sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Morreu um homem à minha beira

Entro no comboio. Vou sempre para a carruagem da frente. Gosto da sensação de ser a primeira a chegar ao destino, a primeira a rasgar os torniquetes, a primeira a sair da estação, a primeira a deixar os cheiro a comboio e pessoas para trás.
Na primeira carruagem sento-me, invariavelmente, ao pé da janela. Observo que as pessoas, conforme vão chegando, ocupam sempre, em primeiro lugar, os lugares vagos à janela. Vão-se sentando sozinhas, encostadas à janela até todos os pares de bancos estarem ocupados por uma pessoa. Só depois quem chega, e constata que todos os lugares à janela estão ocupados, se conforma com os lugares de acompanhante. As pessoas não gostam de se sentar aos pares. Preferem estar sozinhas à janela, olhando para a rua e ignorando a ocupação da carruagem, as histórias de vida que transporta, os pensamentos que se cruzam.
Olho pela janela, decoro casas, ruas, areais, praias e paisagens. Fecho os olhos e tento registar tudo na memória para que, se um dia, perder a capacidade de ver o belo, o meu inconsciente possa resgatar as lembranças recalcadas destas viagens à volta da minha terra.
Tenho histórias em cada estação, há episódios de vida vividos em cada uma das 17 terras: Cascais, Monte Estoril, Estoril, São João, São Pedro, Parede, Carcavelos, Oeiras, Santo Amaro, Paço de Arcos, Caxias, Cruz Quebrada, Algés, Belém, Alcântara, Santos e Cais do Sodré.
O comboio pára na estação.  Vislumbro as pessoas a quererem entrar na carruagem, tentando atropelar as pessoas que querem sair dela, ninguém respeita regras básicas de convivência. Fica um senhor para trás, os olhos dele cruzam-se um nano-segundo com os meus. Corre, a grande velocidade na plataforma, a querer vencer o momento em que o comboio tranca as portas e arranca. Deixo de o ver. Sinto uma travagem profunda, demorada, mais demorada do que a morte, veloz e imediata. Um assobio em forma de apito. Demorado.
O revisor a correr entre as carruagens até chegar à primeira, onde estou e onde está o homem que empurrou a morte contra o outro homem, o que ficou para trás e de repente se pôs à frente.
As portas trancadas. O revisor e o maquinista fechados na pequena cabine a que ninguém tem acesso. O aviso sonoro, da voz gravada e mecanizada, pede-nos que não forcemos as saídas e que nos mantenhamos dentro do comboio. A necessidade, repentina, das pessoas, até ali em silêncio e a evitarem contacto, em comunicarem. O sururu. Na minah memória os olhos do homem a cruzarem com os homens. “Acidente com peão” volta à carga a voz gravada.
O homem do olhar fixo, dos pés velozes, o homem que ficou para trás e, de repente, se pôs à frente da morte é agora um peão. Como se fosse uma peça de um jogo de tabuleiro, metáfora da vida.
Morreu um homem à minha beira. E há quem force a saída e queira ver o frenesim lá de fora. Não me mexo. Não quero conversa de circunstância.  Nem ouvir as reclamações de quem vai chegar tarde ao trabalho por causa do acidente do homem que escolheu tourear a vida, essa puta. Enjoa-me a total falta de empatia pela vida, pelo homem que passou a ser apenas a razão pela qual toda a gente puxou dos telemóveis para justificar o esperado atraso. Para mim não é uma justificação de atraso, é o homem que me olhou nos olhos um nano-segundo, filho de alguém, amigo de alguém, pessoa de alguém ? Não quero sair nem ficar. Quero voltar atrás uns minutos, e poder abrir a porta para o deixar entrar, mesmo que tenha que ouvir quem quer sair a reclamar da falta de civismo. Quero fitá-lo com mais força, com os olhos a pedir que não se mexa e não corra para a frente do comboio.

Estamos parados durante muito tempo. Tanto tempo que perco noção. E chego, passadas muitas voltas dos ponteiros dos relógios, ao Cais do Sodré. Na minha memória agora gravado, para sempre, o olhar do homem que morreu à minha beira, peão da vida, na sua estação terminal. 

15 comentários:

Filipinha disse...

é triste a falta de civismo muitas vezes nas horas de ponta! as pessoas vivem assoberbadas com o pouco que tem!

