segunda-feira, 27 de outubro de 2014

[Mãe nostálgica]

Estamos a conversar baixinho no sofá. A minha amiga e eu, com a Ana no colo, com uma birra de sono e eu a embalá-la para adormecer. "Eu vi a Amélia no arvoredo, tão pequenina cheia de medo". Ela, olha-me, e pergunta-me " Se tivesses que escolher apenas um adjectivo para te diferenciar como mãe, qual escolherias para definir o tipo de mãe que és? "Os olhos da Marianita são verdes como limão". Penso naquilo, aconchego a Ana mais para junto do calor do meu corpo, mais calma, a respiração a sintonizar com a minha, os olhos a semi-cerrarem-se. "Ó Rosinha, ó Rosinha do meio vem comigo malhar o centeio"  Ela trauteia as músicas que mais nenhum miúdo dos que brinca com ela conhece, baixinho, está quase a cair no sono. De repente, a memória da minha avó, anos atrás, comigo ao colo, o calor do seu peito, o seu cheiro a Minho, a casa, a pronúncia nestas letras que lhe dedico, voz rouca.  "Era meia noite cantava o cuquinho, era meia noite no seu buraquinho". Uma das meus maiores propósitos como mãe é não deixar morrer o passado e trazê-lo até à Ana, fazê-lo perpetuar no futuro que ela vai dar corpo e forma. Não deixar morrer as histórias da Quinta da Torre, em Poiares. O debulhar do milho, os fios de ouro nos dias de festa, o leite que saía da teta da vaca directamente para a mesa de pedra da cozinha, lá em baixo os animais a aquecerem a casa."Anda comigo, Amélia vem, que eu estou sozinho não tenho ninguém". Fazê-la sentir o aconchego da minha infância, a dolência do embalar da minha avó nas noites com dor de barriga, o cheiro do doce de tomate na panela, o colo a adormecer-me. A história da nossa família, da morte da tia Isaura, da vergonha da gravidez sem pai da tia Maria, a fé na santinha Balazar. "O centeio, o centeio, a cevada, ó Rosinha, minha namorada". Trazer-lhe para o presente o melhor do meu passado.

"Sou uma mãe nostálgica"- respondo, enfim, de regresso dos meus pensamentos.
A Ana adormeceu. "

5 comentários:

macaca grava-por-cima disse...

a música que o meu filho mais gosta é a Cinderal, do Carlos Paião... há coisas que são intemporais de tão bonitas

macaca grava-por-cima disse...

*Cinderela ("então... bate bate coração..."

Lullaby disse...

gosto sempre de te ler querida pólo e concordar também que um dia, se a vida me brindar com um rebento, farei questão de trazer até ele tudo aquilo que me tornou no que sou. beijinhos de coração quente com cheiro castanhas cozidas e geleia de marmelo da avó :)

Miska disse...

Adorei este texto e a ideia de transmitirmos o passado aos nossos filhos!
A minha filha tem agora 20 anos e está a estudar em Praga ( onde estou neste momento a passar uma semana) .Quando li este texto lembrei-me dela em pequenina e das canções que lhe cantava para adormecer e que também me embalaram a mim.

Sofia Livro Noronha disse...

:') A minha mãe não cantava muito para mim, mas o meu pai sim, e ambos contavam-me histórias quase todas as noites. Acredito que o meu fascínio de hoje por histórias vem da primeira paciência deles em contar-mas.
O carinho dos pais, dos avós, daqueles que nos amam, vive sempre connosco.

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