quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mário Soares e a prisão preventiva

"Não houve um único jornalista que fosse capaz de dizer simplesmente, “Dr. Mário Soares, o senhor está esgotado. Deixe-me acompanhá-lo ao carro.” E acabasse com aquele espetáculo lamentável.

1. Tal como José Manuel Fernandes, também estou a quebrar uma promessa que tinha feito: não escrever sobre Mário Soares. Mas vi hoje ao fim do dia as imagens da visita que fez a Sócrates e fiquei impressionado. O que me impressionou não foram as suas declarações – nada surpreendentes, de resto. Fiquei espantado com as imagens. Vi um senhor de idade, cansado e confuso a ser assaltado pelos jornalistas. Como foi possível que aquilo acontecesse? Não há alguém que proteja, que preserve Mário Soares? Tem todo o direito em visitar Sócrates, mas não podem permitir que se exponha daquela maneira. Mais do que uma vez, julguei que pudesse ter um ataque em direto na televisão. E não houve um único jornalista que fosse capaz de dizer simplesmente, “Dr. Mário Soares, o senhor está esgotado. Deixe-me acompanhá-lo ao carro.” E acabasse com aquele espetáculo lamentável. As imagens de Évora são mais impressionantes do que a prisão de Sócrates no aeroporto.
Quanto às declarações de Soares, será que alguém esperava alguma coisa diferente? Tal como disse Helena Matos em relação a Sócrates, a culpa é nossa. Portugal permitiu que Mário Soares se julgasse imune a todo o tipo de declarações. Desde que saiu de Belém, tem dito e feito o que quer, e a reação generalizada – sobretudo dos seus apoiantes – tem sido, “é o Dr. Mário Soares…”. Discordam na maioria das vezes, mas nada fazem para contrariar. Esta atitude diz muito sobre a nossa cultura política. 40 anos depois do 25 de Abril, continuamos a ser um país com dois pesos e duas medidas, onde quem tem poder se julga, e é tratado como se estivesse acima dos critérios de julgamento – políticos, éticos e, pelos vistos, legais – que se aplicam ao comum dos mortais. Os suspeitos do caso dos “Vistos Dourados” foram presos na semana passada. Alguém se indignou na altura com as imagens na televisão, ou com as horas de interrogatório (ou de espera), ou com as prisões preventivas? Ninguém. Pelo contrário, quase todos elogiaram a justiça. Uma semana depois, muitos dos que estiveram ao lado das autoridades judiciais, passaram a atacar a justiça. É triste e preocupante, mas muitos portugueses continuam a subordinar-se ao poder e aos poderosos. Mesmo quando são eles as maiores vítimas de quem abusou do poder.   

5 comentários:

Filipa Catarino disse...

Mas eu também acho legítimo ficar "abismada" com semelhantes declarações! E com quem o deixa ir ali expor-se daquela forma. Posso?! E o facto de ser o "regime que criámos" não quer dizer que não nos possamos revoltar, ou seja, mudar de opinião!!! O regime pode ter sido criado por nós, mas já NÃO o queremos mais, podemos?
Eu, independentemente de ser uma pessoa idosa, já estou FARTA das "oportunidades de estar calado" que o Mário Soares tem tido nos últimos 30 anos, já não o aguento!

Timtim Tim disse...

Concordo na íntegra com a crónica!

Na Província disse...

Se algum jornalista o fizesse o homem teria mesmo um ataque!

sushi disse...

O Mário Soares está demente....não sei como é que alguém ainda liga ao que sai daquela boca!

Cláudia disse...

Não concordo com praticamente nada do que diz esta crónica. Muito menos com essa Helena Soares que alegadamente é jornalista. Digamos que tenho problemas com jornalistas que todas as semanas, sistematicamente, atacam o mesmo partido político. aquele que, por acaso, é o meu. Relativamente ao Dr. Mario Soares, haja respeito. As declarações foram péssimas, é verdade mas respeitem o que este homem fez pelo nosso país.

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