quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Nunca é fácil sermos nós

Comecei a trabalhar na área organizacional há dez anos. A 65 quilómetros de casa. Na altura não tinha carro e apanhava 2 comboios e 3 autocarros para chegar ao escritório. Demorava 2,5 horas para lá chegar e não ganhava nada de jeito. Gostava muito do trabalho. Muito mesmo, o suficiente para aguentar este ritmo durante mais tempo do que julgaria ser capaz. Invejava as minhas amigas que trabalhavam perto de casa, sortudas, não sabiam a sorte que tinham.
Arranjei trabalho à porta de casa, a ganhar melhor, num trabalho igualmente desafiante. A proximidade de casa levava a que trabalhasse em média 14 horas seguidas. Não fazia mal, não precisava de apanhar transportes, num pulo punha-me em casa. Muito tempo depois andava exausta. Perdera tempo de qualidade com a minha família, desencontrei-me do meu marido, via de relance o meu avô, acabei por perder ambos. Fiquei, heróica, com o meu trabalho. Invejava as minhas amigas que tinham hora de saída, que picavam ponto e não tinham a traiçoeira isenção de horário de trabalho, que viviam longe e, por isso, tinham sempre um transporte de desculpa para saírem a horas.
Já trabalhei muito: 12 a 14 horas seguidas numa multinacional chique, todos os dias, meses seguidos, anos. Não percebia as mulheres que engravidavam e se desleixavam no trabalho. Que queriam gozar todos os meses da licença de maternidade, com tanto trabalho À espera delas na empresa. Não se fartariam de estar em casa? Não teriam saudades de ser activas? Mulheres para além de mães? Parecia que a maternidade as tinha tornado mais lentas, mais displicentes, menos boas profissionais. Invejava a sua descontracção, a forma distante e menos rigorosa com que olhavam para o trabalho, as respostas descontraídas "o trabalho não passa do prazo, Liliana!", "quando um dia te fores embora não levas nenhuma medalha, vai mas é para casa aproveitar os teus". Bem que queria, mas eu não era assim. Que inveja eu tinha das pessoas que não precisavam de trabalhar. 
Engravidei e vim-me embora. Perdi o bebé e fiquei em casa uns dias que me pareceram meses, anos, décadas. Trouxe uma indemnização que não me obrigaria a trabalhar durante um bom tempo, podia ficar confortável em casa, a aproveitar o tempo que não tivera nos últimos anos. Na verdade, naquela altura, não precisava de trabalhar. Que inveja que tinha das mulheres que saiam todos os dias de manhã para o trabalho, que tinham ponto para picar, que traziam trabalho para casa depois do escritório, que eram úteis à sociedade. Quem me dera voltar a ser executiva, trabalhar, ter horários e salário, quem sabe, na loucura ser dona da minha empresa, isso é que era. 
Veio a empresa. E com a empresa a responsabilidade de ser patroa de mim, chefe das minhas próprias tarefas, colega de uma sócia, não reportar a ninguém. Meses de deslumbramento. E depois a inveja de quem não tinha salários para pagar, quem sabia ao certo quanto ia levar para casa no final do mês, quem não tinha a responsabilidade de gerir tempo, clientes e pessoas. De quem não se tinha que preocupar com lucros, margens brutas, margens liquidas, pagamentos de IVAs e dores de cabeça sem fim. 
Engravidei. Tive a Ana. Parei. Parei um ano inteirinho: o melhor da minha vida. Não trabalhei mas tive uma chefe de mim (ter um bebé em casa é uma tirania), isenção total de horários, jornada contínua non stop, pouco dinheiro, actividades várias, muitas das quais sempre julguei ser incapaz de fazer (experimentem tirar ranhoca a um bebé chupando num tubinho, sim?). Nunca, mas nunca antes, fui tão feliz. Não me apetecia trabalhar, não tinha saudades do mundo lá fora, estava-me a cagar para tudo extra meterno-cápsula. 
Um dia voltei devagarinho. A um projecto onde já tinha estado antes, dona do meu tempo, dona da minha gestão de tarefas, numa área onde já não trabalhava há muitos, muitos anos. Estava feliz, nunca mais fiquei infeliz depois de ser mãe, parece magia. Um dia dei por mim a invejar as miúdas novas, as que tinham salários mais atraentes, as que eram apetecíveis ao mercado, as que tinham energia ilimitada, disponibilidade total, flexibilidade sem fim. Mas depois, acordava mais tarde que o despertador da maioria das pessoas, voltava mais cedo para ao pé dela, tinha tempo para brincar de dia com ela e tudo passava. Ser mãe muda-nos para sempre.
Agora estou longe. Primeiro pensei mudar-me para a cidade para onde fui trabalhar. Aluguei um quarto para as primeiras semanas. A família visitar-me-ia a meio da semana e pernoitava comigo, eu regressava aos fins-de-semana. Um par de dias. Aguentei um par de dias a ver a minha filha pelo skype, a contar-lhe a história antes de dormir através de um microfone de computador, a não poder dar-lhe um beijo de boa noite. Nunca pensei desistir. Adoro o novo trabalho e não consigo viver sem a miúda por perto. 
Vou e venho todos os dias. Levanto-me às seis da manhã. Regresso às oito da noite. Estou cansada, exausta e sem tempo para nada do que é acessório. Aprendi a distinguir o que é prioritário daquilo que é apenas importante. Finalmente, aos quase 35 anos, não invejo ninguém, não trocava a minha vida pela de ninguém. 
Tenho um trabalho que adoro. Uma filha que me faz infinitamente feliz. Um marido fabuloso que me apoia em todas as decisões. Uma mãe, tia e prima que são a melhor rede de suporte social e emocional do Mundo. Estou, finalmente, completa. 
Pimenta no nosso cu nunca é refresco. Mas podemos deixar que apenas nos faça cócegas. E termos noção que quem corre por gosto cansa-se, sim senhora. Mas nada como fazermos rasteiras às dificuldades quando nos tocam a nós. E rirmos. E continuarmos em frente. 
Para a frente é que é- sempre- o caminho. 


