segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Je suis Charlie, Je ne suis pas Charlie, etnocentrismo e liberdade. Sempre liberdade.




Começou a surgir pelas rede sociais (onde mais?) a manifestação "je suis charlie" como forma de mostrar solidariedade para com as vítimas da tragédia de Paris bem como como para enaltecer o direito fundamental à liberdade de expressão. Era, pelo menos para mim, essa a leitura possível. Claro que depressa se insurgiu o movimento dos "je ne suis pas Charlie" e eu fiquei assim meia "wtf?" como se alguém pudesse questionar o horror de dois terroristas assaltarem uma redacção de um jornal e matarem a sangue frio pessoas, seres humanos, com vidas, mães, pais, filhos, irmãos, sonhos, objectivos e, sim ideias e ideais. As mesmas ideias que lhes eram possíveis defender  e expressar através de um direito fundamental do ser humano: o da liberdade de expressão. Aparentemente não: havia quem não queria ser Charlie e eu fiquei assim meio indignada até que parei para pensar. 

A minha leitura destas três palavras "je suis charlie" não era (surpresa!) universal. Claro que eu, mulher de 34 anos, nascida no Ocidente, num país (aparentemente) republicano e democrático, filha de um jornalista acho, no meu etnocentrismo, que deveria ser uma leitura universal.  Só que não. 

Eu sei que sim, que há vários contra-argumentos ou variáveis concomitantes para suportar esta afirmação: na Nigéria, Boko Haram, chacinou 2000 pessoas, entre as quais mulheres, idosos e crianças e não houve um movimento colectivo a afirmar "jesuisnigeria"; todos os dias morrem na faixa de Gaza civis e ninguém se indigna, nem se fazem manifestações com milhares de pessoas a denunciar o massacre dos israelitas. Concordo com tudo e, ainda assim, não deixo de ser Charlie. 

Ser Charlie é, em última instância, ser a favor da liberdade sem medos. Ser a favor da democracia. Das conversações, do direito a discordar sem medos. Ser contra qualquer forma de violência. Ser Charlie não significa subscrever a linha editorial do jornal, achar graça a todos os cartoons ou concordar com todos eles, significa acreditar que não há fronteiras para as opiniões, os pensamentos, o humor. Significa repudiar represálias, censura, opressão. Chacinas e assassinatos. 

Se reduzimos todo este repúdio a uma entidade única "Charlie", se nos comovemos mais ao ver os rostos dos 12 mortos no jornal do que com os milhares de pessoas que morrem na Nigéria, na faixa de Gaza, no Paquistão, no Quénia ou mesmo da menina de dez anos que foi transformada em bomista suicida? É possível. Tendemos sempre a empatizarmos mais com quem conhecemos o rosto do que com números.  Tendemos sempre a empatizarmos mais com quem nos identificamos (e volta o tal etnocentrismo) e com quem estamos mais próximos. E eu sou ocidental, republicana e crente na democracia. E sou, acima de tudo, contra o atentado e qualquer ação terrorista de qualquer ideologia que ocorra em qualquer parte do Mundo. 

Mas parei de me irritar sempre que via o hashtg #jenesuispasCharlie porque, afinal, liberdade de expressão é cada um ler, interpretar, afirmar a realidade da forma como a vê e dizê-lo, gritá-lo, expressá-lo livremente! Mesmo que isso me faça revirar os olhos, deixar de ler o que profetizam, borrifar-me nas suas opiniões. 

A liberdade é uma faca de dois gumes: todos têm direito a discordar do que eu penso/digo/faço. Mas eu terei sempre a liberdade de não condicionar o meu pensamento, discurso ou acção à opinião dos outros. A liberdade de não as validar, dar-lhes importância ou perder o meu tempo com elas. De os achar estúpidos. 

"Je ne suis pas Charlie?" Como queiram. Espero que com isso não discordem da onda de solidariedade que representa o movimento contrário, não deixem de reprovar veementemente que se tenha que matar para defender opiniões, para fazer valer ideais. 

De resto, luto pela liberdade de cada um ser ou não ser o que lhe aprouver. E que, por isso, não tenha que levar com um balázio na testa. Ser Charlie é isto. 

8 comentários:

krasiva disse...

é mesmo isso :) concordo completamente.

Johnny Guitar disse...

Bom texto.

maria teresa disse...

Aplaudo esta sua análise!

pat disse...

Não houve um movimento colectivo a afirmar "jesuisnigeria", mas houve um individuo em particular que o afirmou, em português, e o deixou publicado quem sabe para contagiar muitos outros que olharam para o lado. É só ler aqui: http://pt.blastingnews.com/internacional/2015/01/boko-haram-massacra-2000-e-toma-cidade-nigeriana-de-baga-00227961.html

Filomena Silva disse...

É isso mesmo que sinto em relação a isto tudo. Adoro quando escreves o que penso.

Krystel disse...

Subscrevo cada linha. Excelente post!

Blog

Este Blogue precisa de um nome disse...

:-) sensatez, a isto chama-se: sensatez. há algumas coisas que dizes que não concordo [aliás só uma], mas foste muito sensata no teu texto: foi o sobressaiu na minha leitura ;-)obrigada.

Miss Golden Cage disse...

Sou uma das pessoas que não se revê no "je suis Charlie" e não é pelos motivos inscritos na imagem.
Morreram jornalistas, toda a classe reagiu. Afinal, foram colegas, podiam ter sido eles. Provavelmente é um problema de identificação, eu não me identifico com a classe.
Emocionei-me ao ver as imagens, fiquei de lágrimas nos olhos quando ouvi o relato da jornalista que foi poupada, fiquei cheia de pena ao ouvir os familiares entrevistados.
Eu não acho que tenha sido um ataque à liberdade de expressão. Penso que os terroristas estavam sedentos de matar e só precisavam dum argumento. Se não fosse o Charlie Hebdo teria sido uma sinagoga ou outra coisa qualquer.

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