segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Intermarché, CPCJ e... mamas!

Autoria da imagem: Prezado



O anúncio é estúpido. E é estúpido, fundamentalmente, por três razões: começa por fazer um disclaimer alertando para que o que se segue é baseado em factos reais, depois, porque coloca a tónica da mensagem na suposta irresponsabilidade parental e, terceiro, porque mete mamas. 

Vamos por partes: o Intermarché até pode ser um supermercado que existe em muitas terras mais pequenas, onde há uma maior proximidade entre as pessoas, onde se sabe o nome das empregadas e tudo- dou de barato alguns casos onde isso possa acontecer- mas não acredito que haja histórico de alguém abrir o supermercado de madrugada para acudir a um cliente. Na maioria dos supermercados a dez minutos da hora do fecho já há um segurança mal encarado a rosnar que já não podemos entrar, quanto mais... Tiro no pé nº1- o anúncio é mentiroso! E as pessoas não gostam lá muito de ser engrupidas assim à descarada. E é isso que chateia, essencialmente, no anúncio do Intermarché.

Segundo ponto: os marketeers escolheram como bem de primeira necessidade, motivo maior para a dona Alice acudir o cliente o quê? Preservativos para a queca urgente? Pensos higiénicos para a universitária não ter que enrolar papel higiénico nas cuecas quando sai da discoteca e lhe aparece o período e ela não traz nenhum penso na clutche? Uma caixa de profiteroles congelados prontos a serem aquecidos no micro-ondas para satisfazer o desejo da mulher grávida? Não: o leite adaptado, esse grande criminoso. 

Problema número 1: ninguém acha que o leite adaptado é um bem de primeira necessidade. "Ah e tal, que lhe desse mama!" ou "Se a mãe lhe desse mama estavam os três quentinhos na cama a esta hora"- li eu pelo facebook. "Ah, mas se calhar secou o leite à pretensa mãe do Joãozinho e a moça tem lá culpa?"- piquei eu, uma amiga que usou o argumento da mama. "Que fosse à farmácia de serviço!" "Ah, mas se calhar eles estão aflitos de dinheiro e na farmácia é mais caro já pensaste?"- continuei, claramente a meter-me com el. "Se a mãe lhe desse mama não estávamos a ter esta discussão, que insistisse que as pessoas desistem logo à primeira dificuldade... É bem feita que agora a criança berre e que eles fiquem enrascados!" E assim se vê que há quem defenda muito o amor pelos filhos vinculado pela amamentação mas não o identifique perante a ideia de um bebé esfomeado, que deve é "pagar" pela escolha da mãe que não se sacrificou o suficiente e merece que nenhuma porta, mesmo que a hipotética de um supermercado, se abra para acudir o marido que só quer comprar alimento para a cria. "Ah, e se o bebé tiver sido adoptado e não houver, de facto, leite nas maminhas da mãe, han?" (sou a pior, bem sei). "Não estás a levar isto muito a sério: isto é só um anúncio!"- ouvi de volta, já irritada comigo, ela, que tinha sido a primeira a comentar ferverosamente o anúncio e a despoletar a discussão na caixa de comentários.

Problema nº 2- Ultrapassada a questão da escolha/opção/decisão pelo leite adaptado, na verdade, quem é o cliente aflito e coitadinho: o pai irresponsável que se esqueceu que a lata do NAN estava quase a chegar ao fim e vai deixar o Joãozinho subnutrido. E se a ideia da publicidade é gerar um sentimento de identificação com os consumidores acabámos de chegar ao tiro no pé número 2: ninguém é solidário com o pai irresponsável que se esqueceu que o NAN estava a acabar, ninguém tem pena dele (excepto a otária da Dona Alice que a esta hora já é odiada por todos porque é burra e deixou-se manipular pelo pai negligente e lhe foi abrir a porta do supermercado em vez de o denunciar à CPCJ). 

A esta hora as pessoas odeiam a mãe do João porque não lhe dá mama, o pai do João porque é irresponsável e deixou que a lata chegasse ao fim sem ter uma de reserva e a D. Alice porque é otária que se farta e está a ser engrupida por este casal. E odeiam os marketeers que podiam aproveitar este guião para fazer publicidade às farmácias portuguesas  mas preferiram aplicá-lo a um supermercado. 

