quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

"Sabe, eu só quero que meu filho não seja especial"

No Dia Internacional da Pessoa com Deficiência vem-me à memória uma das lições mais poderosas que aprendi com a mãe de um menino portador de deficiência.

 Depois de uma conversa aberta, de temas, em cima da mesa, como "necessidades educativas especiais", "contingente especial", "educação especial" e outros termos "especiais" ela olhou-me nos olhos, daquele jeito perscrutador que só ela sabe olhar, e disse-me com aquele sotaque com açúcar:

 "Sabe, L., eu só quero que meu filho não seja especial. Que não cresça com o peso da especialidade, o estigma do (engrossando a voz) "eu sou especial", tenho que me portar exemplarmente "porque sou especial", "não posso fazer besteira porque sou especial", "tenho que corresponder às expectativas de todos porque sou especial". Eu só quero que o meu filho seja tratado de forma não especial, de forma corriqueira e banal. Esperando dele a normalidade de comportamento, atitudes e reacções que são expectáveis em todos os meninos da idade dele. O que quero mais na vida é que o meu filho não seja especial, que diga disparates, que voe na sua cadeira de rodas e possa experimentar a solidez do chão, que tenha bons resultados em algumas disciplinas e que não goste de outras, que tenha desgostos de amor, que seja pleno de direitos e deveres, quero tudo isso, só não quero nem vou deixar que ele cresça à sombra do desígnio de que "é especial", tenha necessidades "especiais", direitos "especiais" ou deveres "especiais". Quero que ele tenha uma vida justa, não especial". 

 E eu, que lido com a deficiência há 34 anos, aprendi a maior lição de sempre: que a pessoa com deficiência deve reclamar pela justiça e não pela especialidade.

 E nunca mais irei esquecer esta mãe, essa sim, uma mãe especial. 

 (Um beijinho querida, grande e enorme Jaqueline!)

5 comentários:

Filomena Silva disse...

Como eu compreendo essa mãe.

Terapia das palavras... disse...

Partilho inteiramente e subscrevo na integra..!!!

As pessoas tendem a confundir esses valores,,,e continurem a ver as pessoas como "coitadinhas"..vamos la ser bonzinhos,,nao se trata disso,,mas de justiça sim.concordo inteiramente..

E esse papel cabe a todos nos,,enquanto pessoas e sociedade,,

E sim eu tb mae duma criança portadora de deficencia..!

Este Blogue precisa de um nome disse...

A MC [minha filha] teve na sala dela o António, que é autista. A Educadora apresentou o A. no primeiro dia e explicou [na minha opinião, não explicou nada, mas está bem]a doença do António e que ele é e iria ser sempre um menino especial. Sabes o que é que a MC me disse quando chegou a casa? [na altura com 4 anos, repara]

- Oh mãe, não percebi nada do que a Claúdia* disse. Disse que ele é especial, mas especial porquê? Eu também sou especial, aliás todos os meninos da sala são especiais...

Como vês... tinha 4 anos e já tinha percebido tudo. Trabalho com crianças: num parque de diversões e posso dizer-te que lá, todos são especiais e nenhum deles é tratado de forma diferente: são todos tratados com carinho e respeito :-)

Beijo

* a Claúdia era a Educadora, na altura.

O Copinho de Leite disse...

Compreendo e subscrevo! :)

http://ocopinhodeleite.com/2014/11/11/criancas-especiais/

S.o.l. disse...

Nós queremos tudo isso, é verdade. Mas isso é uma luta que não serve todos os meninos especiais.

E naqueles, como o meu, que não podendo mudar, se sorri e aceita, só queremos que os termos "necessidades educativas especias" sejam de facto orientadas para ele. Que os "especiais deveres" sejam feitos com a responsabilidade que tento lhe ensinar, e que os "direitos especiais" sirvam para minimizar o especial e igualá-lo a qualquer outro e encaixar na sociedade de forma pacifica... normal. Com as mesmas oportunidades, com uma formação equivalente. E aí sim, nesta luta, reside a minha reclamação por justiça.

Beijinho.

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