segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Eu, prematura.

Imagem Martisses


Nasci de quase sete meses. Mais coisa menos coisa, nos anos 80 não havia ecografias nem se falava de semanas de gestação. Quando estava grávida da Ana a minha mãe tentou fazer contas. Diz que nasci de 30 semanas, menos quatro do que veio a nascer a minha filha, também ela prematura,
O rótulo de prematura deve ser a única coisa semelhante na minha história e na da Ana. Tudo o resto foi diferente, tão diferente, provando que não há duas histórias iguais. 
Quando as águas rebentaram à minha mãe, naquele Julho de 1980, foi para o hospital da área de residência. Devido à prematuridade do parto não a aceitaram no banco de urgência e transferiram-na para a Maternidade Magalhães Coutinho, onde vim a nascer. Tinha 1 Kg e pouco, não me mediram, ou, pelo menos a minha mãe não se lembra. Para agravar a situação trazia de bónus uma malformação no tubo neural. Só desgraças. Ninguém deu os parabéns à minha mãe, no dia em que eu nasci,
A minha mãe chorava. Muito. Recebeu-me no mundo entre lágrimas e soluços, depois da parteira se ter recusado a dizer-lhe o sexo do seu bebé recém-nascido porque "nem vale a pena saberes, filha, que isto é para morrer". "Isto" era eu. 
Meteram-me numa incubadora para descargo de consciência. O prognóstico era feio. Não deixaram a minha mãe ver-me logo e quando o meu pai chegou com flores na mão, depressa deixou cair o ramo, tal o cenário de horror traçado: "Vai ter que acalmar a sua mulher que com os nervos quis levantar-se para ver o bebé, que está na incubadora noutra sala, e rebentou os pontos todos.". Mais de vinte, 
A minha mãe berrava, queria ver-me, queria tocar-me, queria cheirar-me e não deixavam. O meu pai queria a família dele, novinha em folha, e não a podia resgatar para casa. Eu na incubadora, a perder peso, à espera que os desígnios se cumprissem: "se morrer é uma benção que Deus lhe dá". 
Deram alta à minha mãe. Mandaram-na para casa de colo vazio. Tinha vinte anos, coitadinha, voltou para casa despejada da sua maternidade: "Vocês são novos, vão para casa e deixem-na aqui connosco que nós cuidamos dela até que se vá. Vocês são novos, depressa poderão ter outro filho". A minha mãe nunca parou de berrar, soluçar, chorar de dor, de raiva e de colo vazio. Secou-lhe o leite com os nervos. Não queria outro. Queria-me a mim.
Em casa pararam para pensar. Resgataram-me daquele hospital onde não me faziam a cirurgia essencial para eu sobreviver devido ao meu baixo peso, ao pronúncio que a prematuridade não me deixasse resistir a uma operação tão complexa e demorada. Assinaram o termo de responsabilidade. Pediram uma ambulância emprestada ao quartel de bombeiros onde o meu pai era voluntário e levaram-me para o Hospital Pediátrico de Coimbra, onde, após uma viagem com paragens cardíacas e reanimações várias, me receberam fraquinha e pequenina, franzina e prematura mas sempre resistente. 
Operaram-me com 15 dias de vida, ainda mais magrinha do que quando nascera, A seguir tive uma meningite. Fiquei lá por dois meses, com visitas aos fins-de-semana dos meus pais, que viviam longe e tinham que trabalhar para me sustentar. Todos os dias a minha mãe ligava para o hospital e chorava a minha distância, a minha recuperação, o seu colo vazio.
Depois desses dois meses, pode encher o seu colo, que independentemente do peso dos filhos, fica sempre cheio. Trouxe-me para casa. Tirou-me as primeiras fotografias. Pesava, aos quase três meses, o peso normal de um recém-nascido. A minha mãe só pode ser mãe de colo cheio já eu tinha nascido há quase três meses. Nunca ninguém lhe deu os parabéns pelo meu nascimento. 
O que ninguém sabe é que, desde sempre, estamos ligadas. Desde que saí das suas entranhas. Não houve hospitais, incubadora, fios, tubos, ambulâncias, auto-estradas e estradas nacionais, mamas secas, tempo ou distância que nos separasse ou o que quer que seja que tivesse beliscado a nossa relação umbilical, de pele, osmose, de entranhas. 
Por isso hoje, no Dia Mundial da Prematuridade, as minhas palavras, aquelas que lhe são devidas desde aquele dia 17 de Julho de 1980 são para ela:

"Parabéns, mãe!"

