segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Sobre a minha padarióportuguesófobia (que passou a padarióportuguesódepressão)*

Na verdade o fenómeno massificou-se: começou pelas novas padarias tradicionais, alargou-se para as tascas e tabernas tradicional-ó-gourmets (vide post anterior), estendeu-se às retrosarias fofi-fashion (suspiro e rezo a todos os santinhos que conservem por muito tempo a Rua da Conceição, em Lisboa), às barbearias  in e por aí fora. 
Eu fico a olhar, achando que o problema sou eu, que sou uma velha do Restelo. Que não percebo esta vontade de reinventar as coisas tradicionais e tipicamente boas e reinventá-las, transformá-las em conceitos, dar-lhes a volta e fazer pior, usando o argumento de que estamos a respeitar a herança cultural, o passado, e depois colocam-se tabuletas a imitar ardósia, lettering xpto a imitar letras escritas à mão, mesas restauradas e cadeiras uma de cada nação para dar um ar milimetricamente estudado para parecer descuidado, esta moda do antigo é que é bom desde que seja com uma nova "roupagem" mais "vintage" e "retro". 
E a minha irritação dá lugar a uma tristeza genuína e profunda de quem vê morrer o original para dar lugar a reinvenções que nunca chegarão aos pés do que deixamos, todos os dias, morrer.

E são estes os tempos em que deixamos morrer, matamos, somos assassínos, dia após dia, do que queremos, à força ressuscitar.


(* Continua a ser muito fogo de vista e não, definitivamente, os pães de Deus não são os melhores do Mundo. Aliás são mesmo enjoativos. Quase tanto como os bolos de quilo cheios de gordura. As baguetes também são secas. De nada.)

2 comentários:

Sara disse...

Subscrevo na íntegra. Outra coisa que me perturbou e que vem um pouco no seguimento do teu post:

http://ocorvo.pt/2014/10/21/vendedores-do-mercado-da-ribeira-sentem-se-empurrados-a-sair/

SN disse...

Mãe nostálgica, acho que o que lamentas é o desaparecimento das memórias, de referências, dos lugares onde foste feliz. Esses novos negócios são modas. Morrerão mais cedo que esses negócios tradicionais se não passarem à moda seguinte. Os novos negócios, inspirados nos antigos, não roubam clientes a ninguém. Simplesmente os tempos mudam e os negócios, como as pessoas, também morrem.

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