terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sou mãe, logo desisto

Se lhe dou uma palmada em público fazem-me sentir que sou uma mãe violenta e lançam-me uns olhos com ar de quem me vai denunciar à CPCJ. Se não lhe dou uma palmada em público e mantenho uma calma irredutível olham-me de lado, que sou uma mãe passiva e a miúda faz o que quer e era só o que faltava. Se a visto pipi é porque estou a usar a miúda como boneca, menina- cabide, coitadinha, com roupa de missa, que nem se consegue mexer bem. Se a deixo andar com roupa confortável é uma falta de gosto, onde já se viu, uma menina com uma cara tão bonita e depois vestida à balda, que falta de brio. Se optei por deixá-la até aos 3 anos entregue aos cuidados da família alargada é porque já se sabe que os avós só deseducam e a falta que lhe faz socializar. Se  começo a procurar jardim de infância é porque a miúda deve ser do piorio que nem a avó já a consegue aturar. Se digo que a miúda dorme a noite toda devo estar é caladinha, não se faz pouco dos desgraçados dos outros pais que não pregam olho há 975 noites seguidas. Se avanço que esta noite ela acordou de madrugada é bem-feita, pensava que era diferente das outras, isto calha a todas, o que é que eu pensava, que a minha era especial de corridas ou quê? Se a deixo continuar a usar chucha é porque lhe faz mal aos dentes, que vergonha, onde já se viu, uma menina crescida ainda com chucha. Se começo a fazer-lhe o desmame da chucha, coitadinha da menina, acabou de fazer dois anos, sou uma nazi das chuchas. O mesmo com o controlo dos esfíncteres, que exigente que sou, quero de certeza é poupar nas fraldas mas para ir jantar fora, que elas bem sabem, eu tenho dinheiro mas deixar a menina usar fralda mais 10 anos isso é que não.  Deixo-a usar fralda é porque estou a ser pouco firme e permissiva, aos dois anos na sala dos filhos delas, no tempo dos filhos delas, os meninos faziam todos xixi de pé sem sujar a tampa da sanita, meus ricos meninos, um prodígio, e os delas também. Se não insisto que ela coma é porque estou a ser demasiado permissiva, a não saber impor regras, a ser uma má mãe, na volta a miúda vai ser anoréctica um dia. Se não a deixo levantar da cadeira sem ter acabado de comer é porque sou uma bruta, intransigente e a criar um potencial para a bulimia na miúda, uma bruxa de mãe.

Sou mãe, logo desisto.

Na maternidade como na vida.

Desisto de corresponder às expectativas dos outros sobre a minha experiência de maternidade: estou demasiado ocupada a tentar, dia após dia, corresponder às minhas. 


10 comentários:

Zina disse...

Como (quase) sempre assino por baixo. Mas confesso que às vezes é difícil e vejo-me a querer corresponder às expectativas dos outros. Já me basta não corresponder de todo às expectativas dos outros!

Filomena Silva disse...

Bem, adoro ler-te. Concordo plenamente, é difícil e tal como a Zina diz por vezes é difícil resistir de tentar corresponder às expectativas dos outros.

Lita disse...

A culpa é do Freud.
https://www.youtube.com/watch?v=OAnp5FEvIU0

disse...

:)
Eles não são todos iguais, nem mesmo os filhos da mesma mãe e do mesmo pai, cada um tem o seu tempo.
A 1ª era chucha dependente usou até entrar para a primária, o 2º até aos 4, a última sempre odiou chucha.
A 1ª nunca quis pegar no peito, o 2º mamou até aos 6 meses (e eu a pensar que já tinha estabelecido um recorde, afinal...) a última mamou até aos 2 anos ;)
Com as fraldas também deixaram todos em idades diferentes...cada um a seu tempo.

A opinião dos outros, quem está de fora, vale o que vale. Os putos são todos diferentes.

Filipa Catarino disse...

Querida Amiga, a minha experiência, que de alguma forma até conheces, leva-me a dizer-te o que a minha querida Mãe sempre me dizia (muito embora me fizesse ver quando errava ou quando achava que estava a ir pelo caminho errado), "faz o que o teu coração de Mãe e a tua intuição te dizem, e nunca deixes de lutar para que aa TUAS FILHAS se sintam crianças, jovens e mulheres adultas Amadas e Felizes"!
Todos os dias me lembro destas palavras, e todos os dias da vida das minhas filhas as tenho posto em prática. Acho que tenho sido uma Grande Mãe, sinto-me orgulhosa de juntamente com o Pai estarmos a criar dois seres humanos MA-RA-VI-LHO-SOS, que sabem ser Amadas com todas as nossas forças, mesmo quando as contrariamos e lhes dizemos que NÃO. Tento sempre mostrar-lhes os caminhos que existem mas que só elas podem escolher por qual vão caminhar. E NUNCA deixo que se esqueçam que, seja qual for o caminho, NÓS (Pai e Mãe) vamos estar lá SEMPRE, de mãos dadas com elas, seja para as ajudar a caminhar seja para as ajudar a "levantar", SEMPRE!
Espero ter-te ajudado de alguma forma. Beijinhos nesse teu coração enoooooorme <3 LU

Papoila disse...

E é isso. Tendo iniciado esta viagem faz quase 8 anos (primeira volta) fico-me já por um wave and smile a todas as opiniões e comentários dos outros. No inicio atingiu-me bastante mas consegui encontrar o nosso caminho :*

Solana disse...

Ai como te percebo Ursa!

aiaporcaria disse...

Eu sou fundamentalista e só cumpro uma lei: A minha!!!

De qualquer das maneiras a culpa é sempre da mãe.

A mãe é que educa.
A mãe é que não educa.
A mãe é que exige.
A mãe é que não exige.
A mãe não quer saber.
A mãe preocupa-se demais.



Sou mãe feliz e segura de uma adolescente com as hormonas aos pulos.

psst psst.. Oh mãmã! disse...

Ahah todos os dias passo por isso ! Da vontade de rir, e muito, dessas pessoas. Já dizia a minha velhota : só quem está dentro do convento, sabe o que lá vai dentro!

cantinho disse...

Pois!

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