Cláudia M disse...

Meu deus, fiquei chocada com este relato... pelo que lhe aconteceu ao senhor e pela indiferença... realmente não somos nada... só peões da vida...

cantinho disse...

Sem palavras para um post tão sensível quanto este.
:(

marianósky disse...

abracinho pólo.

AL disse...

Estudei 5 anos em Belém.
Não sei quantas histórias de segundas e sextas-feiras "vivi" de suicídios em Paço de Arcos.
Terra dormitório onde tanta gente decidiu desistir, ou por ser segunda e não querer voltar "à vida" ou por ser sexta e não quererem voltar "a casa".

Há mais de 18 anos que acabei o curso, e o ritmo de relatos de suicídios abrandou bastante. Mas, persistiram os "acidentes", felizmente nunca olhei ninguém nos olhos, já basta a imagem que a tua descrição me trouxe, de apitos, frenesim, de andar um bocadinho para trás para que o comboio solte os corpos...

Cristina Oliveira disse...

Q horror... Tudo muda num nano-segundo.

Neuza Martins disse...

E todos podemos ser o Ser Humano a quem a estação de saída pode ser também a estação terminal. :/ e ainda hoje, estive no cais de sodre. Coisa (muito) rara. O que me faz ainda pensar mais no Homem. O Homem que como todos os outros que la estavam, ia apenas e só à sua vida! Ursa, um beijinho

Panda disse...

Minha nossa. Raio do efeito borboleta... Chorei a ler isto, porra, as pessoas não cessam em me surpreender.

Ticha disse...

É daquelas situações que ficamos sem saber o que dizer :(

conteudovazio disse...

depois deste relato só me ocorre dizer...

PORRA!

Rosa Cueca disse...

Para mim, o desrespeito das pessoas que tratam a vida humana como corriqueira, não lhe dando o destaque merecido e apenas se preocupando se chegam a horas ao trabalho, é mesquinho.

Mas tudo isto também me faz perguntar: qual é a relevância deste post?
Mostrar que existem humanos sensíveis por oposição a humanos insensíveis?

Aquilo que leio é um post que, à falta de melhor expressão, é de puxar a lágrima, sobre algo que é a vida humana de outra pessoa.

O silêncio às vezes é uma forma de homenagem, de nos reduzirmos ao nosso papel de meros espectadores.

(e sim, infelizmente também já assisti a um suicídio, por isso sei exactamente a reacção que provoca)

Pólo Norte disse...

Rosa,

A relevância é a que lhe quiseres dar.

A intenção é a mesma em todos os posts deste blog: escrevo livremente sobre o que me apoquenta, entusiasma, indigna, preocupa ou me diverte.

Este é um blog pessoal, não é um orgão de comunicação social, como tal, escrevo sobre o que me dá vontade e o que suscita emoções.

E, perante este episódio, apeteceu-me escrever. E fi-lo.

O resto são só opiniões. A tua interpretação em oposição à minha.

Beijinhos

Rosa Cueca disse...

É um assunto que mexe comigo e, obviamente, cada um escreverá sobre o que quiser, de acordo com a sua opinião - que neste caso, de base, é semelhante: assusta a indiferença humana.
O que difere é mais a forma, que o conteúdo.
Podemos optar em tudo na vida por uma visão pessoal e subjectiva das coisas, ou não.

Pólo Norte disse...

We agree to disagree! ;)

Rita Cacheira disse...

Eu passei por isso, tal e qual como escreveu...senti tudo isso. Pela primeira vez senti que alguém sentiu o mesmo que eu.
Estava na estação de Oeiras à espera do comboio para Cascais como fazia todos os dias e também eu gosto de ficar no inicio do comboio...mas nesse dia decidi ficar no final. Já estava atrasa. O comboio chegava às 8h17...ele desceu para a linha calmamente como se fosse apanhar um objecto do chão, passou para uma zona segura e quando o comboio chegou ele deitou-se na linha. Foi um movimento simples e vazio. Antes disso, ele olhou me nos olhos..a mim a todos..como se dissesse "a culpa é todos vocês!"
Eu apanhava aquele comboio todos os dias com aquela pessoa..eu e muitas mais pessoas...e nunca ninguém percebeu que ele estava infeliz? que precisava de ajuda? somos todos egoístas e somos todos sozinhos...

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