quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Post escrito com uma mão

A Ana está doente. Diz que é uma virose, não sei bem. Está doente do corpo e eu estou doente da alma ao vê-la assim. Não tenho feitio para estas agruras da maternidade. Sofro muito. E sinto-me ridícula porque, afinal, é só uma virose. E penso na minha mãe, que me teve com 20 anos e que teve que aguentar uma infância cheia de doenças a sério, de internamentos e cirurgias, de anestesias e exames dolorosos, não me lembro de mim, pequenina assim, lembro-me da minha mãe sempre sorridente ao meu lado, sempre corajosa, sabe Deus, sei-o agora que também sou mãe.
A Ana está doente. Doi-lhe a barriga e eu quero engolir esta dor em mim. Dar a minha barriga e o corpo todo em troca para a dor morar em mim, fazer o lugar da minha bebé crescida. E dou-lhe colo e faço-lhe chá de ervas e massagens abdominais. E ligo para a pediatra que acha que a miúda está para morrer porque eu nunca ligo mas a Ana nunca está doente, caraças, é a primeira vez que está desde que comunica bem. "Dói-me a barriga, mãe!"- e um esgar de dor. E eu fico com o coração feito passa de uva, muito enrugadinho, a odiar a dor e a virose anunciada pela pediatra e puta que pariu as bactérias e os micróbios.
E dou-lhe mais colo. E ponho-lho o saquinho de sementes da Bé na região abdominal e ela diz "Que bom, que quentinho!" e adormece agarrada a mim. E deitamo-nos os três e nós dormimos baixinho, devagarinho, semi-dormimos. E ela acorda com dores e vomita tudo. E eu estou cansada e morta de vontade de dormir mas ponho-me em pé num segundo e mais desperta que um alho e levo-a à casa de banho e lavo-a e lavo-me e abro o sofá da sala e deitamo-nos lá todos.
A Ana está doente. Acorda mais bem disposta. Mas não tem fome. Faço-lhe mais chá. Faço-lhe "corradas". Faço-lhe festinhas. "Não, obigada!". Corta-me o coração. Ponho canja ao lume. Não sei se é suposto ela comer miúdos ou não. Vejo o Aladino. Uma vez, duas vezes, três, quatro e cinco. Suspiro. Ela alterna entre o meu colo e o do pai. Está sossegadinha, o meu passarinho de asa ferida. Vejo o canal Panda. Vejo a minha vida a andar para trás que ela continua sem fome. Bebe chá. Liga-me a minha mãe. Ela come três colheres de canja. Odeio viroses, já disse? Encosta-se a mim no sofá, recosta-se e encaixa-se no meu colo, a minha bebé grande, adormece com a cabeça encaixada na curva entre o maxilar e o meu pescoço.
Está a dormir neste momento. Serena e descansada. Como se no meu colo estivesse em casa.
A Ana morará sempre em mim.

2 comentários:

Carina disse...

Bem sei o que sentes... o meu João Maria está um caco devido a uma virose + dentes a nascer + efeito de vacinas! Tudo isto somado é igual a uma carrada de medicamentos passados pelo pediatra para ver se a criança não adere à moda da pneumonia atipica que agora anda muito em voga!!! FDX para as doenças e quem as inventou! Só queria ser eu a passar o que ele está a passar! O meu canochinho lindo é um herói porque apesar de tudo e com um aninho, nem sequer se sabe queixar e só sabe chamar a "Maaaaaa" e o "Paaaaaaa" e vamos os dois em auxilio da nossa coisa mais deliciosa, tentando minimizar o desconforto que o raio dos biros estão a causar no meu gordinho! As melhoras da Ana! <3

Nina Mota disse...

Um sentimento que as mãe tem, "Dar a minha barriga e o corpo todo em troca para a dor morar em mim"
Muitas vezes tenho o mesmo pensamento, as melhores a pequena!! Esse maldito vírus também avassalou os meu Pequerruchos, uma boa dose de paciência, muita compota de fruta (que foi a única coisa que queriam e aguentavam no estômago) e muito amor e carrinho :)

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