segunda-feira, 10 de novembro de 2014

As crianças não são filhas das profissões dos pais

Talvez a par dos psicólogos só os educadores de infância sofram na pele os mesmos comentários parvos e estereotipados. Nesta família, para piorar o cenário, ambos os pais são psicólogos, o que faz com que as expectativas relativamente à criancinha sejam de que ela seja um tamagotchi amestrado, cronometrado, pré-programado e exemplarmente bem comportado. Não é. Graças a Deus!
"Ah, em casa de ferreiro, espeto de pau- afinal a miúda é com'os outros!" ou "Com os pais psicólogos e faz birras?" são pérolas que ouvimos, de gente que as entoa com um certo gozo de "é bem-feita porque o cão tem a mania que é espertalhão". A nossa reacção? Como é que hei-de dizer isto tecnicamente em bom psicologizês? Borrifamo-nos. E ainda gozamos com isso.
A Ana não é filha da Psicologia: é minha filha e do pai. Pessoas, seres humanos, pais de primeira viagem, com emoções e sentimentos, gente. E faz-me alguma espécie que as pessoas acreditem que por sermos psicólogos passamos a ser altamente racionais na forma como gerimos os nossos papéis familiares onde, não somos Drs., mas a filha, a neta, a prima e, neste caso, a mãe. Pessoas, independentemente da sua profissão.
Vamos lá desmistificar: eu e mámen somos pais da Ana. Pais. Não somos psicólogos dela.  
Sim, lamentamos desiludir-vos, somos uma fraude porque que não olhamos para a nossa filha como uma paciente, não a tratamos como uma utente, não temos o distanciamento emocional, a frieza e a racionalidade, o objectividade e a imparcialidade de análise que se esperam em dois psicólogos. Caraças! Que parvos que somos que deixámos a parentalidade levar um avanço relativamente à Psicologia, deixámos as emoções da maternidade e paternidade se sobreporem ao conhecimento científico da Psicologia. Pffff!
E rimo-nos, quando olham com desdém para nós, desiludidos pela nossa filha ser uma criança normal e não uma Eusébiasinha, por fazer birras, dizer não, não fazer à primeira o que lhe pedimos, ser caprichosa e querer levar a sua vontade avante, querer ver respondidas no imediato as suas necessidades, chorar quando não cedemos e tudo e tudo. Somos uns incompetentes porque a nossa filha de 2 anos se comporta como qualquer criança de 2 anos. Pffff!
 E deliramos quando notamos os olhares intrigados dos que esperavam que filha de psicólogos fosse uma autómata, sobredotada, com inteligência emocional acima da média, com a maturidade de um adulto apenas porque os pais escolheram estudar e exercer Psicologia como profissão.
Depois questionamo-nos se as pessoas acharão que os filhos dos médicos nunca ficam doentes, se os filhos dos professores são todos excelentes alunos, se os filhos dos advogados têm um inato sentido de justiça e se os filhos dos arquitectos constroem legos logo ali na maternidade. E rimo-nos mais
A Ana é nossa filha, pessoas, seres humanos e emocionais, pais. Não é filha da Psicologia.
E sabem que mais?
Ainda bem.

11 comentários:

Inês Sousa disse...

Curioso nunca me tinha passado pela cabeça que as pessoas fariam este tipo de comentários. Mas ok deve haver gente parva para tudo. Claro que os filhos de psicologos, pediatras, enfermeiros, educadores de infância não são crianças diferentes só porque os pais seguiram determinada profissão. Eu diria mais, parecia-me quase impossivel isso acontecer, porque lá está em primeiro lugar são filhos e vão ser tratados como tal. O meu marido é enfermeiro e quando o nosso miudo fica doente (ah sim fica doente) ele é o mais devastado e não tem a objetividade que tem com os seus pacientes o que parece lógico porque quem está doente é o filho não outra criança qualquer com quem ele não tem o lado afetivo inerente à paternidade.

Panda disse...

Eu estudo Psicologia, estou pouco longe do fim, e já começo a sentir na pele. Qualquer problema que haja na minha família, todos acham que eu tenho o dever de resolver. E acham que tenho respostas para tudo. O que não percebem é que a imparcialidade é uma parte muito importante de se ser Psicólogo e, com a família, isso nunca iria acontecer. É impossível.

Paracetamol disse...

Estou aqui intrigada. Sendo bióloga, o que será que vão esperar dos meus filhos quando os tiver? Macaquices?

Ana Trindade disse...

Como eu a entendo. Passei pelo mesmo com 3 filhos que têm agora 31, 28 e 27 anos. Filhos de Psicólogos, ainda hoje, ouvem comentários do género "filho de psicólogos, nunca vais precisar de ir a um". O pior para mim, ainda hoje é dizerem-me "já me está estudar, não está?" O tempo passa, mas a parvoíce continua.

Vanessa disse...

Não me digas que os filhos dos médicos e enfermeiros também se constipam como os outros?!

Prezado disse...

A miuda tem uma paciência do catano.

Fábia Suzano Pinto disse...

Na mouche!!! Sou educadora de infância e sinto diariamente na pele o olhar reprovador e os comentários quadrados de quem se esquece que da Teresa sou apenas a mãe. A Teresa também tem dois anos e ainda não desenha bonequinhos, não rabisca o nome muito menos se comporta como uma princesa. Parte a louça toda, é arrapazada manda galhetas bem assentes em que lhe atravessa no caminho e tem sérias dificuldades em partilhar brinquedos e em falar corretamente. E a mãe e o pai gostam que seja assim. Menos nas idas ao supermercado e ao restaurante em que há alturas que me fazia jeito o botão pause.

Sofia Livro Noronha disse...

A parte dos país professores é muito verdade também. O meu pai, agora reformado, era prof de EVT, e a minha mãe é prof de Ciências. Eu tinha boas notas, nomeadamente nesses disciplinas, e as pessoas diziam "claro, a mãe é prof disto, o pai daquilo, lógico que ela vai ter boas notas"
Quando segui humanidades, área em que eles não podiam ajudar, senti uma liberdade imensa. Pobres pais, no meio disto tudo,que não têm culpa daquilo que os outros dizem.

princesa disse...

Ainda bem que a mãe é ligada às letras e o pai ao números... preparem-se porque é bem capaz de sair daqui uma bela mistura, ou então só uma menina perfeitamente normal para os 2 anos de idade ;)
A semana passada também me disseram na creche: ahhh! Ela também faz birras! E eu tive de dizer que toda a gente tem direito a 5 segundos de fama!! (No que toca a birras são mesmo só 5 segundinhos cronometrados)

O Psi das coisas disse...

Tal e qual...
"Olhe o seu filho hoje esteve terrível, leva uma bola vermelha no comportamento, mas pronto você é psicóloga depois logo resolve..."
......

http://opsidascoisas.blogspot.pt/

Chris disse...

Bem, como na minha modesta opinião os psicólogos são todos uns malucos, só posso deduzir que a maluqueira seja hereditária e que a Ana seja uma...estarei correta? :D

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