domingo, 28 de dezembro de 2014

Natal

Desde há três anos que acordo mais triste. Desde há seis que morreu o meu Natal. Quando morrem as nossas raízes amputam-nos a alma e, também, ritos e rituais partilhados, costumes e tradições. O Natal não é só o Natal: é uma manta de retalhos de memórias de espaços, de tempos, de cores de cabelo nas cabeças das pessoas que amamos, de presentes in (inesquecíveis ou inúteis)- o escorrega dos pinguins, o pai Natal que andava e abanava o sino, o traga-bolas e o Gatinhas-, de sabores daqui e dali, que as mesas tornam-se únicas, adn culinário singular, aqui Minho e Açores; um patchwork de recordações de árvores que se cortavam na serra com um serrote (e as botas de borracha do meu avô), luzes e fitas que se descabelavam no fim das festas, bolas antigas e presépios com musgo verdadeiro, depois pinheiros artificiais, com luzes incorporadas e presépios minimalistaas da Area; o meu avô a cortar pão duro com as mãos para ajudar a a minha avó na cozinha a fazer mexidos, o cheiro a frutos secos e a canela, eu em cima de um banco a ajudá-la a embrulhar de açúcar os doces, a reconhecermos formas nas filhóses como se fossem nuvens curiosas, o pai Natal que morreu no ano em que os meus pais se separaram, o Natal que teve que renascer das cinzas depois daquele ano, os olhos da minha mãe, o cigarro na ponta dos dedos, o bacalhau com couves, a peru que todos os anos o Sr. Gil oferecia ao meu avô em sinal de gratidão da sua amizade, a aletria e os meus tios à volta da mesa, às vezes sem sabermos se íamos estar todos mas, no fim de contas, estávamos, chegavam um a um, a minha avó suspirava e vedava-nos o acesso à cozinha, "todos para a mesa".
O relógio que se espreguiçava e nunca mais era hora de abrir as prendas, a minha prima que nascera, depois ela a crescer e o Natal ficou mais feliz, porque ela fazia parte do plural que passara a ser eu, cantigas para espectadores entusiasmados- e o meu avô a mandar calar toda a gente porque todos tinham que estar atentos a ouvir-nos desafinar!- a minha mãe a distribuir as prendas, sempre a minha mãe, com bandoletes estrambólicas com motivos natalícios, experimentar roupas que se tinham acabado de desembrulhar, pôr pilhas nos brinquedos que se queriam experimentar, rimo-nos com quem lhe tinha calhado em sorte a fava do bolo-rei e querermos acertar na fatia com o brinde, só porque sim, uma espécie de superstição. 
Beijinhos antes de dormir, o cheiro a livros acabados de receber, lençóis quentes e coração aconchegado.
Desde há três anos que acordo mais triste. Desde há seis que morreu o meu Natal. Quando morrem as nossas raízes amputam-nos a alma e, também, ritos e rituais partilhados, costumes e tradições. Mas há dois que a Ana nasceu e há na Ana o olhar da minha avó, os dentes espaçados do meu avô, o nariz abatatado e o dedo torto da minha mãe, a voz desafinada da minha prima a cantar canções de Natal adulteradas, a coquetice da minha tia, os lábios do meu tio, a mesma alegria a rasgar sem maneiras os embrulhos, a minha infância ali também, viva e ressuscitada neste corpo pequenino,
E decidimos que ninguém se fantasia de pai Natal, e a minha tia e a minha mãe vão com ela colocar no alpendre um prato com leite e bolinhos para ele, e o meu tio sai pela porta das traseiras e toca um sino e corremos com ela ao colo, para chegarmos mais rápido e quando abrimos a porta estão lá os presentes, a minha mãe aponta para o céu e diz-lhe "Diz adeus ao Pai Natal, Ana" e ela acena entusiasticamente e eu pergunto-lhe "viste o Pai Natal no céu, filha?" e ela responde-me que sim e que era lindo e gordo. 
Neste Natal ensinámos a Ana a acreditar no que não se vê mas que se deseja, a ver o invisível. Da mesma forma que eu acredito que os meus avós e o meu passado estiveram sempre ali.
Porque o Natal, no fim das contas, é sempre mas sempre fé. 

Festas felizes a todos.


9 comentários:

Panda disse...

Que lindo texto, Pólo, lindo. Cheguei ao fim a chorar.

Rita Santos disse...

Obrigada....Muito obrigada.

disse...

"viste o Pai Natal no céu, filha?" e ela responde-me que sim e que era lindo e gordo." - Tão bom! A magia do Natal!
Continuação de Boas Festas
Beijinho

Carla Pereira disse...

Ai os textos com os avós...... :(

Miska disse...

Adorei o texto, adoro o Natal e nestes últimos anos sou eu que faço de pai Natal para a criançada!

http://agorasoumaminka.blogs.sapo.pt/e-a-magia-de-natal-aconteceu-30993

Diana Machado disse...

muito muito bonito!

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Top.

méli disse...

farto-me de chorar a ler-te... bem-hajas! Feliz 2015 para a Ursa, para a família da Ursa e para os vossos maravilhosos projectos*

Sandra disse...

Ainda na passada semana o meu irmão contava á namorada que acreditou no Pai Natal até ao 5º ano. Ele viveu comigo e com a mãe e nós sempre lhe incutimos o espírito e a magia.

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