quarta-feira, 19 de novembro de 2014

"O que é que ainda aí estás a fazer?"- perguntou-me o meu pai*

E o meu pai talvez me tenha perguntado isto porque, infelizmente, sabe muito pouco de mim. O "aí" dele referia-se a Portugal e a pergunta vinha no desenvolvimento de uma conversa acerca de carreiras promissoras no estrangeiro, o quanto ela acha que eu me estou a desperdiçar por "aqui" e o Mundo de oportunidades que conhece em todo o lado, nomeadamente, no país para onde ele próprio emigrou há uns bons anos. O meu pai diz-se um cidadão do Mundo: já viveu em Inglaterra, na Nova Zelândia, em Nova Iorque e, agora, mudou-se de armas e bagagens para São Paulo. E acha que este país não me merece, que eu tenho tanto, imenso potencial, que sou boa demais para aqui viver. "Estares aí é dar pérolas a porcos"- diz-me.
O meu pai sabe muito da vida profissional, de trabalho, de negócios, de oportunidades mas sabe pouco de amor, talvez- só assim justifico- por isso insista em perguntar-me via chat "O que é que ainda aí estás a fazer?"
Acho que nunca deve ter lido aquela crónica do Miguel Esteves Cardoso onde a sua mãe lhe incita que olhe para o ar de felicidade dos turistas assim que chegam nos autocarros vindos do aeroporto e descem no Estoril, respirando o ar com maresia, semi-cerrando os olhos desabituados que estão do sol e lhe relembra que ele vive no sítio maravilhoso para onde muita gente poupa um ano inteiro para poder passar férias. Sinto o mesmo.
A conversa com o meu pai continua. Falo-lhe do amor. Ele confunde-se, é matéria da qual ele sabe pouco, este homem sem raízes, sem gente que ama, sem passado. Pergunta-me se o que me prende é a minha mãe e fala-me do skype e de viagens em companhias low-cost, relembra-me que os meus avós já morreram e que nada me prende, efectivamente, a Portugal, sublinha que mámen tem uma especialidade altamente empregável e termina com o argumento de que a Ana é pequenina e portátil, ainda não está em idade escolar, e que depressa se adaptaria à vida em qualquer outro lado "melhor".
Eu gosto da minha vida no meu país. Não aspiro aos parâmetros de qualidade de vida que levaram muitos dos meus melhores amigos a emigrarem. Não os coloco numa hierarquia em que sinta que o que tenho em Portugal é altamente lesivo. Em que me sinta em posição desfavorecida. Para dizer a verdade sinto, precisamente, o contrário.
Aqui tenho tudo o que preciso para ser feliz: a minha mãe à distância de 2 minutos de casa se precisar de um colo para chorar, a Marginal todos os dias quando regresso do trabalho, o mar como companheiro, o cozido à portuguesa aos domingos na casa da minha tia, a luz de um céu irrepetível (não se trata de calor, é a luz e eu sou uma pessoa muito dada a "foto-depressões"), o crescimento da minha prima, quase adulta, os rituais de sempre nos sítios que sempre me pertenceram, o pastel de nata de manhã no café do Sr. Augusto, os bolos de aniversário da Alves e Alves e os fins de semana de manhã a ir buscar bolos à Sacolinha, quinzenalmente aos domingos o mercado, os gelados do Santini enquanto desço a Rua Direita, um concerto do J. P. Simões à mão de semear, o passeio entre o Guincho e o Cabo da Roca em tardes de telha, o parar para comprar fruta da época não normalizada em vendedores ambulantes na berma da estrada e o pão com chouriço no caminho para a Ericeira.
O meu pai não percebe. "Com o dinheiro que ganharias fora daí, podias ter uma vida muito melhor: uma casa maior, um melhor carro, não tinhas que te preocupar a contar dinheiro e a fazer escolhas para comprares o que te apetece. A miúda tinha apoios estatais na área da saúde, educação, poderias ter acesso a muitas outras coisas, uma vida melhor."
Talvez peque por, aos olhos do meu pai, ser poucochinha e pouco exigente no que peço da vida. Claro que se passasse necessidades, se a minha qualidade mínima de vida estivesse comprometida, seria obrigada a partir. O que o meu pai não percebe é que eu não procure uma vida "melhor", desconhecendo ele que não aspiro a nada que me pudesse fazer tão mais feliz que compensasse a minha mudança de altitude e latitude.
"Não preciso de ter acesso a mais nada: sou eu que vivo no sítio para o qual tu poupas para vir passar férias. Tu desejas um travesseiro da Piriquita o ano todo, eu não salivo de cada vez que penso em algo que comi numa qualquer viagem que tenha feito. Posso ter memórias boas delas mas não salivo por um cupcake do Magnólia, onde está a minha amiga Eileen, nem sinto saudades que me façam o coração apertado por voltar a Vianden, perto do sítio onde mora a minha amiga Xana. Porque eu não tenho o coração biforcado entre o sítio onde pertenço e o sítio que escolhi. Porque eu escolho permanecer aqui, no sítio onde pertenço."- remato.
Imagino-o a ruminar "não tem acesso a uma data de facilidades, a uma data de coisas..."
O único acesso a que eu faço questão de ter direito é aquele pedonal que liga o bar do Guincho à praia, pés na areia no Verão, manta sobre os ombros no Inverno, beijos na fronte dados pelo homem que escolhi,  olhos no céu estrelado para ensinar a minha filha a magia de se pedir desejos às estrelas.
Ele continua a achar-me "conformada" como se isso fosse uma coisa má. "Sedentária" e revira os olhos- sei-o bem. Não percebe que não é uma questão de conformismo mas de escolha. Calha eu conseguir, sem esforço, ser feliz no sítio onde pertenço, reitero.
"O que é que ainda cá estou a fazer, pai?" Estou a ser feliz com o muito que tu achas pouco.
Não sou nómada, nasci para ficar.