14 comentários:

K disse...

Parabéns à tua mãe e em especial para ti que desde cedo demonstraste essa tua veia de lutadora!
Grande lição de vida!
(já fiquei para aqui a chorar baba e ranho só pela tua descrição... não se faz!)

Ana Ramos disse...

Faz-me lembrar a história do meu pai. Nasceu em 1966 prematuro (e bem prematuro, 1kg e pouco mais) aqui no Algarve, onde os cuidados médicos se resumiam às parteiras e aos médicos de clínica geral. Disseram logo que não sobrevivia, que era melhor esperar que morresse. A minha avó, lutadora e cheia de amor de mãe com 20 anos (como a tua), trouxe-o para casa, naquele mês gelado de fevereiro (ao fim de 2 dias de nascido), fechou-o no quarto aquecido e tratou-o durante 6 meses como se não houvesse mais nada a fazer, nem a necessidade de trabalhar. Hoje está cá, mas ela não conseguiu ter mais filhos, embora quisesse, por medo de que tudo se repetisse de novo.

Mary QA disse...

Bolas... parabéns mesmo!
Parabéns, mãe da Ursa!

Sandra Silva disse...

Polo, ler-te é andar numa verdadeira montanha russa de emoção. Ora se ri, ora se fica com nó na garganta e não conseguimos dizer mais nada. Parabéns à tua mãe e a ti, que também lutaste com muita garra para cá estar com a tua Ana, agora. :)

mjmelo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria das Palavras disse...

Parabéns. À mãe, à filha e à pequena Ana por vir dessa linhagem de mulheres bravas.

SL disse...

parabéns à tua mãe, que grande mulher

Realmente, és uma lutadora desde o momento zero...

Ovelhinha Colorida disse...

PARABÉNS, mãe da Pólo Norte!!!!! :)Parabéns porque foi mãe e é só por isso já os merece e PARABÉNS porque lutou por uma filha! E parabéns, Pólo Norte, por seres uma lutadora desde o momento 0!

Dos momentos que mais me emociona ao recordar o meu parto é o olhar e sorriso do anestesista (que ficou sempre ali a dar-me a mão, médico de um lado, pai do outro), o único que via para o outro lado do lençol e dizer-nos, finalmente, (porque a moça nem por cesariana queria sair): parabéns! (ainda antes de ouvir o choro e a alegria do outro lado). A mãe merece sempre os parabéns e os "isso" merecem o maior dos carinhos, nem que seja por minutos ou segundos, como infelizmente, acontece a muitos!

Maria Carpideira disse...

Duas coisas.
Tu é mesmo ruim do contra e devo dizer com algum desanimo que bem pior que eu que me esforço tanto para mostrar que consigo sempre principalmente quando me dizem que não dá (e ainda bem porque o mundo não seria a mesma coisa sem Dona Ursa)
Espero nunca ficar a saber o que a tua mãe sentiu, deve ser devastador e não acho nada bem que não lhe tenham dado os parabéns, provávelmente merece ainda mais os parabéns que as outras mães de "casos normais" e bébés perfeitinhos por isso parabéns sô Dona Mãe Ursa.

Mundos Mudos disse...

Que bonita é a tua história e a da tua mãe. Fiquei enternecida.

Débora Nóbrega disse...

Ja aqui estou de lagrima do olho.
Parabéns as duas pela perseverança, pelo amor e partilha de uma vida dão boa.
Xi💗

Joana disse...

Alguém como tu só podia ter uma mãe assim! Beijinhos

Papoila disse...

Que texto tão lindo. Parabéns às duas :*

rosa do deserto disse...

Bolas, fico sempre comovida com estes textos. Tinha-o aberto num separador do computador, desde que foi escrito, porque queria lê-lo com muita atenção. E, claro, como calculava foi arrepiante, emocionante e deixou-me a reflectir.

Tu e a tua mãe são umas grandes mulheres!

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