domingo, 14 de dezembro de 2014

Les villes sont mortes. Vive les villes.

Eu fico muito nervosa quando passo em Cascais. fecham-se lojas de comércio tradicional, as lojas que eram uma manta de patchwork desta vila, contavam nas montras as histórias, o tempo e o crescimento dos últimos anos, o crescimento que também as matou. 
De Cascais da minha infância resta pouca. A Ana nunca saberá que no lugar da igreja universal do reine de Deus foi um dia o Oxford, onde fui ao cinema sozinha pela primeira vez. Havia também os cimenas São José e o cinema do Pão de Açúcar, que agora se chama Auschan. Não há, neste momento, nenhum cinema na vila. Só nos shoppings, todos iguais, todos homogeneizados com letterings e estratégias de marketing, pipocas em copos de design, gomas que passam nos crivos do HACCP e afins. Não há cinemas na vila e a Ana nunca saberá o bom que é sair do cinema com as amigas e ir a pé até à praia da Rainha, a minha preferida em Cascais, fazer a análise crítica do filme. 
Fecham lojas em Cascais, todos os dias. A baixa está uma lástima, com montras vazias com autocolantes de mediadoras imobiliárias e eu fico triste. A Rua Direita foi tomada por lojas indianas, marroquinas e chinesas, a venderem recuerdos portugueses fabricados na Tailândia, galos de Barcelos em tons de pastel e imagens da nossa senhora de Fátima com luzes de discoteca.
Fechou o Oxford, fechou a pastelaria Cisne e a Lua-de-Mel, a Cenoura do canto do Visconde da Luz já morreu há que séculos e  o Tchipepa anunciou que ia fechar no Verão passado. 
E eu que vou ao mercado todos os sábados de manhã, que frequentava a Lua de Mel, que prefiro os croissants do Gianni a todos no Mundo fico triste porque estão a esvaziar as vilas, a plastificarem as fachadas dos prédios, normalizando as terras, exterminando o patchwork da diversidade do comércio tradicional, criando terras bonitas e com as ISOs todas para quem ver de fora dizer que são bonitas, sim senhora, para ganharmos reconhecimento nas revistas de turismo lá de fora, que se os estrangeiros dizem que isto é bom é porque deve ser mesmo, estamos no bom caminho. 
Construam-se menos hotéis para quem vem e revitalizem-se as vilas e as cidades para quem permanece. Devolvam-se as terras a quem as pertence. A quem a elas pertence. 

(a propósito disto)



1 comentário:

Ana disse...

Querida Pólo...

alegremmo-nos, a Tchipepa está na Visconde da Luz!!
https://pt-pt.facebook.com/pages/Gelataria-Tchipepa/212869175398624

Ana

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