E só não odeiam o João porque- coitadinho- é um pobre de Cristo com uma mãe fútil que não lhe quis dar mama, um pai irresponsável que lhe deixou acabar o pó da lata e uma vizinha D. Alice burra, burra, otária até à quinta casa, que nem para tomar conta da criança serve, pois deixa-se engrupir por qualquer um. 

Chamem a CPCJ! Ou dêem leite de vaca com cerelac à criança, caramba!




(A cupa disto tudo, claro, é da Pólo Norte. Porque não amamentou.)


11 comentários:

Inês Dunas disse...

O anuncio é completamente idiota, mas o que me aborrece ainda mais é a ideia que passa de que as pessoas que trabalham nos supermercados não são realmente pessoas, mas antes servos-escravos-e-sempre-de-cara-alegre-senão-merece-é-ir-p'ra-rua-já, porque não têm horas para sair, nem vida própria, nem família que se sobreponha às necessidades/ irresponsabilidades de uns pais que deixam o leite do bebé acabar e não estão para ir a outro sitio, porque quem é operador de hipermercado tem mais é que o atender fora de horas... O pior é que esta mentalidade visível no anuncio não é ficção, porque sempre que a porta de um hipermercado/supermercado fecha há sempre quem ache indecente que já não possa entrar, porque lá está a vida do cliente tem de valer mais...

Isabel Lobo disse...

Sim, porque nestes casos não se deve recorrer a uma farmácia de serviço? Pensei que sim... Ninguém se livra de ficar sem leite ou fraldas a meio da noite, mas sempre pensei que a farmácia serviria para isso, ainda que um pouco mais cara (vá lá, não exageremos, se comprarmos dentro do mesmo segmento os preços não variam muito e num momento de aflição, às 3 da manhã, uma pessoa quer lá saber do euro ou dois de diferença, quer é que a criança de cale e durma o resto da noite!).

Leididi disse...

E minha porque, como sabes, sou contra a amamentação.

Indigo disse...

Tanta coisa por causa de um anúncio. É estúpido, claro.

Inês Sousa disse...

Adorei este post. Melhor era impossivel. Eu que não pude amamentar, porque tive complicações tão sérias no parto que o meu organismo se entreteve mais a manter-me viva do que a produzir leite (sim, também existem razões biológicas para não haver leite)fico de tal forma irritada com este movimentos fanáticos pró-amamentação que só podia ter gostado da postura da Polo Norte em relação à amamentação (não só neste post como em tantos outros). Voltando ao anuncio, é a maior chachada de que há memória e deu-me que fazer porque o meu pimpolho ficou todo contente a pensar que o supermercado ia abrir de madrugada para dar de comer ao Joãozinho. Por acaso ele também se chama João e deve ter ficado mais descansado por imaginar que há uma D. Alice em cada Intermarché a arranjar comida e bolachas e chocolates às 3h da matina. Todas as vezes que dá o raio do anuncio e ele fica tdo contente eu lá lhe vou lembrando que aquilo é um anuncio que não é vida real (como ele diz) que nenhum intermarché abre de madrugada. Enganadores é o que eles são :-)

Daniela Rodrigues disse...

Engraçado...a única coisa que pensei quando vi este anúncio é que os gerentes por esses intermarché Portugal fora não devem estar a achar piada nenhuma ao anúncio...

Nota a reter: Se tiver mais um filho, meter-me à confiança com o gerente do Inter mais perto ahahahhaah.... sabe se lá.. pode dar jeito!

Ahh, só mais uma chega, sim...eu amamentei...

Ana T. disse...

