domingo, 2 de novembro de 2014

Querido José António Saraiva...

E começa a sua argumentação com um tratado literário-burguês sobre escritores e livros e um refinado gosto literário deixado como herança pelo seu distinto pai.
Eu tenho sempre uma certa inveja de quem tem solares, poltronas e bibliotecas cheias de livros no seu passado genealógico. E até de quem teve avós que “ficavam a bordar, a costurar, a fazer cestos…” enquanto ouviam ler em voz alta.
A minha avó materna nasceu no Minho. Por ser a filha mais nova conseguiu a proeza de frequentar parte da primeira classe na escola lá da aldeia, melhor sorte que as irmãs, Maria, Carminda e Isaura, todas analfabetas. Orgulhava-se muito a minha avó de ter aprendido a ler em menos de um ano, de saber escrever rudimentarmente e de poder assinar quando, a revolução, lhe trouxe o direito a que a sua assinatura fosse precisa e tivesse valor. Lembro-me da letra tosca naquele seu "Ana" assinado sempre, para o que quer que fosse, com orgulho desmedido.
A minha avó era filha do Sr. Domingos e da D. Emília, lavradores, e na sua casa não havia poltronas nem tão pouco sequer um único livro. Não era preciso porque havia muitas coisas que eram precisas ser feitas desde tenra idade: ir para a lavoura, fazer toda a lida da casa, acartar fardos de palha para os animais, ordenhá-los, ir até ao mercado vender cestaria e o que resultava da lavoura e cuidar do pai. Não havia sapatos nos pés e andavam sempre descalças, a minha avó e as irmãs. A minha avó ficava com lágrimas nos olhos de cada vez que se lembrava do seu primeiro par de sapatos.
Não havia empregadas no passado da minha avó, nem poesia ou prosa ou capacidade de questionamento sobre o que era a felicidade. A vida era dura.
O tempo passou e a minha avó casou. Dizia que a sua maior sorte era ter arranjado um marido decente que nunca se lembrara de lhe levantar a mão. A minha avó nunca queimou soutiens nem usou pasta de executivo mas assim que pode cortou o cabelo curto, livrando-se do carrapito secular, porque tinha o direito a ter o cabelo como lhe apetecia. E assim era mais prático e dava-lhe mais jeito.
A minha avó nunca teve um emprego, mas teve muitos trabalhos, desde os 7 anos, altura em que a obrigaram a  interromper o percurso escolar, para ajudar na lavoura, que a comida tinha que se pôr na mesa, depois em fábricas do Norte do país onde mãos pequeninas eram muito apreciadas para trabalhos mais minuciosos e mais tarde- muito embora o meu avô tivesse sido criado com a ideia de que o sustento da casa deveria ser providenciado pelo homem (e tivesse sacrificado toda a sua saúde a trabalhar 40 anos numa serração de pedra) e lhe tivesse pedido que ficasse a ser dona de casa- já com os filhos maiores, tivesse sido ama de mais de duas dezenas de crianças, auferindo um pequeno rendimento que lhe dava para os botões e para ter a cabeça erguida reclamando o seu direito de contribuir para as contas da casa.
A minha avó deu escola aos filhos e às filhas- que chegaram mais longe nos estudos que os rapazes- afirmando sempre junto destas que "o importante era nunca depender de nenhum homem".
Já mais velha, livre de estigmas, começou a vestir calças porque eram mais quentes, porque davam mais jeito para segurar as fraldas que resultaram de um AVC, porque lhe apetecia.
A minha mãe cresceu nesta família. Não teve solares, nem prosa nem poesia na sua vida nem tão pouco empregadas. Nunca andou descalça, frequentou escola, casou com o homem que lhe aprouve e trabalhou a vida toda. Fuma, vai ao café, conduz, diz palavrões, pinta o cabelo e usa calças.
Saiu de casa para trabalhar, deixou a casa vazia o dia inteiro para me providenciar sustento, deixou-me ficar em creches, escolas, chegou a casa estafada dia após dias, às vezes não tinha paciência e divorciou-se.
Soube preocupar-se com o trabalho na proporção de que é necessário, dar o apoio mais que necessário à família (não só a mim como a ambos os meus avós durante as suas velhices), conversa com colegas homens e mulheres sem nunca se ter metido na cama com nenhum, tem um namorado há quinze anos e escolheu não partilhar casa com ele e estão, ambos, muito satisfeitos com esta opção. Só me teve a mim mas não seria pior mãe se tivesse escolhido viver mais experiências de maternidade com os parceiros com quem isso lhe tivesse feito sentido.
Divorciou-se e criou-me sozinha, porque a vida lhe permitiu ter recursos para não depender de nenhum homem para sobreviver, garantindo que isto nunca beliscasse a minha estabilidade emocional e que não fosse bode expiatório para que eu me apetecesse fazer disparates ou consumir drogas.
As fadas não regressarão ao nosso lar mas o nosso lar não precisa de fadas porque a minha mãe não foi criada com histórias de encantar que metem fadas-madrinhas. A nossa família não entrou em crise de nada, muito menos de valores, porque os valores com que fomos criados foram os da dignidade, da liberdade, da independência e da autoestima.
Somos mais felizes agora apesar de todas as escolhas que fizemos e que nos permitem chegar a casa esfalfadas ao fim do dia. Sabe porquê, Dótor? Porque temos a voz, a mão firme, o sentido crítico e o poder da escolha. Até da escolha de querermos ficar em casa a tomar conta dos filhos, se for isso que nos parecer bem. 
Por aqui não há nostalgia mas, por aqui, também não houve um passado genealógico com solares, poltronas, bibliotecas nem serões com poesia e prosa.
"Vocês agora é que têm uma boa vida!"- dizia-me a minha avó, sem ponta de ironia há uns anos atrás. "A vida agora está é para as mulheres" e sorria com esta vitória da sociedade para a qual ela também tinha contribuído, com menos de um ano na primária, com voz firme para dizer o que pensa, direito de voto exercido ano após ano, sapatos nos pés, calças vestidas, cabelo curto e o orgulho desmedido na sua assinatura sempre com uma letra tosca, mas afirmando a identidade que o progresso, o tempo e a história lhe tinham trazido: "Ana".
O passado para as mulheres não volta? Ainda bem.

