segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Eu, mãe de prematura.




Soube, desde o princípio, que a história se iria repetir. A gravidez foi decretada de alto risco desde logo e o objectivo foi traçado com a obstetra: iríamos aguentar esta gravidez até onde conseguíssemos mas era, quase inevitável, que a Ana se fizesse anunciar antes da data prevista de parto. Final de Setembro de 2012. 
A gravidez foi turbulenta. Muito. E na sombra dos dias a passarem, sempre a espreitar, a ideia de que a Ana pudesse vir a ser prematura.
32 anos depois de eu nascer prematura a história repetia-se, mas com um progresso incomparável. Todas as semanas monitorizávamos a bebé, ecografias eram feitas mensalmente e a minha relação com a médica obstetra era mais do que clínica, era pessoal e, sobretudo, humana (um beijinho à Dra. Guilhermina Ladeira do Hospital de Cascais, a melhor obstetra do Mundo).
Às 34 semanas de gestação, depois de um quadro de pielonefrites de repetição, depois de uma amiga minha ter perdido o seu bebé com o mesmo tempo de gestação e em circunstâncias clínicas idênticas, naquela terça-feira de manhã a Dra. Guilhermina decidiu que seria mais prudente fazer nascer a Ana.
Injecções de fortalecimento pulmonar administradas, mala preparada, kit de recolha das células do cordão umbilical para o Banco Público preparado e data agendada: quinta-feira, 9 de Agosto de 2012.
Às 13h55, deitada naquela maca, a receber festinhas da anestesista, com o apoio da médica em quem mais confiava no Mundo, senti a minha pele abdominal ser rasgada, estava nervosa, o coração em arritmia, lembro-me que respirei fundo, olhei para a incubadora ali ao lado à espera do meu pequeno bebé, obrigado a nascer antes do tempo por incompetência do meu corpo, olhei para a equipa de neonatologistas com ar de incentivo e, em simultâneo, de profunda competência preparados para ajudar a Ana a respirar, a alimentar-se, a sobreviver ao tempo que chegou mais cedo  e respirei fundo com fé.
Gritou. A Ana gritou o seu grito de Ipiranga, reclamou a liberdade de nascer. Berrou muito, chorou e antes de a levarem no segundo a seguir, puseram-ma ainda cheia de sangue no colo, meu bebé, meu amor, minha vida, minha filha para sempre, o tempo suficiente para nos decorarmos, nos sabermos de cor.
E eu beijei-a e sussurrei-lhe "Hello, stranger!" e pensei que um dia ia-lhe explicar a magia do filme e levaram-na e enquanto que me coziam as entranhas, bainhas de amor, davam-me os parabéns pela linda bebé, acariciavam-me os cabelos e iam-me dando informações: mais de 2 quilos de peso, respirava bem, bom índice de apgar, pegou logo no leite.
A minha filha mais velha que o tempo era perfeita!
Chegou o pai e nunca fomos tão felizes os três como naquele momento, só nós naquela sala de recobro, sem mais ninguém, fechados na nossa própria redescoberta de família. E a Ana precisou de umas horinhas na incubadora porque tinha frio mas depois voltou para o meu colo e ajeitou-se, percebendo que o lar é sempre um lugar quente e que ela morará sempre em mim. 
E desde então estamos ligadas. Para sempre, como se o seu nascimento prematuro e a minha maternidade prematura tivessem conseguido acertar os relógios, viver ao mesmo compasso de horas, coabitar para sempre no mesmo fuso horário de amor.
"Parabéns, meu amor!"- disse-me o homem que me escolheu para mãe da Ana, o pai que eu escolhi para ela. 
Por isso hoje, no Dia Mundial da Prematuridade, as minhas palavras, também vão para ela, para a minha pequenina que ganhou na corrida com o tempo e fez de mim a mulher mais feliz e realizada do Mundo:

"Obrigada, Ana, minha filha, meu amor!"

4 comentários:

Timido disse...

Olá...
Pois...
Apesar de no outro dia no Facebook (quando fiz um comentário acerca do Hospital de Cascais) te ter dito que nós tinhamos um obstetra agora quando li o teu post fez-se luz...
Nós somos seguidos por um obstetra particular e por uma obstetra no Hospital de Cascais, e tinhas razão... Somos segudios pela mesma médica... :-)

Té Lima Pires disse...

Tão lindo :)
As minhas metralhas nasceram todas no tempo que deviam... a Matilde hoje com 4 anos nasceu com 40 semanas e dois dias... as gémeas hoje com 16 meses nasceram com 37 semanas... nenhuma foi à incubadora mas nas três estive assim deitada ... com a anestesista a acalmar-me... e senti-las no peito... foi qualquer coisa disso mesmo... naquele momento nascemos... e quando tive as gémeas sinto que nascei de novo... porque ser mãe gemelar... dá-nos outra força interior...
Beijinhos

Maria das Palavras disse...

Ha muito tempo que acompanho este blog (pré-Ana) e só não me tomo por pólete por achar que roça ali na categoria de bailarinas do Big Show SIC (que eram as baionetes) e não consigo desassociar as duas ideias.

Sempre que leio os posts da Ursa sobre a relação única entre filha e mãe, defendendo também em muitos que o pai não é terceira figura, é par em três, ocorre-me que não tenho resposta a esta pergunta: é o amor de mulher menos válido que o de mãe? Pergunto por causa desta situação: http://daspalavras.blogs.sapo.pt/sobre-o-amor-menos-valido-18701

E é uma coisa que me apoquenta sempre que me penso num futuro como mãe. Procuro sempre resposta em quem tem a experiência de mãe e amante, mas as palavras são muitas vezes curtas e vazias para explicar algo quase inexplicável. O que diz a ursa?

Rabiscos de Amor disse...

Não conhecia o seu blog, mas revi-me em (quase) todas as palavras deste post! Na gravidez de risco, também passei a maior parte do tempo acamada! Eu que tinha “bichos carpinteiros” tive que ficar parada, DEITADA!!! Foram 5 meses em que mal saí de casa, em que a cada consulta perguntava: “Já posso sair de casa?” (brilho nos olhos...) Dra: “Sim, para vir às consultas...”
Não fiz enxoval para o meu bebé, não que precisasse porque me deram tudo, mas aqueles miminhos, aquelas 1as roupinhas, não foram compradas por mim... Mas isso, sinceramente, nem me dá tanta pena como estou a fazer parecer!
Reconheci-me também “na incompetencia do meu corpo”, porque foi assim que me senti... quantas vezes disse na brincadeira que estava a “incubar um bebé...”
Os meses passaram, sempre vigiada, ecografias, medicação para o corpo não rejeitar o meu pequenino, mas nada fazia prever que ele quisesse vir antes do tempo... Aliás, ele não quis!
Nas últimas semanas a obstetra disse que íamos tentar que chegasse o mais longe possível e às 39 semanas tirávamos (desilusão, queria tanto parto normal!).Ele tinha pouci liquído e não ia conseguir dar a volta. Às 33 apertámos ainda mais a vigilância, às 34 começamos a fazer 2 ecografias por semana, e antes de completar as 36 as palavras “este bebé tem que nascer hoje!!”... Ao contrário de si, não o tive comigo, nasceu bem, berrou logo logo, vi-o e decorei-o, dei-lhe um beijinho, mas foi para a incubadora. Fiquei no recobro sozinha e só vi o meu menino no dia seguinte à tarde! Tudo corre bem quando acaba bem, muitas felicidades para si e para a sua Ana!

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