segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A LER | Viagem ao fim do coração




À Rita "Silvina"




Querida Rita,

Tenho muita pena que não nos tenhamos conhecido. Quer dizer, eu lia-te, tinha aquela sensação de quem lê e acompanha blogs, que quase se conhece as pessoas que os escrevem e eu lia-te, caramba, tinha aquela sensação de que quase te conheci mas faltou-nos o cheiro, o toque, o olhar e, essencialmente, tempo. Iria acabar por acontecer, sei bem, a distância física, a Malveira, Birre, a baía e a tua mãe que, viemos a descobrir, afinal foi colega de mámen iriam tratar de servir de pretexto, desculpa ou só justificação para que nos viessemos a conhecer. Foi o tempo- o teu tempo- que não o permitiu. 
Engraçado como tu também acabaste por ler este blog, sei-o de fontes seguras, e mais certeza tenho que se o cabrão do tempo tivesse sido mais generoso havíamos acabar por nos conhecer. Não aconteceu.

Em Abril conheci a Marina

"Polo,


O meu namorado tem um estúdio de tatuagens (www.bloodoathtattoos.com) e queriamos propôr uma sessão de tattoos no Todos por Um para reverter tudo para o Rodrigo.
Será possível ainda?



Caso não seja possível fisicamente no evento, fazêmo-lo no estúdio.
Sei que não é propriamente uma coisa que se coaduna com dar sangue e/ou medula mas é a única coisa que me ocorre fazer que tenha mais impacto do que a doação pessoal que já fizemos.



Perdi a minha irmã este domingo. Partiu, vítima da puta do cancro. Quando teve 'a alta', arrendámos-lhe uma casa em frente ao seu mar, ao nosso mar, e tentámos com que tivesse os melhores dos dias.
Teve o privilégio de ter equipas médicas que tentaram tudo, mas tudo (foi tratada sempre em Paris)... mas era um cancro raro e não houve hipótese de viver mais. Eu quero ajudar o Rodrigo a ter o melhor dos melhores, e também quero muito que viva.



Da tua conterrânea,


Beijinho,
Marina"



Foi assim, que em Abril conheci a Marina. Tinhas acabado de morrer e eu estava longe de saber que a Rita era a Silvina que eu lia, O blog estava parado há um mês, estaria a Silvina pior? Teria morrido? Preferia afastar os pensamentos que me levavam hipótese do teu fim. Era estranho preocuparmo-nos com quem nem sequer conhecíamos. Depois soube do Rodrigo e inventámos o "Todos por Um" Estava muita gente no evento a favor do Rodrigo e troquei-lhe o nome à tua irmã umas mil vezes, Gostei logo dela (e eu não gosto logo da maioria das pessoas, sou uma nojentinha...). Acabámos o evento e ela e o Sérgo angariaram 445 euros a favor da causa a venderem... tatuagens? Não é brutal? Não ficas cheio de orgulho deles? Eu fiquei, caraças. 
O Rodrigo morreu. O cancro é uma besta. E tirou-te o tempo e eu nunca te cheguei a conhecer. 
Até esta noite. Sábado a Marina juntou-se ao Bairro do Amor (nem podia ser de outra forma, ela não podia mesmo ficar de fora...) e levou-me o livro num envelope almofadado. 
Comecei a lê-lo ontem à noite e acabei de o ler de madrugada, Todo de seguida, sem interrupções para ir à casa de banho, beber água ou quase respirar fundo. Li-o de uma assentada só, com a pressa de quem sabe que o tempo é um cabrão: foi-o connosco, Rita. 
E depois cheguei à última página e agradeci, em pensamento, à Marina, à Luísa e à Ana Casaca por te terem trazido, ainda que apenas sob a forma das letras- primeira coisa que nos uniu- até mim. 

Sinto-te, sim, Rita. (A partir de agora) todos os dias.

Como se nunca nos tivéssemos desconhecido. 

Um beijo, 

Liliana

2 comentários:

Sandra disse...

Fuck parece que nunca mais acaba. Esta merda nunca mais tem fim. Tantas invenções de Merda e ninguém descobre uma cura para todos os cancros. Só dinheiro de Merda investido em merda e ninguém nos salva desta peste negra e silenciosa. Quando vira? A quem calhara? Foram-se pah assim torna-se muito difícil acreditar em Deus. Aquelas crianças gémeas têm a culpa de que??? Que merda é que elas e a mãe delas terá feito de tão grave que agora tenham de levar este pagamento??? Não é nem justo, nem lógico nem nada. Se um dia Deus te levar meu filhote eu mato-me porque não quero viver uma vida em que não existes depois de diariamente sentir o verdadeiro amor.
Tanta gente para morrer...

scorpiowoman disse...

Um murro num estômago, um reavivar de memórias que se querem guardar lá longe (mas não esquecer pelo que ensinaram), um novo testemunho de como é inevitável e veloz a passagem do tempo.
Obrigada pela partilha, Pólo.

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