quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Da falta de palavras

Na sala de espera da radioterapia. Descemos no elevador para o piso -5 como se para matar o cabrão do cancro tivéssemos que descer ao Inferno, à cave das caves da clínica, como se fosse importante estarmos ali em baixo, longe do céu, perto do sítio onde queremos enterrar a puta da doença, sem o meu tio junto com ela. 
Animado mas sem nunca falar da palavra "cancro". Usou mil metáforas: "a doença", "isto", "coisa má". Nunca se disse "cancro" que se evocar a palavra desse mil anos de azar, espelho partido na alma.
O meu tio tem uma parte do corpo doente. Com células cancerígenas. E eu quero acreditar que o meu tio não está com cancro mas, antes, que tem cancro, como quem tem uma constipação e em breve vai deixar de a ter. 
Na sala de espera mais gente à espera da sessão de rádio. Em comum o silêncio ensurdecedor como se as palavras cutucassem o medo, espicaçassem as lágrimas. 
O meu tio entra acompanhado da técnica de radioterapia e eu espero-o em silêncio. Não se houve uma palavra na sala de espera do serviço de radioterapia como se a espera tivesse que ser feita em silêncio porque, no fim de contas, no reiniciar das contas, as palavras valem muito, muito pouco perante as vontades indomáveis da vida, do destino, da fé, do karma. Da esperança e da desesperança. 
E, com a crença de que voltarão acompanhas de suspiros de alívio e sorrisos, dispenso-as também. 
Não foi um dia bom. 

8 comentários:

UBM disse...

Não sei onde foste mas relato-te a experiência com o meu avô (que tinha cancro e agora está bem)
Uma sala de espera ampla, cheia de luz e arte nas paredes. Pessoas sorridentes, conversas, (quase) todos tratados pelo nome próprio. Abraços, sorrisos, olhares cúmplices (sabemos todos porque estamos ali, sabemos todos que alguém não está bem, reconhecemo-nos na cumplicidade do olhar esperançoso). Servem-se bolachas, chás, várias vezes ao dia. Os voluntários trazem aquele ar sereno, a maioria dos quais já ali esteve, naquela sala de espera, como doente. Agora sorriem, mostram as vitórias, dão exemplos de coragem.
Nunca pensei dizer isto, mas até gostei de ir ao IPO com o meu avô, a esperança foi renovada a cada dia... até à cura!

A Bomboca Mais Gostosa disse...

Um grande abraço para ti e as melhoras para o teu tio. Vai correr bem. Fé.

Solana disse...

Um beijinho grande.

cantinho disse...

Um abraço.

scorpiowoman disse...

Contagiaste-me com o teu mutismo de palavras feito.
Um abraço enorme e apertado. Com tudo e sem mais do que o precisares.

KANOKA disse...

Sei como é,acompanhei o meu pai ao mesmo lugar em sta. Maria. O edifício é novo e acolhedor mas o ruído do Silêncio é igual...foi duro, muito duro....o meu pai não teve sorte...sim, porque eu acho que no cancro, há os que têm sorte e os que não........Beijo!

Carol disse...

Cancro... Esse maldito bicho que nos corrói o corpo e a alma... Já perdi uma tia. A minha 2ª mãe. Depois, a sua filha mais velha. Tenho mais duas primas com cancro, outro tio e vivo com a espada de o poder vir a ter um dia, pois já retirei tumores benignos da tiroide.
Odeio essa palavra. Odeio essa doença. Mas, ao longo destes anos, aprendi que é um bicho que temos de encarar de frente, olhos nos olhos, sem medo de dizer o seu nome porque a nossa força de vontade pode muito mais do que ele.
Nada do que te possa dizer te vai sentir melhor. Nada do que possa dizer vai expulsar o cancro do corpo do teu tio.
A lição que retirei da minha doença é que a vida é para ser vivda a cada dia, sem espaço para rancores ou ódios, falta de diálogos ou o eterno adiar daquilo que queremos. Foi essa lição que, volvidos 3 meses sobre a morte do meu pai,me permite dizer que estou bem apesar da sua partida, porque lhe perdoei tudo o que tinha para perdoar, porque lhe pedi perdão por aquilo que devia pedir, porque o fiz sentir, em cada dia da sua doença (Alzheimer e Parkinson - outros bichos estranhos e terríveis, o quanto o amava.
Força, muita força, fé e vivam cada dia como se fosse o único. Beijo grande.

margarida disse...

Tem fé que tudo vai correr bem. Um abraço

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