sábado, 13 de dezembro de 2014

Us

Olhei-a ao longe. Alta, magra, com um sorriso que tem brilho como se sorrise com o olhar, a alma, o coração. Chama-se Ana e não se podia chamar outro nome.
Conheci-a porque escrevo neste blog. Porque um dia, há exactamente seis meses atrás, pedi aqui ajuda para uma desconhecida, minha e dela, alguém a quem não conhecíamos o rosto nem o tom de pele, a altura ou o tom de voz, apenas a história. Ela ajudou-a e ajudou-me a ajudá-la e, ainda que ela não saiba, ajudou-me muito mais a mim.
Olhei-a ao longe. Envergava uma camisola gira com a palavra "Us", a Ana, com uma pronúncia que amo, do norte, de casa, a tirar fotografias nesta festa da Móvel Vivo, a loja de decoração mais quadripolar do Mundo, num fundo com o logotipo desenhado pelo Bruno, a msterialização do Bairro do Amor.
Em seis meses fizemos muitas coisas juntas, eu e esta Ana, fomos a um bairro social, tirámos medidas a paredes, recrutámos uma colaboradora, visitámos casas de clientes, comemos picanha numa noite divertida, planeámos esta festa, desabafámos, perdemo-nos mesmo tendo GPS, rimos, ficámos com nós na garganta, arrumámos caixotes de cartão no armazém a altas horas de madrugada e, no meio disso tudo, tornámo-nos amigas.
Olhei-a ao longe. A palavra na camisola a ecoar-me o pensamento. Podemos conhecer mil pessoas mas poucas são as que nos tocam, as que se tornam parte de nós, fazem parte do plural que também somos. São "us". E a Ana é.
Sophia de Mello Breyner disse um dia que alguma poesia faz realmente sentido quando o sentido das palavras coincide com o seu significado. 
Nada mais simples, vide infra...
Us. 

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