sábado, 3 de janeiro de 2015

Acordar com o Zé Cabral*

"Este Verão descobri que o dia 31 de Agosto é o dia mundial do blogue. Nesse dia li artigos e assisti a reportagens que me fizeram perceber duas coisas. A primeira é que boa parte do interesse que os media descobrem nos blogues é por via da criação, por parte dos chamados famosos, das suas páginas pessoais (assumindo que tem sentido chamar de “blogue ou página pessoal” a algo que, em alguns casos, se pede a terceiros para tratar mas enfim... pouco importa isso agora). A segunda, que me importa bastante mais, é que o único foco ou interesse que foi atribuído à blogosfera é aquele que aparece pela via comercial. O Alfaiate faz hoje 6 anos. E uma das coisas que mais me orgulho (que não faz de mim melhor nem pior, faz-me apenas sentir bem com isso) é que a forma como lidei com este blogue foi sempre a mesma. Viessem cá 10, 100, 1000 ou 10 000 pessoas por dia. E é isso que digo sempre que alguém me “acusa” de esquecer este blogue. Digo que é impossível estar esquecido. Que (quase) tudo o que conquistei profissionalmente na última meia dúzia de anos decorre directa ou indirectamente daquilo que fiz aqui e do que aqui foi feito me permitiu fazer noutros sítios. Mas voltando a 31 de Agosto... Hoje, sobre os blogues, parece importar apenas o retorno que geram a quem pague para ter lá os seus produtos ou serviços. E não, não me faz confusão alguma que se ganhe dinheiro com um blogue (nem poderia, até porque fiquei bastante contente da primeira vez que isso me aconteceu). Nem mesmo que se ganhe dinheiro com os conteúdos de um blogue. Talvez me faça alguma confusão que se ganhe dinheiro com um blogue falando com as pessoas como se se tivesse acordado uma manhã a pensar num produto ou serviço quando na verdade se acordou uma manhã com um e-mail ao qual se respondeu com um orçamento. Mas nem é bem isso. Aquilo que me faz confusão é que se passe por cima (ou pelo menos foi isso que senti que os media fizeram) de tudo aquilo que – na minha cabeça – é afinal um blogue. Gosto de pensar que se entrasse num blogue de menswear encontraria as marcas ou produtos que mais inspiram o seu autor e não aquelas que entenderam dispensar-lhe parte do orçamento. Que se pesquiso na blogosfera por um apaixonado por viagens ele me vai dar os insights mais genuínos sobre um local e não sugerir-me o hotel que oferece uma estadia anual à sua família. Talvez me bastasse ler alguma coisa que identificasse publicações contratadas como algo que não é (porque não é mesmo) de natureza puramente editorial (admitindo que alguma coisa de editorial um conteúdo dessa natureza pode ter). Talvez me bastasse pensar que um blogue era, mais que outra coisa qualquer, um espaço onde determinada pessoa publica aquilo que mais gosta ou em que mais acredita. Talvez me bastasse saber que o leitor – por culpa do qual o autor de um dado blogue atinge determinado objectivo, grau de felicidade ou dose de sucesso – soubesse o maior dos motivos (reconhecendo que orçamentos e transferências bancárias não são mutuamente exclusivos da simpatia pessoal que alguém que está a ser pago possa genuinamente nutrir por determinado produto ou serviço)  pelo qual está a ler o que quer que seja. Ou será que o futuro, se me permitem a caricatura, é visitar um blogue assinado por um político de direita (ou esquerda) e ver um artigo que lhe foi encomendado por um partido de esquerda (ou direita)? Ou assistir a alguém dizer todas as maravilhas do mundo porque, chamando às coisas aquilo pelas quais elas pedem para ser chamadas, lhe pagaram para tal? Ou será que para vivermos algo parecido com esta última frase não temos sequer que esperar pelo futuro? Não sou o Velho do Restelo nem os blogues têm que permanecer como nasceram. Mas gosto de pensar que a verdade e o respeito pelo próximo (ainda mais por aquele que nos lê) são tendências intemporais, não importa o ano nem a estação. É espectacular e tremendamente inspirador pensar numa dada plataforma onde eu ou outro qualquer Zé ninguém pode publicar de forma livre e gratuita o que quer que seja e (se for esse o caso), com os seus méritos e deméritos, conquistar uma legião de seguidores, passar a escrever para ali, a fotografar para acolá ou a fazer para a outra metade do mundo o que quer que seja que o seu blogue atestou que fazia tão bem. Mas não é assim tão giro mentir às pessoas. Em particular àquelas que são responsáveis pelo nosso sucesso, mudança de vida ou o que quer que determinado blogue tenha feito pela vida do seu autor. Por aqui não se preocupem. Censurem-me as vezes que acharem necessário por passar aqui menos do que devia. Mas retenham o seguinte: como há exactamente 6 anos ou no dia que aqui vieram pela primeira vez... e para o bem e para o mal... por aqui está tudo na mesma"



(*metaforicamente, com muita pena minha :P )

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