segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Um fim-de-semana de esperança




[Madrugar sábado. Apanhar a Paula para lhe dar boleia. Esteve dois anos à espera de uma vaga num curso técnico-profissional. Conseguimo-lo juntas. Sai todos os dias de casa, sempre pontual, para ir ao Centro de Formação e volta pelas 20h. Não lhe oiço uma palavra a reclamar, um desabafo de cansaço. Apanho-a para a levar para um encontro no Centro do País, onde poderá encontrar a Amanda que vive no Porto, melhor amiga de colónia de férias, de telemóvel, sms e de facebook e, só de vez em quando, de cheiro. Hoje é o dia e a Paula sorri de forma aberta, como quase nunca sorri. Encontrar todos à porta da Associação. Sorrisos e gargalhadas às sete da manhã. Cadeiras de roda primorosamente arrumadas na bagageira do autocarro com o elevador que permite a mobilidade de todos. O mundo deveria ser um tapete rolante. Ou um tapete voador gigante, como no filme do Aladino, de que tanto gosta a minha filha. Chelas para trás. Duas horas e meia e chegados a Cantanhede, vêem-se abraços, ouvem-se beijos, lambem-se lágrimas de alegria e de reencontros, partilham-se sorrisos e piadas muito privadas. Mámen ascende a um lugar de destaque, guiado por nós, tornando-se o timoneiro que esperamos que nos guie de retribuição. Estou feliz, orgulhosa e crente num futuro melhor. Para todos. Há festa de Natal, uma mesa gigante com comida partilhada entre todos, tupperwares que saem de sacos trazidos do Norte, do Sul, de perto e de longe, uns ainda trazem comida quente à forma de panos enrolados em tachos e uma panela gigante de sopa, há um pai Natal vestido com fatos do chinês e presentes humildes para todos e todos se riem e estamos todos felizes. Eu também. Voltamos no mesmo autocarro de coração cheio, planos do resto de fim-de-semana alterados mas a vida é boa, especialmente, porque os planos podem sempre ser replaneados. Há despedidas e saudades que se adivinham, há perfis no facebook adicionados e há uma comemoração a dois, assim que chegamos a casa, 
Há o despertador a ser desprezado ao domingo. E há um espreguiçar lento e demorado. Beijinhos na Ana e da Ana no meio dos nossos lençóis. Almoço o melhor strogonoff de salmão de que há memória, a Rita cozinha bem. Planos para a Colibri, tutoriais vistos na internet e a primeira vez que se trabalha em trapilho. E há o desafio de sairmos de casa só por sair, sem pretextos pomposos, idas ao médico ou a juntas médicas, irmos ao café só porque sim. E o Luis não quer despir o pijama e não aceitamos esse pretexto e saímos de pijama mesmo e rimo-nos todos às gargalhadas. E eu empurro a cadeira de rodas da Rita e mámen empurra a do Luis e faltam-nos mãos e a Ana sobe para o colo da Rita e conduz a liberdade sobre as rodas da sua imaginação. Cruzamo-nos com o vizinho que deu a cara na televisão contra a colocação da rampa que os prende em casa, prisão literalmente domiciliária, e a Rita diz bom dia e o Luis não fala e eu estou a tentar vencer a força daqueles malditos dois degraus e olho-o nos olhos e digo-lhe que com uma rampa seria tão mais fácil para todos. Vamos até ao café a cinco metros dali e mais degraus e as pessoas sentadas na esplanada ajudam-nos e a Rita acaba por subir com a ajuda das canadianas e deixamos a cadeira estacionada. Bebemos café e apanhamos sol, sol de rua, pardais pousam-nos na mesa, o vento afaga-nos o rosto, vida na cidade, corriqueira e quotidiana, rara e preciosa para estes nossos amigos. E vamos ao parque ali à frente e a Ana grita de alegria, enquanto voa até ao céu à boleia de um baloiço e ri, ri muito, incorporando o que nos vai na alma:"A liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo".
Haja esperança. E há. ]

2 comentários:

Coisas que me tocam disse...

Texto tão delicioso. Tão bom o sabor da esperança!

Sílvia disse...

É por isto que eu gosto tanto de passar por aqui :) Porque há sempre uma esperança que tudo pode melhorar!

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