[E sim, somos mais felizes.]

14 comentários:

Filipa Catarino disse...

Não tenho nada a acrescentar! Apenas que há determinados comentários, vindos de determinadas pessoas, que me dão cada vez mais a certeza que as "oportunidades de estar calado"
devem ser levadas mais a sério.
Gosto de ti, porra!

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Mais uma vez a lacrimejar...(as saudades que eu tenho da minha avó). Conheço essa história, só mudam uns pormenores de nada. E acho que milhares de mulheres dirão o mesmo, porque solares, poltronas e bibliotecas... Bem... foram para poucas.
E sim, somos muito mais felizes.

Prezado disse...

Comento depois de ler só a primeira linha. Mas tu ainda ligas ao José António Saraiva? esse mentecapto?

kika disse...

Muito bom mesmo,Pólo <3

Lili C. disse...

Gostei muito de ler. Esta é a genealogia de muitas nós.

A Bomboca Mais Gostosa disse...

Adorei o texto e aplaudo de pé. A infância e vida que a tua avó teve, é quase uma cópia da história da minha avó, com a diferença que ela, infelizmente, nunca teve oportunidade para sequer aprender a ler e a assinar, e trabalhou a vida toda numa casa de gente dessa, como esse senhor José António Saraiva, pois ela sempre fora criada interna onde a esposa do patrão sim, ficava em casa, mas onde não tinha de levantar um dedo, pois havia sempre criadinhas como a minha avó. Resolvi então ler o artigo do "senhor" e claro que não podia esperar algo de diferente quando o mesmo refere o verbo "ajudar" por parte dos homens. Acho que não há mais nada a dizer.

CalmaMuitaCalma disse...

Adorei!

André disse...

De pé e com ovação. Tive o desprazer de ter lido, com relutância, o texto do José António Saraiva, putativo génio a quem a Academia «ainda» não outorgou o Nobel de Literatura, após diversos comentários nas redes sociais, twitter e facebook. Li apenas porque não resisti à curiosidade de ler aquilo que tanta gente estava a comentar, mesmo depois de há muito tempo ter prometido a mim mesmo que não voltaria a cair na esparrela. Cada segundo perdido com esse senhor é um segundo verdadeiramente perdido.

Filomena Silva disse...

Depois de ler mais um fantástico texto teu, tive de ir ler o artigo do tal senhor apesar de ter percebido que ia ficar enjoada.
Cada vez gosto mais de ti.

méli disse...

Muito bem dito!!!!
É preciso não saber NADA sobre a História da Humanidade para se considerar que o trabalho das mulheres fora de casa é uma novidade do mundo contemporâneo...

Nisa Oliveira disse...

Revejo tanto da minha avó nessa história que contas, com a diferença de nunca ter tido a oportunidade de aprender a ler e a escrever. Excelente texto.

Melancia disse...

É isso tudo e pouco mais. os anos e as lutas feministas deram a maior das liberdades à mulher: PODER ESCOLHER!

Miú Segunda disse...

Belíssimo texto.

ultima janela disse...

Eu continuo sem perceber como é que a fossa séptica do Saraiva continua a ter tempo de antena.
Parabéns pelo texto: revejo-me em muita coisa, e subscrevo.

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