Elucidem-me, que não sou do tempo do post sobre as mamas da Polo (e não o consegui encontrar aqui no blog). Eu que não sou mãe e não estou dentro destes assuntos e, portanto, não tenho opinião formada sobre os mesmos, digam-me qual é o "problema" com a amamentação? É que vejo aqui varias opiniões "contra" e noutras vizinhanças bloguísticas também já me apercebi de um certo buzz sobre este assunto. Mas, confesso, nunca dediquei 5 minutos a pensar nisso - talvez porque ainda não despontei para o mundo maternal. Mas como sou curiosa e gosto de andar informada, vai daí, faço este meu comentário que não é mais que um pedido de elucidação. Descobriu-se que a amamentação é prejudicial (de alguma forma)?
Obrigada!

Bolacha Sofia disse...

Honestamente, não acho o anuncio nada de mais. Tanto barulho por nada. Mas o mundo não tem mais nada que fazer senão inventar razões para discutir?
É um anuncio perfeitamente normal, não é de génio, mas não é nada por aí além.
Já chega de acharem que as vossas mamas ou escolhas de amamentar/não amamentar interessa a alguém e que o mundo gira à volta disso.
Não quero faltar ao respeito a ninguém, só acho é que inventam coisas a mais e que têm todas a mania da perseguição.

Padrinhos civis disse...

Leididi, contra a amamentação? É uma ironia interessante. Julgo entender: como há quem seja contra a decisão de aleitar versus amamentar, quer brincar com a posição oposta.

A ironia é interessante, mas não me dá para rir. Estou farta das osições extremadas. Acho que realmente cada um deve fazer o que acha melhor para si e para os seus filhos (desde que não os ponha em perigo, porque aí é mesmo de chamar a proteção de jovens e crianças em risco). A mim as pessoas (especialmente raparigas que tiveram filhos na mesma altura que eu e já não amamentavam) pressionavam-me para deixa de amamentar - eu amamentei até 1 ano. Vão-se lixar. Faço o que me der na real gana! Se eu quiser dar cabo das minhas mamas é cá comigo!! Nunca senti prazer algum em amamentar, fi-lo porque achei que era o melhor para a minha cria. É cá comigo. Quem prefere aleitar porque não quer andar a deitar leite tipo vaca leiteira, nem cheia de dores nos bicos das mamas e a sangrar e muitos outros incómodos, força nisso - cheguei a ponderar essa opção.

Ser contra amamentar é tão ridículo como contra aleitar. Eu cá sou contra é que passem fome.

E por falar nisso, cá em casa também achámos um anúncio pouco credível, embora admitindo que tudo é possível nesta vida. Oh Polo, pelo amor de Deus, vai o casal à falência por gastar mais uns euros na lata de leite da farmácia de serviço? Ora adeus.

Nota 1: Pólilon, sabias que as mães que adotam podem tomar hormonas para amamentar? (Só para te provocar :-)

Nota 2: Acho que nos conhecemos no evento do Rodrigo. Se eras tu quem eu penso, disseste-nos que achavas super romântico um casal dar-se como doadores de medula juntos)

Patricia Pinto disse...

Ploa, amiga, tou contigo e não abro!
Só amamntei as minhas duas crias um mÊs, ali espremida, com bomba, sem, bomba, com mamilos de silicone xpto e cenas! E nunca achei que era má mãe por lhes dar LA! Mas sinceramente também nunca perdi muito tempo a pensar nisso. Elas tinham fome e era preciso solucionar a coisa. Mai nada!
O que me irrita é o fundamentalismo e fanatismo que se gera à volta de uma ideia/crença/consumo!!!
Mas isto é com leite materno mas pode bem ser com o café delta ou com o fcp!! Tudo o que os outros me tentem impingir por meio da evangelização é logo meio caminho andado para não correr bem! Eu faço as minhas próprias escolhas! E se são as melhores ou as piores isso é comigo!
Quanto à D. Alice, bom...eu já trabalhei num supermercado de bairro e tinhamos taaaantas cenas "à d. Alice"!!! A intenção do Inter até era boa, mas foi À trave...
Bolacha Sofia, se não fossem estas invenções e manias da perseguição, o que é a menina depois comentava?! Com todo o respeito..... :)

A Limonada da Vida disse...

Era uma D. Alice como a do Intermarché, fachavor! Até sou capaz de vir a ter mais filhos só por causa dela.

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