja dado tanto tempo de antena ao ressabiamento e à inveja de quem tem vidas vazias. A Jessica estava a meu ver um arraso.

pollykc disse...

Nunca liguei ao peso, ao meu peso, ao peso dos outros. o peso é apenas isso... um número que não importa.
Já tive o problema de não conseguir passar a barreira dos 50kg. Lembro-me que quando ia à praia era olhada de lado... Não gostava, sentia-me um verdadeiro ET. Deixei de ir à praia, e mais tarde deixei simplesmente de ligar a esses olhares.
Hoje peso 56kg (yupii). Já me disseram que tenho que ter cuidado, que um dia destes desleixo-me e lá se vai a formosura... Acho que a sociedade se preocupa mais com isso que eu.
Não me importa minimamente se tenho 50, 53 ou 56 kg. Importa-me que tenha saúde, que tenha emprego, que tenha quem me ame e ature este meu feitiozinho!
É por estas e por outras que não consigo comprar revistas "cor-de-rosa"... porque tudo se resume a aparências, amores e desamores da vida de alguém que dizem ser famoso... Não me importa, não me interessa. Desiadas futilidades para mim!
Mas sim, li o post da Jéssica, por toda a polémica que deu. Vi a foto... não percebi a crítica. Vi um corpo normal, e se tivesse mais 5 quilos, que tivesse... E se tivesse mais 10 quilos? Não podia desfilar?... Haja paciência... Esses comentários de café soam-me muito a "dor de cotovelo" ;)
(sorry... estiquei-me! loool)

Magnolia disse...

Muito bem. Haja mais Pólos a defenderem a a mulher de todas as formas e feitios...Excelente texto ! Não à "normalização" da mulher!

Maria Rolo disse...

Love this blog :D

Sílvia disse...

Eu entendi a intenção do Unas e, mesmo sendo gorda, senti que aquilo foi uma ofensa às magras. O que também me fez espécie é que ele vem defender o corpo da Jessica e afins como o corpo que os homens preferem, como se fosse por causa deles que somos gordas, magras, azuis ou verdes. Deve ser bom ser sempre o centro do mundo...

cantinho disse...

Por acaso, de tão polémica que foi a notícia nas redes sociais e nos blogs, que fui ver a foto e digo: está com um corpo excelente.
Gosto de mulheres rechonchudinhas... e sou mulher e magra.

Sophie disse...

Foste ao cerne da questão!
Amén, Pólo!

Prof Ed Especial disse...

O problema da Jéssica é ser portuguesa e não brasileira, porque se viesse do lado de lá, já era uma bomba gostosona para toda a gente e não havia metade do bruá...

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