segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Havia um vídeo muito jeitoso mas não o consigo exportar para aqui...

... da Mariana a ser levada por dois garbosos mancebos da sua cadeira manual para a eléctrica.
Também há imagens gravadas da maravilhosa tuna masculina na recepção mais divertida de todos os tempos e de mim a filmar, esquecendo-me que a minha voz também está a ser gravada, a dizer qualquer coisa como "o que adoro ver homens aos pinchos e aos saltos, todos escancarados, à minha frente!" e depois a outra tuna, com miúdas muita giras de saia de traje travadinha, e o Paulo a dizer "mas então e estas mocinhas não saltam?".
Há imagens da Inês da SATA a discursar, de uma forma tão doce e tão simples, e não há imagens nossas a discursar porque eu rompi as collants de propósito para ter uma desculpa para não ter que ir lá para a frente dizer qualquer coisa (no fundo, bem lá no fundo, sou tímida) e o Paulo assumiu que foi lá para ver a Mariana receber a cadeira e não para ser visto.
Há imagens da Antónia e da Andreia, a Antónia fez um discurso tão bonito e há imagens de um mocinho muito bem apessoado a cascar na universidade dos Açores que se borrifou para o evento que os alunos organizaram e não se fez representar por ninguém, mas isso agora não interessa nada.
Há imagens da Mariana a discursar num vídeo muito jeitoso que eu não consigo exportar, já depois de sentada na nova cadeira eléctrica, de a ter conduzido até ao meio do palco e eu queria fazer um post com vídeo mas ficam as palavras, afinal este blog faz-se de palavras, não de imagens.
E a Mariana falou assim:
"Boa tarde a todos/as aqui presentes,
  Antes de mais, para quem não sabe, chamo-me Mariana Candeias venho da Ilha Terceira e sou aluna do 1º ano do Curso de Comunicação Social e Cultura. Encontramo-nos aqui hoje porque eu tenho uma paralisia, sou deficiente (como muita gente prefere dizer), nasci prematura – mais concretamente de 6 meses e 2 dias – e quando fui transportada para esta ilha onde agora resido (já passado 12 horas do parto) fiquei com lesões cerebrais que me causam falta de equilíbrio, espasticidade nos membros superiores etc. e, por essa razão, há 22 que necessito de uma cadeira de rodas para me deslocar com mais facilidade e, mal cá cheguei a cadeira elétrica que eu tinha ganhou vontade própria e “decidiu” avariar. 
  Digo-vos antecipadamente: não quero transformar este texto em algo triste porque essa não é, de todo, a minha forma de ser e estar perante a vida e as situações – tanto não o é que cheguei até aqui sem desistir. Este pretende apenas resumir parte da minha “caminhada”/rodagem até aqui.   
 Pretendo agradecer a presença de todos, agradecer à SATA por ter patrocinado o transporte da cadeira e a viagem de duas das várias pessoas que tornaram tudo isto possível. São elas/eles: a Andreia Medeiros que enviou um email à Blogger Sónia Morais Santos, a Antónia Sousa que se juntou a este objectivo de conseguir uma cadeira para mim desde o primeiro momento, o Sr. Paulo – quando um dia acordar mais desiludida com a vida é de si que me vou lembrar, é do gesto de oferecer uma cadeira a alguém que nem conhecia que nunca me irei esquecer. A Pólo Norte porque se não fosse a sua partilha da minha história também nada disto seria possível.
O envio do email para a Sónia foi uma surpresa para mim e, surpresa ainda maior foi o desfecho desta história. Conseguir-se uma cadeira electrica no espaço de horas é algo surpreendente.
  É verdade que quando cá cheguei em Setembro nem tudo foi fácil, as universidades no geral não estão preparadas para receber pessoas deslocadas das suas ilhas com algum tipo de limitação, tal como é difícil para mim adaptar-me a uma realidade nova o mesmo acontece com quem nunca lidou com situações desde género. Por esse motivo, agradeço o esforço feito por todos, na minha adaptação quer a nível das necessidades básicas do dia-a-dia, quer a nível académico. Espero que no futuro muitas mais pessoas possam passar pela experiência que eu estou a passar e que tudo seja mais fácil ainda para elas. Tudo isto é uma aprendizagem mútua.
 Nesse sentido, obrigada à reitoria, aos serviços de acção social, aos funcionários, professores, colegas de residência e alunos da universidade dos Açores. Obrigada especialmente à Dra. Ana Gouveia e à Dra. Conceição Bicudo, com quem tenho convivido mais de perto e têm sido incansáveis. Obrigada às sagradas da cantina, por tudo. Obrigada PRINCIPALMENTE aos meus colegas de turma que, enquanto a minha motorizada não chegava me empurraram sem nunca se queixar por ruas bem ingremes, me fizeram subir até 3ºs andares e fizeram de tudo por mim! Agora ganhei mais independência, penso, já não vos irei causar tantas dores nas costas (como causei a alguns) mas prezo a vossa amizade e companheirismo e por isso estarei aqui, não para vos pegar ao colo (e apenas porque não o consigo fazer) mas para tudo o resto que necessitarem! Há coisas que nem uma cadeira de rodas toda xpto supera e a amizade é uma delas. Agora em vez de andarem atrás de mim, poderão andar ao meu lado.
Por último, mas não menos importante, obrigada à TAUA e aos Tunideos – além de grandes tunas tenho lá pessoa de quem gosto muito, que sempre me apoiaram e é com muito orgulho que vos oiço aqui hoje -, obrigada aos meus colegas de praxe, pela solidariedade, companheirismo, integração, alegria, diversão, união, memórias e família que são. Obrigada a toda a comissão por serem o orgulho de padrinhos e madrinhas que são para mim. Obrigada por me terem escolhido para fazer parte da vossa família. Madrinha Susete, foste a primeira a apadrinhar-me e contínuas desde esse dia sempre do meu lado…obrigada. …
São todos vós a minha grande família de coração. Sem vocês, não permaneceria aqui, longe de casa, da família, com todas as dificuldades que isso acarreta para alguém com limitações. É por isso que, este é um texto de agradecimento a quem fez com que eu ganhasse uma cadeira electrica nova mas, também um agradecimento a quem permaneceu comigo até ela não chegar a mim. A cadeira electrica é uma grande aliada para quem não tem os seu equilíbrio, mas até agora vocês têm sido o meu equilíbrio. Prezo a minha independência mas, ganhei muitos amigos…nada paga isto. Obrigada.
E todos estes obrigadas não chegam…não são suficientes mas, são de coração".
Havia um vídeo muito jeitoso com isto tudo que vos conto mas, feitas as contas, ainda bem que não o consigo exportar.
Tenho medo que me ouvissem a fungar.

5 comentários:

CoriscaRuim disse...

Aiiiiiiiiiiiii...Inserir um suspiro bem profundo aqui, ó faz favor...

Explica ao Paulo que as outras meninas, as de saia travadinha, têm saias próprias para pular, capazes de deixarem qualquer um de olhos em bico. Um dia, eu hei-de te contar como a TAUA foi a melhor tuna do mundo e arredores :p

A MAriana é fantástica, não é? :)

Purpurina disse...

É quando vejo as pessoas a juntarem-se para estas coisas que sinto um pouco de esperança na natureza humana. Isto é, de facto, grande. :)
Obrigada Ursa, inspiras-me um pedaço.

SL disse...

há palavras que valem mais que imagens!!! sois grandes!! :)

Gasper disse...

Damn you!!!
Fiquei toda arrepiada.

Té Lima Pires disse...

Calinda a Mariana... e calindos são vosseses!! Dixit beijos

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