sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O dia em que deixei de acreditar no Pai Natal





Foi no Natal de 1988, lembro-me bem. Os meninos da escola já não acreditavam no Pai Natal e eu achava que eles eram todos tolos. O Pai Natal aparecia-me todos os anos, a seguir ao jantar de bacalhau cozido, batatas e couves, assim que a aletria e os mexidos assentavam nos nossos estômagos, Era uma coincidência brutal: o meu pai saia para comprar cigarros, acabavam-se sempre aquela hora e desencontrava-se sempre com o velho de barbas, que tinha umas feições familiares mas a cara da minha imaginação. E trazia-me prendas, e tocava o sino no quintal da minha avó, logo assim que entrava o portão) será que se tinha cruzado com o meu pai que saira minutos antes?) e dava-me um beijinho, um abraço e deixava-me prendas. Vinha sempre com pressa, tinha montes de outros miúdos para visitar, mas nunca falhava. 
Passados outros minutos regressava o meu pai, sempre desapontado pela infeliz coincidência de nunca se cruzar com o velho de barbas, sempre ansioso para ouvir os meus relatos entusiasmados da maciez da barba, da fofice da barriga que parecia mesmo uma almofada, da alegria de ver com os olhos que ele existia mesmo e que isso me deixava numa posição privilegiada face aos meninos da escola, que duvidavam da sua existência. Eram parvos! 
Os meus pais separaram-se e nunca ninguém me disse, oficialmente, que o Pai Natal não existia. Ele deixou de aparecer, naquele Natal de 1988, mas não doeu muito, não doeu tanto como a ausência do meu pai, do seu ritual de ir comprar cigarros a seguir ao jantar, da falta que me fez não ter ninguém que ouvisse o relato a viva voz do meu sonho de Natal, tão real e feliz. Resignei-me. No silêncio do primeiro Natal triste da minha vida, resignei-me.
E fiquei orfã de dois pais vivos: o meu e o Natal. E depois disso fiquei parva e realista, como todos os outros meninos. Sem a magia da ingenuidade e da força de acreditar. 
Mataram-me, pela primeira e incontornável vez, o verdadeiro espírito do Natal. 

7 comentários:

Carol disse...

Vou responder no meu blogue: Coisas by Dress Kode (http://coisasbydresskode.blogspot.pt/).

Green disse...

Não imagino o que é perder um pai, muito menos, em tenra idade...

estrelinha disse...

Estas palavras podiam ter sido escritas por mim. Também eu já fiquei órfã de pai vivo e órfã de espírito de Natal.
Caramba, agora puseste-me a voltar no tempo...

cantinho disse...

Excelente!

KANOKA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
KANOKA disse...

Pois eu, fui toda a vida , orfã de mãe viva....alguém merecia? Sei lá, se calhar merecia, está visto! E a vivermos na mesma casa.......Alguém teve uma experiência igual à minha? Se calhar não, pois é! As mães são sempre TODAS muito boazinhas........

Rita disse...

Caramba, como me puseste a chorar!!! Eu nunca acreditei pq no meio da minha família de pai, tio e avó apenas, eu sempre fui o "pai natal" e isso era a risota para todos! Mesmo no meio de tanta coisa, sempre rimos... Não acreditamos no Natal e muito menos no Pai Natal, mas acreditamos no amor q há na nossa família e q nos une, todos os anos! E hoje poderás passar esse amor à tua ursinha! Beijos de Aveiro

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