terça-feira, 7 de outubro de 2014

Trapezista


[Chega a uma altura em que és uma trapezista exímia. Olhas a trave no ar, nem pensas nas vertigens, sobes pela corda e rodas, rodas, danças no ar, outras vezes fazes apenas movimentos descoordenados, esperando que ninguém dê pela falta de arte, pelo acaso, pela mera necessidade de girares, na tentativa que ninguém dê por isso.
Giras, giras, lá em baixo os olhos postos em ti, na coreografia, no próximo movimento, o barulho das pipocas a serem roídas, as luzes a darem-te foco, a música a dar-te palco e a concentração de quem não se pode dar ao luxo de ter vertigens nem tonturas nem tempo para parar. 
Rodas sobre o teu próprio corpo, em movimento de rotação, translação e não páras, às vezes sentes dor de burro, outras custa-te respirar, não sabes para que giras, mas não arriscas deixar de girar. 
Às vezes temes que, cá em baixo, deixem de te dar corda, que lá em cima deixem de te dar protecção divina, que a sorte te abandone, que o destino não te seja favorável, que o corpo te falhe, que o fôlego te falte, que a coragem acabe mas mesmo assim, ainda assim, muitas vezes sem saberes porquê, não te permites deixar de girar. Para sempre trapezista.
Até quando, trapezista?]

1 comentário:

Tio do Algarve disse...

Até sempre, assim se espera!

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