6 comentários:

Lullaby disse...

sabes aquela inveja boa que é quase um orgulho alheio?
não nos conhecemos, mas mereces tanto ser feliz Pólo :) um grande beijinho e vou sugar um bocado dessa coragem sim?*

Reflexos... disse...

Adorei ler este texto e para mim é uma bonita declaração de Amor.


Que bom que consegues perceber que os momentos menos bons fazem parte do "pacote" que é a vida , custa muito enfrentar esses momentos, mas depois sabe tão bem saber que os superamos e somos mais, muito mais do que eramos antes.

Admiro-te e não sou de graxas , muito menos de me fazer de vitima...sabes a minha vida aos 35 mudou!!
Mudou tanto, tanto!!
Mudou pelas piores razões, porque quem estava ao meu lado afinal era o meu maior inimigo e "matou-me"
...achei que não sobrevivia, pedi a deus ou a não sei a quem para não morrer, o meu pai precisava de mim!!

Já passaram 6 anos ,retomei o meu trabalho, mudei para a casa do meu pai, a empresa fechou.. o meu pai infelizmente partiu...não que ele quisesse, mas alguém quis! Foi dificíl!! Caramba ainda o é, cada dia é mais...que saudades!!!

Os outros foram deixando mas no meio do caos encontrei a pessoa mais maravilhosa do mundo, alguém tão especial que acho que sobrevivi para o encontrar...acredito que um dia serei feliz, seremos!!!

Estes 300 kilometros que nos separam é apenas o nosso jogo do Monopoly , umas vezes eu subo umas estações e fico nos Aliados outras vezes ele desce até ao Rossio, passamos na casa de partida e mais nada nos separa até novo "lançamento "dos dados...



Abraço e obrigada.

Purpurina disse...

Opá venho aqui para me inspirar! Que mulher tu me saiste! :D Ser mãe, muda-nos magnificamente! Passamos não só a saber, mas a sentir com todos os nossos poros o que é verdadeiramente importante.

Ana disse...

Neste momento eu tenho inveja de quem tem um emprego com um salário digno. Apenas e só. Com 46 anos começo a ter medo de não conseguir emprego novamente, apesar de ser hiper qualificada :-( Mas acredito, ainda há bocado pensava que tenho de viver a acreditar porque, senão, mais vale acabar com tudo.

Maria João Coutinho disse...

Admiro a tua força e coragem! Também eu gostava de me sentir assim...sempre tive muita vivacidade e energia e o trabalho completava-me de uma forma fantástica. Mas há 5 anos estou num trabalho desmoralizante, que me corrói todos os dias, que me abate e deprime. Numa área difícil como a minha, não me atrevo a ir embora...seria muito pior. Mas fico tão feliz quando vejo pessoas felizes com o seu trabalho...talvez um dia volte a ficar completa!
Beijinhos e tudo de bom para ti!

ccstylebook disse...

Pólo Norte,adorei o teu texto.
A minha vida profissional, que não deve ser tão longa quanto a tua, também tem sofrido algumas reviravoltas. Desde que os 30 chegaram que entrei numa crise existencialista que afectou todas as áreas da minha vida, sobretudo a do trabalho. Quanto é que ele pesa nas nossas vidas. Dizem-me que quando se tem filhos, deixa-se de ter "existencialismos", espero que quando esse dia chegar assim o seja. Como é que não te descobri antes?! Ler-te é uma delícia! E já agora, homem açoriano? Sou podes ser uma mulher de bom gosto [viva à Terceira,a minha verdadeira casa]. Beijinhos,CC

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