sábado, 1 de novembro de 2014

Pão por Deus

O pai treinou-a ontem a cantar a ladainha: "Pããooo por Deeeeeus!". Hoje tirei da gaveta o taleigo costurado pela avó, enfiei lá dentro um porta-moedas, expliquei-lhe que iríamos juntos pedir doces e moedinhas. Voltámos a treinar a ladainha.
Quis ir ao colo, ainda meio tímida nesta novidade.
Não havia muitos meninos na rua. Na mercearia do João Aires entoou o seu primeiro "Pãooo poDeeeus". A Alice disse que ia já buscar-lhe uns chocolatinhos mas ela, já sem qualquer vergonha, anuiu que queria uma moedinha. Todos se riram. No taleigo os chocolates e na mão a moeda, que segurava com a força de um tesouro que temos medo de perder.
Passámos pela vizinha da frente que se desculpou dizendo, de forma pouco convicta, que nem se lembrava que era dia de todos os santos e nem perdeu tempo em olhar para a Ana, que a fitava com aqueles olhos azuis. Fechou-nos a porta.
No café Safari, estava o tio à porta. O tio está desempregado e doente e emocionou-se ao ver a Ana pedir pão por Deus. Entrou no café meio desorientado a dizer que não tinha ali dinheiro para lhe dar um doce. A Lena, atrás do balcão, logo resolveu, enchendo o saco da Ana de rebuçados, chupas e um chupa especial da Minnie que acrescentou "Este é o pão por Deus do tio N.". Sei que o meu tio nunca o chegará a pagar. Saiu, até à esplanada, de lágrimas nos olhos. "Porque choras?" "Se calhar não a vejo pedir mais nenhum pão por Deus". E eu chorei.
Ela esqueceu-se das moedas e estava histérica com o chupa da Minnie. "Obigada, tio". E ele estava nervoso e pediu um cigarro a mámen. E eu ofereci-lhe um maço, um pão por Deus invertido e perverso, causa principal da doença que talvez o fará não ver muitos mais pão por Deus da Ana, única fonte de prazer, num misto de culpa e de amor.
Havia poucos miúdos na rua. A minha vizinha comentou comigo que não percebia como estava a morrer o Pão por Deus, este ano nem havia a desculpa do feriado que hoje até é sábado e, logo a seguir de ter dado moedas à Ana, sacou do telemóvel para me mostrar as fotografias do neto vestido de vampiro e da neta de abóbora
E voltámos para casa. Mámen com o taleigo com doces na mão, Ana a contemplar o chupa da Minnie e eu com um nó na garganta.
A Ana ainda trauteia a ladainha.

9 comentários:

República da Bicharada Clínica Veterinária disse...

Não conheço essa tradição. Mas, ao ler o relato, até eu fiquei com um nó na garganta...

anamargarida disse...

Na aldeia onde moro ainda se veêm crianças a pedir o pão por deus, mas é impossível não ficar triste ao ver o facebook inundado de fotografias do halloween

========= disse...

Em cada local onde fui educadora existe uma ladainha diferente... na minha terra: Pão por Deus... de Leiria para cima:Tia dá Bolinho,,,,

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Tenho lágrimas nos olhos... E saudades do meu Pão por Deus Transmontano... Também eu falo das nossas tradições no meu cantinho, mas eram..., bem..., um bocadinho diferentes...

Carolina Mendonça disse...

Também não congeciaao pão por Deus. Mas lembro-me de ir cantar as janeiras e os reis. Será que isso ainda se faz? Não estamos em Portugal, estamos em Amsterdão onde se festeja, pelo que sei, o Hallowen... Mas eu cá hei-de ensinar o meu Sebastião a cantar os "santos reis santos croados..." e de baixo da nossa árvore de natal há-de estar um sapatinho...

Pirata disse...

Quando era mais garota, lembro-me dos míudos mais velhos irem ao meu prédio pedir Pão por Deus. Nunca mais vi nínguém a fazẽ-lo. Agora todos os anos à sempre um grupinho que me bate à porta mas para brincar ao Doce ou Travessura.

Maria disse...

Os meus também foram, com mais uns amigos, pedir o pão por Deus.

Magda Guimarães disse...

É uma tradição dos arredores de Lisboa, quando era pequena iamos todos de porta em porta e acabavamos a manhã de saco cheio; o taleigo já é um termo alentejano, eu não conhecia esse termo em miúda.

T disse...

Na minha terrinha ainda tivemos mais de 60 crianças a pedir Pão por Deus :) Soube tão bem!

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