quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Pessoas que eu admiro: a Mafalda



“Sou mais de gratidão do que de gritaria, confesso. Mas também, sou daquelas que acredita que os nossos “obrigadas” devem ser cada vez mais gritados, para que façam eco na vida dos outros; principalmente na vida dos que preferem gritar queixas, por tudo e por nada!
Deve ser por isso que nunca vi o dia 3 de Dezembro como um grito contra a discriminação da pessoa com deficiência. Nem passo o ano à espera deste dia – será porque não recebo presentes? Bem vistas as coisas, eu sou “uma pessoa com deficiência” desde 1983 e a ONU só criou esta efeméride a 14 de Outubro de 1992. No entanto, tenho a capacidade de agradecer a sua existência; nem que seja pelo objectivo de, assinalando este dia internacionalmente, todos os países passarem a comemorar a data, gerando consciencialização, compromisso e acções que transformem a situação dos deficientes no mundo.
Não ser uma defensora acérrima da celebração deste Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, também não me torna necessariamente alguém do contra. Ou seja, aquilo que eu defendo é que a linha que separa os “coitadinhos” dos “heróis”, que normalmente vem agarrada à palavra deficiente, deve existir (e subsistir) na agenda mediática, para lá deste dia. Se o Natal é quando um homem quiser – e, por isso pode ser todos os dias- então é bom que as pessoas não se esqueçam que ser alguém com deficiência não é uma opção: existe 365 dias por ano. Portanto, que se façam conferências sobre a temática, descerrem placas em inaugurações de obras com melhores condições de acessibilidade, ofereçam tempo de antena nos media a quem precisa de se fazer ouvir (e de alguma forma se sente “aprisionado” na sua condição de pessoa com deficiência) mas acima de tudo que consigamos ser, cada um de nós, mais pró-inclusivos no nosso dia-a-dia. Longe dos holofotes, microfones e rótulos de pessoas conscientes das diferenças “dos outros”.
Reafirmo: ter uma deficiência não é uma escolha “dos outros”. Não é algo que, se não nasceu connosco, já não nos apanha! Ter consciência do que é o dia 3 de Dezembro, do que significa a condição de “pessoa com deficiência”, é ter cada vez mais consciência sobre quem somos. É que “pessoa” vem antes de “deficiência”, por isso adquiri-la está ao alcance de qualquer um; seja por velhice, acidente, insucesso de uma cirurgia, negligência médica ou até o aparecimento de uma doença. Por incrível que pareça, as pessoas com deficiência não são necessariamente doentes, mas o contrário pode acontecer.
Acredito que vivemos todos debaixo do mesmo céu e, se calhar, o dia 3 de Dezembro não é o dia “dos outros”. Na minha opinião, isto é que precisa de ser cada vez mais gritado, para que, os que hoje são pessoas com deficiência, não se sintam num mundo à parte, e os que (ainda) não são, não se considerem salvos de um qualquer mal e, por isso, superiores.
Quando esse grito acontece, tornamo-nos todos, necessariamente, pessoas mais gratas.
Ser grata pela oportunidade de viver este dia – e todos desde que nasci – é para mim mais do que uma obrigação. O “com deficiência” é um motivo para agradecer ainda mais“.
Mafalda Ribeiro

1 comentário:

Filomena Silva disse...

Amei este texto. É assim que eu quero que vejam o meu filho, para que ele seja aos olhos dos outros uma pessoa, não apenas uma pessoa com deficiência.

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