(*repost a pedido de uma leitora do blog)

15 comentários:

Susana S' disse...

Ah, caraças, que saudades do meu Portugal!
Tenho 21 anos e vim para fora por vontade própria. Gosto do sitio onde estou e vejo-me a viver aqui com facilidade. Mas nada se compara à minha casa, à minha cidade, à minha ria, aos meus moliceiros e aos meus ovos moles. E à minha família.

Bunyssa* disse...

Revejo-me tanto neste post. Estão constantemente a perguntar-me porque não vou para fora. E ninguém entende que o que me faz ficar é muito mais forte é importante do que a ideia de ir...
Eu também nasci para ficar :) é aqui que tenho quem mais amo e seria tremendamente infeliz longe deles

Sandra Silva disse...

WOW! Como tu consegues por em palavras tanto sentimento/emoção! Por vezes eu própria me pergunto, porque me deixo estar neste país que me "trata tão mal" com emprego precário, com poucas esperanças no futuro. Depois leio isto e penso, é isto mesmo. É o meu país que é maravilhoso tem tudo para eu ser feliz, se fosse lá para fora era tão, mas tão infeliz que prefiro tão pouco cá que muito lá.

K disse...

Eu sou das que adora passear, conhecer este mundo e o outro. Mas, acima de tudo, gosto de regressar, depois de ter passeado, a este cantinho - e há tantas coisas que referes que são, também, as minhas. Por isso, sim. Entendo perfeitamente o que dizes. E assino em baixo. O dinheiro não é tudo.

Rita Rodrigues disse...

Eu sai há 6 anos (já??), com uma filha de 16 meses no colo e outro de 7 na barriga, pressionada por muitos que diziam constantemente "que isto aqui não dá nem para criar um quanto mais dois!"... E eu fui, iludida, a achar que se calhar com mais dinheiro no fim do mês seria efectivamente mais feliz.
Voltei passados 6 meses... Para mim não deu... De facto tinha mais dinheiro no banco, não posso negar e, isto pode parecer estupido, o meu filho nasceu e a familia viu-o por skype, ninguem lhe deu as boas vindas... Eatavamos sozinhos, nós 4...
Foi um click... Eu/nós eramos efectivamente felizes na nossa terra, com a nossa gente... Voltamos sem hesitar! Menos dinheiro no banco é certo, mas muito muito mais felizes!

