quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A sinestesia do amor

Enquanto vejo a Ana a roer uma maçaroca de milho transporto as memórias da minha avó para o futuro, alimentando este presente das lembranças do que juntas vivemos. 
Constato que há uma tendência actual dos pais em querer desenvolver a cognição dos filhos. "Menina, faça isto, conte até mil, diga  olá em mandarim e programe aqui algoritmos!. Eu própria, dou por mim, muitas vezes, a cair na competição das mães, "que a minha é tão esperta", "ó Ana conta lá até vinte, diz "I love you" e mostra lá aí no tablet da avó o teu vídeo preferido".  Depois cai-me a moeda e lembro-me que o maior legado da minha infância prende-se muito mais com sensações que com conhecimentos, mais com sinestesias do que com aprendizagens. 
E é nessas alturas, que agarro na Ana, cada uma com o seu cesto tosco e pouco fashion e rumamos à feira de Cascais. É aos sábados (e também às quartas-feiras) e, se lá forem, de manhã, com certeza que nos cruzaremos. Levamos nas mãos cestos e falamos com todas as senhoras das bancas, que, invariavelmente, mimam a Ana com bolachas que guardam em tupperwares, oferecem-lhe pequenas abóboras, castanhas , cenouras e romãs que ela, a muito custo, transporta na pequena cesta, que leva numa mão, na outra segura as flores do campo que compramos, sábado após sábado.
Nesta quarta foi tudo isto, plantar memórias do cheiro dos frutos de Outono, romãs, castanhas, diospiros e abóboras, memórias do perfume das flores e dos cânticos dos pregões, das cores do mercado e do sabor das maçarocas de milho, que a Ana provou pela primeira vez.
As memórias da minha infância são feitas de sensações: o pão com planta aquecido no bico do fogão, o molho de tomate em cima do peixe cozido, a voz da minha avó  cantar o "eu vi a Amélia", o cheiro  pó da serração de pedra onde trabalhava o meu avó, as gargalhadas das vezes em que lhe roubava a boina castanha de xadrez e lhe descobria a careca. 
E sinto-me a dar continuidade a esta espécie de linha de tempo, de ligação entre o passado e o futuro, trazendo o sabor do milho do Minho da minha avó para a nossa casa, em Cascais, 30 anos depois, e alegria de quem se comove com os olhos azuis da Ana, com a expressão do espanto de quem rói, pela primeira vez, uma iguaria sem par.  


3 comentários:

Mãe Sabichona disse...

É muito engraçado estar num parque infantil e observar o que descreves. O meu filho por diversas vezes mete-se com outras crianças e há logo uma série de orientações. "Empresta a bola ao menino, atira assim, faz assado". Eu pareço sempre uma totó que anda muito pouco de volta dele e abstém-se de grandes comentários. Até eu fico cansada com aquilo, quanto mais os miúdos!

K disse...

:) acho que esse o caminho - oh p'ra mim a mandar postas de pescada quando nem filhos tenho!

ME disse...

Maçaroca assada na brasa e com manteiga a derreter por cima. TAOOOOOOOOOO BOMMMMMMMMMMM!!!!

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