domingo, 25 de janeiro de 2015

Home is where she's happy



"Chegámos a terra do pai. Chegámos a terra do pai. Chegámos a terra do pai. "- cantarolava a Ana. Antes de sairmos do avião apertei-lhe o casaco. Não estaria frio, sabia-o bem, mas a humidade no ar prometia. 
 Peguei-a ao colo e apertei-a contra mim, um bocadinho receosa de como iria ela reagir aos avós que só contacta via skype, ao tio de quem só ouve falar, à prima de quem já não se lembra do cheiro. Ao descer as escadas, deixei a humidade do ar soprar-nos no rosto e olhei-a nos olhos. Tinham mudado de cor, olhos das ilhas, camaleões do Atlântico. O azul tinha dado lugar a um verde maravilhoso, reflexo da paisagem circundante e mais brilhantes, ainda mais brilhantes, os olhos da minha filha, como se tirassem a máscara do azul de sempre, como se, finalmente, pudessem ser o verde- Açores que, afinal, sempre foram. 
 A minha filha abraçou o avô primeiro, trepou-lhe para o colo como se fosse uma árvore de fruto, a cujos ramos se trepa todos os dias. Não quis sair. Abraçou a avó como se a tivesse visto na véspera, cúmplice e íntima, como se o skype fosse pele e o monitor do computador tivesse cheiro. 
 Uma semana depois voltámos a entrar no avião com Açores na pele, no rosto, no cheiro, nos cabelos e nos olhos da Ana, ainda verdes, verdes-ilhas, um bocadinho de azul também, mas sobretudo verdes-Açores. 
 "Diz adeus à terra do pai!"- convidei-a. "Adeus, Açoles!"- disse a Ana, enquanto abanava a mãozinha. 
 A terra não é só do pai. 
 Ela - agora- sabe-o bem.

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