Alexx M. disse...

Ai, Ursa!! Tiraste-me as palavras da alma e do coração. Ainda não vi muito do mundo, hei-de fazê-lo se puder. Mas eu quero ver o mundo, não viver nele. Um dia ouvi que a viagem perfeita é como um círculo: a alegria da partida e a delícia do regresso. E para mim, a delícia está mesmo em regressar a este retângulo à beira mar plantado. A esta luz da minha Lisboa, a esta cidade que é a do meu coração. As minhas amigas passam a vida a falar em ir para fora. Eu sou a única que quero ficar. Sou feliz aqui. Porquê trocar a minha felicidade por mais meia dúzia de tostões? Porquê abdicar do meu Tejo para ter um carro melhor? Porquê abdicar da proximidade à família e amigos para poder ter uma casa grande, mas que não se encheria das minhas pessoas como a minha casa pequena se enche? Enfim... não vale a pena continuar porque tu disseste tudo! Tudo!
Obrigada :)

Alexx M. disse...

Gostei tanto que roubei :)
http://27andcountingstars.blogspot.pt/2014/11/porque-e-que-ainda-estas-ai.html

Pirata disse...

Antigamente era preciso coragem para ir para fora, hoje em dia é preciso coragem tanto para ir para fora e deixar tudo para trás, como ficar e lutar por viver neste nosso país pequenino.

http://thepirateandi.blogspot.pt/

T. disse...

Como me revejo neste post. Desde que comecei a trabalhar, à cerca de 3 anos, que divido os meus dias entre dois países diferentes, sendo que daqui a uns meses, passarão a ser 3. Entre tantas viagens e tantos dias fora, é sempre que chego a Portugal que se consolidam as certezas - o meu lugar é aqui. Os outros, esses dizem-me constantemente que sou nova, e que agora é que é hora de trabalhar lá fora, que mais tarde posso voltar. Excitam-se com oportunidades no estrangeiro, que de vez em quando lá me são apresentadas, dizendo-me "é só mais um ano". Oportunidades essas, que na minha cabeça, apenas servem para me afastar, ainda que temporariamente, do lugar onde quero ser feliz, junto dos meus. E por isso, cito-a, ainda que de forma ligeiramente adaptada - Vou sendo nómada, mas nasci para ficar (e ficarei, mais tarde ou mais cedo).

Solana disse...

temos os mesmos rituais...

Pequena disse...

<3
Senti que me estava a ler! :)

marina maia disse...

Eu sou exactamente assim e trabalho num call center mas não arredo pé de cá!!!!
Não percebo porque não te seguia...uma vez que adoro vir cá...

Maria Braga disse...

Compreendo o seu ponto de vista mas essas rotinas que a fazem feliz também as encontraria noutros locais, seriam diferentes mas não vejo razão para não a fazerem feliz. Assim como acho que se deve respeitar a vontade daqueles que partem, como eu por exemplo, não só por razões financeiras, mas sobretudo por curiosidade de ver a que há "por aí". Acho que todos os que partem um dia têm vontade de regressar, mas nunca mais vão pertencer a nenhum dos lados. Também não vejo muito mal nisso, acho que também sou uma cidadã do mundo ;) Beijinhos e continue a ser feliz!

Maria Pinto disse...

Eu não sei o dia de amanhã, se terei de o fazer por necessidade. Mas a minha maior necessidade é o amor dos meus, e ter o meu mano longe com o meu sobrinho já é tirar-me um pouco do coração todos os dias, fazê-lo com tudo mais... os meus pais, a minha terra, os meus amigos, o meu rio Douro... é algo que não me preenche. E eu quero uma vida preenchida, mesmo que vazia aos olhos de outros.

Cláudia disse...

Este texto é teu mas espelha bem o que vai no meu coração! Adorei.

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