quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Solidão

Ali estava ela, ar doce e sereno, sentada no banco de madeira do parque infantil da urbanização benzoca da minha terra. 
Sentei-me ao lado. A Ana já conhecia o filho dela, das idas diárias ao parque com a avó, e depressa se entretiveram a brincar os dois. 
Começámos a conversar. Ela sempre com um ar doce e sereno- a contrastar com o meu estilo energético e agitado- mas com um semblante triste. 
Falámos dos nossos filhos, com exactamente a mesma idade, dos desafios que nos colocam, das graças, das descobertas. O menino- lindo!- primorosamente vestido, o tratamento que não é por “tu”, o estilo da linguagem denunciavam uma vida familiar mais do que desafogada, privilegiada, até. 
No tom de voz uma tristeza que se arrastava, nem uma palavra dita que denunciasse queixas mas os olhos vazios, assustadoramente sós. Tomava conta do menino desde que nascera, por opção sua e do marido, e via-se que a maternidade a deixava feliz. Mas, à medida que a nossa conversa se desenrolava, percebia uma sede de que eu não me fosse embora, uma necessidade de falar com outras mães (outros adultos?), uma fome de socialização. 
Convidei-a para tomar café, na pastelaria ali ao lado e ela aceitou. Tinhamo-nos conhecido há meia hora. Comentou que se admirava com o convite, que hoje em dia as pessoas estavam muito ocupadas com as suas vidas, muito fechadas nas suas rotinas, muito pouco disponíveis para abrirem espaço para as outras entrarem. E sentou-se à mesa de café comigo. 
Fez questão de pagar a despesa. “Mas isso não faz sentido nenhum”- retorqui. “É uma forma de lhe agradecer. Gostei imenso do convívio!” 
Despedimo-nos. “Ser mãe em full time pode ser, absolutamente, solitário, não é?”- desabafei com ela, ainda recodada do maravilhoso ano que passei em casa a tomar conta da Ana mas muito isolada do resto do mundo dos crescidos. “Nota-se assim tanto a minha solidão?”- sorriu, ela, outra vez de volta ao sorriso triste. 
“Amanhã voltam ao parque a esta hora?”- perguntou-me. “É tão difícil encontrar pessoas com disponibilidade para conversar com estranhos, sabe?”. Sei. 

Mas serei sempre a menina de 5 anos que vai até à beira-mar, de balde e pá na mão, e pergunta a outra que ali está, também sozinha: “Queres ser minha amiga? Bora brincar?” 

 (Amanhã voltarei ao parque. À mesma hora. )

13 comentários:

Filipa Catarino disse...

<3

A Limonada da Vida disse...

Fantástico, Ursa! Por vezes é tudo quanto basta, ouvir...

Henriqueta Negrao disse...

É por estes pormenores que gos'ti!!

Tânia Jorge disse...

aí caraças cada vez gosto mais deste blog e de si! confesso que as vezes tb me sinto a menina de 5 anos na praia! não é a unica! :) o que não é mau!

Cisca disse...

Maravilhoso. Até me arrepiei :)

MCP disse...

Gosto tanto de ti!

anovska disse...

O mundo precisa, decididamente, de muito mais pessoas como tu. Obrigada :)

Soninha disse...

A Ursa é única... e a sua capacidade de gerar felicidade à sua volta é simplesmente arrebatadora!dá vontade de sair pelo mundo a espalhar o bem... Parabéns por ser quem e como é! Um beijinho

Krystel disse...

Dá vontade de lhe pregar um grande abraço, e olhe que que eu nunca comentei por estas bandas. Parabéns por esta atitude bonita...mais, por essa personalidade fantástica.

Bigodes de Nata disse...

Amanhã, os olhos dessa mãe deixarão de ser tristes e irão cheios de esperança, mais brilhantes e mais vivos!

Bigodes de Nata loves you, you know that! <3

Maria Pinto disse...

:)
Deixo-te um sorriso que nem precisa de palavras...

Papoila disse...

Volta sim :)

Prof Ed Especial disse...

Muito bonito o texto! Mas só um pormenor: "entretiveram" em vez de "entreteram", ok?

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