quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

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[Como te vou explicar, Ana, quem era aquela pessoa que aparece nas fotografias dos teus primeiros aniversários? Como te vou contar que não se morre velhinho e enrugado? Que não se morre doente do corpo e quando o coração desiste? Como te vou explicar, Ana, que nas fotografias que se vão seguir já não estará lá aquela pessoa?
Como te vou contar que nos conhecemos quando eu já te esperava e que ela te esperou também, feliz por ver nascer família novinha em folha, para ela também, acabada de (re)nascer no seio de nós? Como te vou contar que a vida, às vezes, cansa, cansa tanto que se quer fechar os olhos e dormir para sempre? Que pormos fim à vida, com tudo o que ela tem de bom, não é um acto de covardia, pode ser de imensurável coragem? Que a nossa tendência é sobreviver, sempre sobreviver, e que decidir parar é gritar mais alto que basta, que chega, a última oportunidade de mostrarmos à vida que quem manda nela somos nós?
Como te vou explicar que fomos incapazes de ajudar? De darmos a mão com mais força? De fazê-la pensar que, feitas as contas, viver é tão bom caraças? Como te vou convencer disto, Ana, quando vais ver fotografias dela com olhos vazios, lábios fechados e depois outras sem ela ao lado do tio nos anos que hão-de vir?
Como te vou explicar que nascemos sem sermos ouvidos mas que, mesmo que pareça que a vida se descamba, que não a controlamos, em última instância quem decide sobre ela somos sempre nós? Ainda que seja o fim. 
Como te vou explicar um dia o grito ensurdecedor do silêncio da depressão? O desespero de quem escolhe a forma de acabar com tudo? 
Não sei, Ana, o que te irei responder, um dia, quando me perguntares quem era a mulher da fotografia do teu primeiro dia de vida no hospital, porque deixou de sorrir como dessa vez em que, orgulhosamente, te pegou ao colo e porque já não está mais por cá. 
Chove lá fora, é Janeiro, e vou sair agora para o cortejo fúnebre. E antes de sair de casa penso que, um dia, vou ter que te contar como é triste morrer-se assim, Ana.]

6 comentários:

joana disse...

um beijinho enorme, pólo*

Carol disse...

<3

Coisas que me tocam disse...

A morte, antes da velhice é sempre díficil de explicar, e mais dificil de entender. Explicar uma morte decidida é-o muito mais!Mesmo tendo o leque de todas as razões, essas, nunca parecem ser suficientes quando, em oposição, se vislumbra as imensas razões para não o fazer.

J. disse...

Eu sofro de uma depressao grave e ja tentei inumeras vezes o suicidio e estes textos tocaram-me. E mesmo um acto final que visa controlar aquilo que nos resta da vida e por termo ao sofrimento que nem com todo o apoio do mundo conseguimos apagar.

raquel disse...

Um grande beijinho*

Maria Elisabete Vida disse...

Eu também tenho uma depressão e existem alturas em que dá vontade de abandonar tudo, porque tudo se torna insuportável. Há que ter coragem para continuar. Quando a Ana crescer, polo, ela vai entender. Beijinhos. A vida é dura.

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